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sábado, 7 de outubro de 2017

Faltam enfermeiros nas ilhas pequenas

O presidente da Secção regional dos Açores da Ordem dos Enfermeiros alerta para a falta de profissionais nas ilhas mais pequenas.

Viver numa realidade insular, no caso dos Açores uma região ultraperiférica, acrescenta grandes dificuldades no acesso à formação e à possibilidade de partilha de conhecimentos. Por exemplo os enfermeiros que fazem mestrado, doutoramento, investigações de âmbito clínico e que por viverem em ilhas têm dificuldade em ir a congressos ou eventos científicos, porque sai cara a viagem. E se vivem em ilhas mais isoladas, como Flores e Corvo, decorrem custos acrescidos, o que não é compatível com os parcos rendimentos dos enfermeiros.

Outra questão prende-se com a acessibilidade dos cidadãos açorianos aos cuidados de saúde. É preciso ter em conta que no Inverno, com mau tempo, quando uma ilha está isolada, está de facto isolada, porque muitas vezes não há ligações marítimas e aéreas, o que obriga que os enfermeiros e médicos e outros profissionais (equipa multidisciplinar) que estão nos Centros de Saúde destas ilhas sejam detentores de um conjunto de domínios técnicos, científicos e humanos para dar respostas a necessidades que são irrepetíveis noutras regiões do país.

A Secção regional dos Açores da Ordem dos Enfermeiros foi a única que conseguiu, em parceria com o Governo Regional, determinar com rigor serviço a serviço, Centro de Saúde a Centro de Saúde, Hospital a Hospital em toda a Região, o número de enfermeiros em falta, que são 291.

A tutela assumiu publicamente o compromisso no horizonte temporal de 4 a 5 anos para suprimir estas necessidades, mas a Secção regional da Ordem dos Enfermeiros não pode concordar com este horizonte temporal. Há Centros de Saúde e Unidades de Saúde nos Açores que precisam de uma intervenção imediata, pois não se compadecem com os prazos de meses ou de anos. Há situações gritantes na Região Autónoma dos Açores de necessidade imediata de pessoal de enfermagem.


Notícia: jornal «Diário Insular».
Saudações florentinas!!

sábado, 16 de setembro de 2017

A cruz da Igreja da Fajãzinha

A Igreja da freguesia da Fajãzinha, conforme consta da sua própria fachada, foi edificada pelo padre Alexandre Pimentel de Mesquita, em 1778. É monumento de uma dimensão notável, só semelhante na ilha das Flores à Igreja Matriz de Santa Cruz. A grandiosidade do templo pode hoje parecer surpreendente, mas outrora a freguesia tinha muitos habitantes e a Igreja era Matriz das povoações vizinhas, nomeadamente da Fajã Grande.

Félix Augusto Pereira Martins, um continental que a Marinha Portuguesa trouxe à ilha das Flores, que se fixou nas Lajes, constituiu família, foi empresário, funcionário da Direcção-Geral de Aeronáutica Civil e das empresas que lhe sucederam e deputado, conta que o padre António Joaquim de Freitas, o último pároco residente na Fajãzinha, já nos anos sessenta considerava difícil mobilizar paroquianos ágeis para efectuar a manutenção da Cruz da Trindade, que encimava a Igreja.

A degradação absoluta da cruz levou Félix Martins em 2015 a tomar a decisão de construir uma cruz igual à original, em homenagem à Igreja, à sua gente e à origem da sua esposa. Seguiram-se as peripécias para descobrir o modelo original, que um acidente em 2016 fez adiar. Felizmente a zeladora da Igreja, Teresa Avelar, tinha tido o cuidado de guardar os fragmentos que, embora muitos ferrugentos, permitiram tirar medidas correctas e riscar moldes, bem como recolher, para recuperação, o medalhão central.

Foram gastos cerca de 74 kg de barras de aço inoxidável polido, de varão e cavilhas, 300 eléctrodos, algumas dezenas de discos de corte, de rebarbar e de roletos de lamelas de lixa para polir.

A junção dos 98 elementos e o desgastante trabalho de soldadura, para evitar torturas, empenos e danos de respingos dos eléctrodos, demorou mais de dois meses, resultando numa cruz com 2,24 metros de altura e 1,33 de haste a haste, com cerca de 70 kg de peso, a qual foi oferecida à Comissão para os Assuntos Económicos em 19 de Agosto de 2017, imediatamente fixada no local da anterior e benzida antes da festa da padroeira Nossa Senhora Remédios.

Poderá dizer-se que, começar pela cruz, foi a melhor forma de vaticinar a prevista recuperação da Igreja, que está bastante degradada, mas será uma obra muito dispendiosa, de que a população da Fajãzinha vai ser capaz, pois há anos trabalham, em união e afanosamente, para o conseguir, desde agora sob a protecção duma divina e admirável obra de arte, iluminada de noite e brilhando de dia com o esplendor do Sol.

E Cristo compensará a iniciativa, a generosidade e o esforço.


Opinião de Renato Moura, publicada no portal Igreja Açores.
Saudações florentinas!!

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Persiste a devoção à Senhora do Carmo

Passaram já umas dezenas de anos sobre uma derrocada no rochedo sobranceiro ao lugar da Ponta, na freguesia da Fajã Grande, que destruiu e danificou imóveis e também uma ermida. Como houve fundadas dúvidas sobre a eventual ocorrência de outras derrocadas, foi decidido retirar dali, definitivamente, os habitantes e dar-lhes apoios para residirem noutro local.

Passado tanto tempo, não se considera que a zona ofereça hoje maior perigo do que as inúmeras localidades habitacionais ou de férias existentes nos Açores, situadas junto ao mar e encimadas por rochedos. Assim a Ponta da Fajã Grande foi progressivamente voltando à ocupação, seja para habitação permanente ou temporária. A lei da vida foi levando os naturais do lugar e agora só ali habitam permanentemente uma meia dúzia, vindos de fora. A zona é, cada vez mais, local privilegiado para fim-de-semana e férias.

A Ponta tem igreja; a Padroeira é Nossa Senhora do Carmo. Regressados alguns naturais e enquanto houve ali um número mínimo de participantes na Missa, um sacerdote deslocava-se para celebrar ao sábado. E retomou-se a festa em honra da padroeira.

Merece registo o facto de os oriundos da Ponta, residentes onde quer que seja, ou mesmo emigrados, continuarem a contribuir para a sua antiga paróquia, com enorme generosidade. Em acção coordenada pela zeladora da Igreja, Dina Serpa Salvador, está em curso uma completa recuperação do templo, não só com base nos donativos recolhidos do exterior, mas através da criação de uma vasta e competente equipa, que tem promovido um conjunto de iniciativas locais de angariação de fundos.

No último fim-de-semana do passado mês de Julho realizou-se a festa de Nossa Senhora do Carmo, precedida de tríduo preparatório, com recitação do terço e missa, eucaristia solene no domingo seguida de procissão. A organização da festa atingiu este ano um apogeu, não só pelo cuidado posto na ornamentação do templo e do espaço festivo, mas pelas excelentes condições de acolhimento oferecidas aos visitantes, seja no restaurante ou na tasca, como pela animação musical, ou até pelos sinais de festa do estalejar dos foguetes, algo já invulgar na ilha das Flores.

Na festa da Ponta, como aliás nas demais iniciativas na Fajã Grande, foi relevante a colaboração da Junta de Freguesia, especialmente patente na acção directa do seu presidente, José Costa. Eventos religiosos e os demais atraíram um número invulgar de pessoas.

Apesar da adversidade que os separou, subsiste a força de um povo com fé e movido pela devoção. Que fica, para exemplo.


Opinião de Renato Moura, publicada no portal Igreja Açores.
Saudações florentinas!!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Passagens inter-ilhas são exorbitantes

Numa altura em que ainda se vivencia o “boom das low cost” e quando nos defrontamos com preços de passagens aéreas mais baratas para o Continente do que para as próprias ilhas, questionamo-nos inevitavelmente para quando um novo modelo que permita aos açorianos viajar a preços mais justos dentro de casa.

É certo que existe a tarifa residente na companhia de aviação SATA, mas viajar dentro dos Açores é atualmente muito caro.

Ainda recentemente a própria direção da Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada colocou este assunto na ordem do dia regional. O presidente da CCIPD defendeu que está na altura de se rever o atual modelo de transporte aéreo regional, com o intuito de o “tornar mais sustentável” e de corrigir aspetos relacionados precisamente com “o elevado preço das passagens inter-ilhas, quando comparado com o praticado nas ligações com o Continente”. Esta é uma preocupação e aspiração de muitos açorianos.

Mário Fortuna rcordou – e bem – que o teto máximo depois do reembolso para viagens entre as ilhas e o continente é de 134 euros e que, no caso das tarifas inter-ilhas, podem “pagar a mesma coisa ou mais”.

Assim, fui fazer uma simulação de uma viagem na SATA entre Ponta Delgada-Flores (ida e volta) para o mês de Julho e para uma pessoa com a tarifa de residente. O preço final foi precisamente de 151,48 euros. Outra simulação, e seguindo os mesmos critérios, todavia entre Ponta Delgada-Terceira. O custo final foi de 146,60 euros.

Questiono-me sobre quantos açorianos não devem pensar duas vezes entre fazer férias cá dentro ou ir para fora quando se deparam com este tipo de preços. Para uma família de três pessoas ronda perto dos 500 euros, isto sem contar com estadia, alimentação, transportes, etc.

São deslocações caras. Não é de duvidar o porquê de porem em causa a própria Região como um destino de férias. A agenda política terá forçosamente que pegar neste tema mais tarde ou mais cedo. Nada é impossível. Além do mais, devem ser muitos mais os filhos desta terra que não conhecem o arquipélago como um todo, ou seja, as nove ilhas, do que aqueles que as conhecem.

As “low cost” também eram uma miragem, mas felizmente foi uma aspiração que se concretizou - a bem de todos os açorianos - e que tem trazido impactos positivos. Todavia existem ainda ilhas como Santa Maria onde o turismo tem decrescido. Por isso, é necessário que se repense o atual modelo de tarifas de transporte aéreo a bem do nosso povo.

Com exceção dos políticos, e daqueles que têm necessidades profissionais que ocasionalmente os obrigam ir a todas as ilhas, o certo é que a maioria dos açorianos não conhece o arquipélago no seu todo.

Sou ainda de uma geração que não conhece todas as ilhas e o mesmo aconteceu com as gerações anteriores. Será que é este o legado que se pretende passar? É imperativo que haja intervenção do Governo Regional, dos partidos, das organizações e da própria sociedade civil em torno deste assunto.

Com a respetiva diminuição do preço dos transportes aéreos podemos dar um grande passo para a coesão territorial, económica e social. Podemos promover a economia do próprio arquipélago e inevitavelmente o turismo das mais variadas ilhas como um todo. Avance-se para a diminuição do preço das tarifas aéreas inter-ilhas. Com boa vontade política de todos os intervenientes conseguimos chegar lá. O futuro passa forçosamente pela coesão arquipelágica.


Opinião de Carmen Gaudêncio, publicada no «Açoriano Oriental».
Saudações florentinas!!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Memórias da rádio a Ocidente

Andava eu na rebeldia da adolescência quando a Rádio Flores emitia na frequência 104.5 FM. Da janela do meu quarto o meu minúsculo aparelho não conseguia captar o sinal. Era um jogo de “apanhada” entre uma janela e outra da casa dos meus pais para tentar apanhar em condições o sinal retransmitido do lugar da Ponta Ruiva.

Na altura, o nosso querido Max (era assim tratado o responsável pela estação) passava músicas com dedicatórias, publicidade do comércio local e notícias locais de interesse para a população. Era feito um esforço da parte dele e da parte dos seus colaboradores que se dividiam entre os seus trabalhos e a carolice de fazer rádio nos tempos em que esta ainda era a companhia das famílias e um meio de difusão e comunicação nas pequenas localidades.

Anos mais tarde, com a saída do Max da ilha, a rádio calou-se. E ficou um silêncio tão grande e um vazio tão intenso que juntou um grupo de jovens, movidos pela irreverência, pela rebeldia, mas sobretudo por uma sede de cultura que os fez iniciar o projeto da “SOS pirata”. Sim era um verdadeiro SOS.

Eram as vozes locais que se queriam fazer ouvir, que se queriam difundir uma vez mais numa frequência emitida a muito esforço por aparelhos “reinventados” por cérebros pulsantes e enérgicos que durante algum tempo levaram às casas das nossas gentes o saber local e a cultura da nossa pequena tribo nesta pequena ilha perdida no Atlântico. Silenciados foram também por politiquices e pelas “legalidades” e formalidades que desgastam aqueles que a algum custo tentam fazer viver as pequenas ilhas.

Hoje ouvir rádio já não é o que era. As emissoras que chegam às nossas casas estão bastante “distantes” de nós, da nossa cultura, das nossas vivências e das nossas notícias.

Um dia os nossos filhos e netos sentirão falta do registo noticioso da história da nossa ilha. As leis e as exigências e os custos incutidos aos órgãos de comunicação social são a “morte” do papel fundamental que eles exerciam, são a “morte” do registo local que se fazia.

Caiu as Flores no silêncio. Aquele silêncio que a alguns conveio!


Opinião de Maria José Sousa, publicada no «Azores News».
Saudações florentinas!!

sábado, 8 de julho de 2017

«Brumas e Escarpas» #125

O naufrágio do Papadiamandis

No dia 22 de Dezembro de 1965 deu-se mais um memorável naufrágio nos mares da Fajã Grande. O navio, um cargueiro liberiano de nome Papadiamandis, com um calado de 14.300 toneladas, encalhou na Ponta da Coalheira, entre a Retorta e o Caneiro das Furnas. O cargueiro viajava de New Orleans para Hamburgo, com um carregamento de milho, trigo e feijão. Viajavam a bordo trinta e um tripulantes, tendo todos sido salvos e conduzidos para Santa Cruz onde se albergaram, com exceção de três que foram recolhidos por um navio que, navegando ao largo, ao pedido de auxílio se aproximou da embarcação a fim de prestar ajuda aos naufragos.

Este foi, na verdade, o último grande naufrágio dos muitos que, sobretudo no século XIX, ocorreram por toda a ilha das Flores, com particular incidência na sua costa oeste, incluindo os extensos baixios da Fajã Grande, uma espécie de fronteira entre a Europa e a América, na qual, naturalmente, se inclui o ilhéu do Monchique – o torrão mais ocidental da Europa e a própria - e a Baixa Rasa, pese embora a maioria das embarcações naufragadas, a exemplo do Papadiamandis e da Bidart, se encafuassem nos próprios baixios e laredos que separam a terra do mar.

Assim como noutros casos, o naufrágio do Papadiamandis atirou para terra uma quantidade enorme de utensílios do próprio navio e de grande parte da própria carga, o que fez com que muitas pessoas demandassem a costa, em primeiro lugar para prestar ajuda e auxiliar os náufragos mas, posteriormente, para recolherem restos de carga e peças ou utensílios do navio. No caso do Papadiamandis a recolha, porém foi muito limitada dada a acção permanente e contínua da Guarda Fiscal que não deixava ninguém aproximar-se do navio nem da zona circundante do baixio.

Na verdade quase sempre os naufrágios constituíram, para a população da Fajã Grande e de outras localidades, uma oportunidade suplementar de rendimento, desde que aos salvados conseguissem chegar primeiro que as autoridades aduaneiras. Estranho mas memorável para as gentes da Fajã Grande terá sido o Natal de 1869! É que nesse 25 de Dezembro deu ali à costa, carregada de açúcar mascavado, um sabor de muitos ainda desconhecido, e de aguardente, a barca francesa Republique, que o povo logo invadiu, levando quanto pôde, numa abundância tal que, nas semanas seguintes, até com açúcar se temperaram caldos de couves. Foram, todavia, os grandes carregamentos de madeira de pinho resinoso que, de forma mais visível, ajudaram a perpetuar a memória, um pouco por toda a ilha, de algumas dessas já longínquas tragédias marítimas. Consta que a Igreja da Ponta, a exemplo de outras da ilha, foi construída com madeiras de naufrágios.

Do espólio do Papadiamandis que transportava mais de 14 mil toneladas de milho, pouco ou nada recolheu o povo da Fajã Grande, devido sobretudo ao cerco eficiente e à vigilância permanente da Guarda Fiscal. Conta-se até que uma criança de tenra idade ao ser encontrada por um elemento daquela força policial com uma lata de milho, mais por ver ali um brinquedo estranho porque de milho cozido não necessitava, foi violentamente agredido pelo agente da autoridade e forçado a lhe entregar a respetiva lata.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Natureza maravilhou Diogo Morgado

O ator viajou até às Flores no culminar de um périplo por várias ilhas. Na ilha mais ocidental dos Açores encontrou a Natureza em estado puro. Objetivo do percurso insular: escolher cenários para um novo filme.

Das ilhas açorianas, Diogo Morgado conhecia apenas São Miguel. Até que recentemente empreendeu um percurso por várias ilhas dos Açores, de oriente para ocidente, em busca de paisagens naturais de beleza impressionante e em estado quase selvagem. Um dos pontos altos da viagem esteve na passagem pelas Flores, ilha de cenários naturais deslumbrantes, de vegetação frondosa pontuada por lagoas e cascatas, e de riqueza geológica imensa (observe-se a Rocha dos Bordões). Nesse percurso de descoberta, Diogo Morgado encontrou a natureza no seu estado mais puro. E confirmou as expetativas. "Do que conheço do mundo, os Açores são um dos lugares mais incríveis e característicos", afirma.

A estadia nas Flores foi o culminar de um périplo por cinco ilhas, percorridas em outros tantos dias, que passou também por São Miguel, Terceira, Faial e Pico – e que o surpreenderam pela diversidade. "É impressionante como ilhas tão próximas umas das outras conseguem ser tão diferentes." Por vezes debaixo de intempéries, o ator embrenhou-se no contacto com a natureza, deslumbrando-se perante o exotismo da paisagem. Afastando-se dos aglomerados urbanos, Diogo Morgado trilhou caminhos por entre a vegetação, observou o cenário desértico do vulcão dos Capelinhos, atravessou o canal entre o Faial e o Pico. Mas recusa dizer que locais considerou mais marcantes. "Seria injusto, quando todos têm um valor incrível."

Contudo, a jornada insular teve mais do que um intuito contemplativo. Diogo Morgado procurava cenários para uma longa-metragem, um thriller de ação passado numa ilha remota, em que co-assinará o argumento. Dos locais a filmar, nas Flores e nas outras ilhas visitadas, prefere manter reserva. Apenas tem uma certeza: "Queremos ter os Açores como cenário e mostrar como é bonito o nosso país. Não temos noção do país que temos." O arquipélago será mais uma personagem, composta por um pouco de cada ilha – que Diogo Morgado faz questão de mostrar ao exterior. "Queremos divulgar como é especial e único."


Crónica publicada na revista de bordo da SATA «My Plan» #7.
Saudações florentinas!!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Quem tutela os trilhos na ilha das Flores?

Neste Dia Internacional da Biodiversidade, cujo tema este ano é Biodiversidade e Turismo Sustentável, a AmbiFlores lamenta o estado degradado em que se encontram os trilhos pedestres da ilha das Flores.

À excepção do trilho Miradouro das Lagoas - Poço do Bacalhau (PR3FLO), todos os restantes trilhos homologados da ilha das Flores encontram-se sem manutenção.

Numa ilha que recebe todos os anos cada vez mais turistas, e em que as grandes atrações são os seus trilhos e paisagens, é incompreensível que esta situação se verifique, sobretudo à entrada do Verão. A AmbiFlores - associação de defesa do ambiente da ilha das Flores apela por isso à reunião de esforços por parte das entidades responsáveis para que solucionem este problema sem mais demora. Para que os nossos turistas levem da ilha das Flores a melhor das imagens e recordações, ao invés de uma experiência de turismo de natureza de baixa qualidade.

A celebração do Dia Mundial da Biodiversidade, este ano sob o tema Biodiversidade e Turismo Sustentável, oferece uma oportunidade para aumentar a consciencialização e ação sobre o importante contributo do turismo sustentável para o crescimento económico e para a conservação e uso sustentável da biodiversidade. A biodiversidade, ao nível das espécies e dos ecossistemas, constitui uma base importante para muitos aspectos do turismo. Simultaneamente, um setor turístico bem gerido pode contribuir significativamente para reduzir as ameaças e manter ou aumentar a vida selvagem e os valores da biodiversidade através das receitas do turismo.

Saudações florentinas!!

sábado, 13 de maio de 2017

«Brumas e Escarpas» #124

A Fajã Grande pertenceu ao concelho de Santa Cruz

Em 1895 foi extinto o concelho das Lajes, pelo que a Fajã Grande assim como as restantes freguesias deste concelho passaram a integrar o de Santa Cruz. Em tempos idos, antes da criação da freguesia da Fajã Grande, o lugar da Ponta pertencente à freguesia de Ponta Delgada também estivera na dependência daquele concelho.

Na verdade já em 1869, o celebérrimo Governador Santa Rita opinava que "a ilha das Flores não comporta a existência de dous municipios, e que, no caso da ilha do Corvo, uma administração parochial é quanto basta àquelles povos". A profecia havia de cumprir-se, até porque, quatro anos depois, a própria Câmara de Santa Cruz propunha a extinção do concelho das Lajes.

De facto, a extinção do concelho a que sempre pertenceu a Fajã Grande aconteceu em 1895, pelo decreto de 18 de Novembro, publicado no Diário do Governo do dia seguinte, que suprimiu, entre outros, os concelhos de Lajes das Flores e do Corvo. Cuida-se que esta decisão terá sido influenciada pelo pedido que, na verdade, a Câmara Municipal de Santa Cruz, na época, sob a tutela de membros do Partido Regenerador, dirigiu ao Governo visando a supressão do concelho vizinho.

Mas não durou muito o tempo em que os habitantes da Fajã Grande para tratar dos seus assuntos relacionados com a edilidade rumaram a Santa Cruz, uma vez que o poder político em Portugal mudou de partido e a 13 de Janeiro de 1898 foram restaurados os concelhos anteriormente destituídos, incluindo o das Lajes das Flores. A Fajã Grande voltou a integrar o seu concelho de origem, pese embora conste que a população da Fajã Grande manifestou interesse em continuar a integrar o concelho de Santa Cruz, uma vez que a deslocação àquela vila, realizada pela subida da rocha e depois por um caminho existente no interior da vila, se tornava mais fácil do que o trajeto que tinham que percorrer para se deslocarem às Lajes, obstaculizado sobretudo pela travessia da Ribeira Grande, sem ponte e, por vezes, com um caudal intransponível.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 9 de abril de 2017

«Brumas e Escarpas» #123

Moinhos de mão

Os antigos moinhos de mão açorianos, muito comuns na ilha das Flores e mais concretamente na Fajã Grande, eram feitos de pedra basáltica e constituídos por duas peças talhadas manualmente na própria pedra. Uma era mó, de forma redonda e com um olho ou buraco no meio sobre o eixo central por onde se deixava cair o grão de cereal que se pretendia moer. Esta mó, sob a forma de tampa gigante, tinha encastoado, próximo do bordo exterior, um manípulo de maneira a imprimir o movimento mais ou menos rápido à própria mó. A segunda peça, sobre a qual assentava a mó, era uma espécie de base fixa e, obviamente também redonda, com um rebordo ligeiramente mais alto do que a mó. A base sobre a qual rodava a mó tinha uma pequena falha ou rebordo num dos lados, sob a forma duma pequenina rampa e através da qual a farinha depois de moída saía. Uma terceira peça que não fazia parte da estrutura do moinho era a destinada a recolher a farinha, sendo que muitas vezes se usava um saco ou simplesmente um pano.

Estes moinhos comuns em muitas casas, dado que a farinha que moíam ficava bastante grossa, na Fajã Grande eram usados geralmente para moer o milho quando ele ainda não estava bem amadurecido ou seco. Era com esta farinha que se faziam as chamadas papas grossas, que comidas quentes com o leite, ou simplesmente frias e às talhadas eram saborosíssimas. Havia também quem quando frias as comesse cobertas com o leite a ferver ou até fritas. Era sobretudo nos dias anteriores à apanha do milho que se recorria a este apetitoso manjar.

Moer no moinho de mão era tarefa das mulheres que muitas vezes pediam ajuda às crianças, a fim de irem lentamente deitando o milho no buraco da mó enquanto a mãe ou a irmã ou outra mulher ia rodando a mó, por vezes um pouco pesada.

Consta que no início do povoamento das ilhas, antes dos moinhos de água estes equipamentos domésticos terão sido de grande importância. Uma vez que ainda não existiam os moinhos de água ou de vento, era a eles que se recorria para moer os cereais, nomeadamente o trigo, muito utilizado nos primórdios do povoamento açoriano. Mesmo mais tarde, já com o funcionamento daqueles moinhos, as famílias mais pobres recorriam ao seu uso, obtendo, assim obter a farinha sem o encargo de pagar a maquia ao moleiro ou outros impostos.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

«Brumas e Escarpas» #122

Filhoses

Um dos doces que nunca faltavam em todas as casas da Fajã Grande nos dias de Carnaval eram as filhoses. Trata-se de um doce tipicamente açoriano que tem como base uma versão da massa sovada mas com um tratamento final muito diferente. A massa sovada, tradicional nas festas do Espírito Santo e nas bodas dos casamentos era cozida no forno sobre a forma de pão, no primeiro caso e de rosquilhas no segundo enquanto as filhoses típicas dos dias de Entrudo eram fritas sobre a forma de pequenos pedaços retirados da massa e fritos de depois de esticados e moldados com as mãos.

Não se sabe bem a origem destas filhoses comuns a todas as ilhas e chamadas malassadas em São Miguel, mas as ilhas açorianas, apesar de distantes do Continente português não apenas pelo espaço mas também pela cultura e pelas tradições receberam muita influência destes através dos primeiros povoadores. É verdade que no território continental não é costume celebrar-se o Carnaval com filhoses, sendo estas tradicionais por altura do Natal.

As filhoses na Fajã Grande eram feitas com farinha e fermento retirado do que se guardava da última fornada do pão de trigo. Feito o fermento inicial era-lhe juntado a farinha, os ovos, água, leite, manteiga, açúcar e muita raspa de limão. Tudo isto era amassado de seguida. A mulher a quem competia esta tarefa colocava um lenço de calafate, arregaçava as mangas e depois de misturar muito bem todos os elementos amassava-os aos murros como de massa sovada se tratasse. O alguidar onde a massa fora amassada era colocado em lugar quente e coberto com cobertores ou xailes a fim de que a massa levantasse muito bem. Só depois eram arrancados pequenos pedaços, esticados e moldados com as mãos que eram postos a fritar em banha de porco bem quente. Uma vez retiradas do lume as filhoses eram polvilhadas de ambos os lados com uma mistura de açúcar e canela. Eram excelentes e comiam-se devidamente racionadas nos quatro dias de folia carnavalesca, porque na Quarta-feira de Cinzas já era pecado comê-las não apenas porque era dia de jejum mas também porque tinham sido fritas em graxa de porco.

Na verdade, na Fajã Grande na década de cinquenta do século passado não havia Entrudo sem filhoses, sem batalhas de água, sem mascarados e sem danças que eram ensaiadas nas noites anteriores. As danças tinham sempre o velho e a velha mascarados a fazerem palhaçadas, a meter medo às crianças e a pedinchar filhoses pelas portas das casas por onde passavam.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 26 de fevereiro de 2017

«Brumas e Escarpas» #121

Leite

Há quem afirme que os pastos da ilha das Flores ainda hoje são dos melhores do mundo. Na primeira metade do século passado essa tese ainda seria mais verdadeira, sobretudo no que às pastagens da Fajã Grande dizia respeito. Situadas em zonas baixas, muitas delas regadas com nascentes de água, por vezes vedadas durante algum tempo ou alternadas com o cultivo do milho, eram de excelente qualidade. A primeira consequência de tudo isto era a excelente qualidade do leite, na altura elemento fundamental na economia da freguesia. Para além duma parte, a maior, que era vendida ou à Cooperativa ou a Martins & Rebelo, a outra parte era fundamental para alimentação diária das famílias. O leite, nas casas dos lavradores, era elemento fundamental do jantar, na altura denominado ceia. O leite bebia-se juntamente ou com pão, às sextas-feiras acabadinho de sair do forno, ou com o bolo do tijolo ou com as papas. Era ainda com o leite que se fabricava o queijo, também presente como conduto em muitas refeições.

A quantidade de vacas leiteiras que cada lavrador possuía é que era relativamente baixa - duas, raramente três e, nalguns casos, apenas uma. As relvas junto da porta eram poucas e poucos eram os homens que tinham tempo ou forças para ir ao leite ao mato todos os dias, dado a longa distância das pastagens e a dificuldade em subir e descer a rocha. Apesar de ordenhadas duas vezes por dia, a produção de leite obtida era relativamente baixa, pois rara era a vaca que em cada ordenha dava mais de dez litros, isto por alturas de dar a cria. O leite era recolhido diretamente da teta da vaca para as latas utilizadas para esse fim, feitas de folha-de-flandres, e fabricadas pelo latoeiro da freguesia, o Antonino de Ti Francisco Inácio. Consta que em tempos mais recuados, o leite era tirado das vacas em cabaças e transportado nas mesmas. As latas de leite quando vinham do mato, ou das terras em que as vacas nos meses de Abril e Maio estavam amarradas à estaca a trilhar as terras onde ia ser semeado o milho, eram transportadas presas e penduradas num pau, uma atrás das costas e outra à frente. Caso fosse necessário transportar três latas, aplicava-se um gancho na parte de trás do pau, permitindo assim prenderem-se duas latas atrás das costas, colocando à frente a mais pesada para contrabalançar. Arte e engenho não faltavam!

Nos dias em que não havia pão ou bolo fresco nem papas, o leite era fervido e deitado ainda a ferver sobre o pão que, nos últimos dias após a cozedura era fervido, sobre o vapor de água. Esta operação era feita num caldeirão com um suporte da madeira no fundo, sobre o qual o pão era colocado. Ao ferver, a água colocada no fundo do caldeirão provocava um vapor que penetrava no pão, amaciando-o. Assim ficava como se fosse acabadinho de sair do forno. Era o pão estufado, sobre o qual se despejava o leite que neste caso também não necessitava de ser fervido.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

À conversa com o chef Joel Vieira

Joel Vieira, natural da ilha das Flores, é chef de cozinha e é o jovem em destaque deste mês na TVJ Azores.

O jovem florentino fala-nos da sua paixão pela cozinha, das experiências de trabalho a nível internacional, do respeito pela tradição e pelo produtos. Joel explica em que consiste o seu projeto "Vieira em Casa" e dá a conhecer um pouco do seu futuro restaurante: O Vieira.


Vídeo: YouTube da TVJ Azores.
Saudações florentinas!!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Comunidade escolar florentina une-se pela estabilidade do corpo docente e em defesa da qualidade de ensino nas FLW

Façam favor de assinar e divulgar a Petição pela estabilidade do corpo docente: Em defesa da qualidade do ensino na Escola Básica e Secundária das Flores.

A Escola Básica e Secundária das Flores tem, de forma progressiva, melhorado os seus resultados em avaliações externas, nomeadamente em exames nacionais, fruto da estabilidade do corpo docente que tem vivido na última década e meia.

Esta estabilidade permitiu, entre outros, a realização de um trabalho programado por vários ciclos, a renovação dos diferentes órgãos da escola e a abertura de novos cursos, o que se repercutiu numa escola melhor e conduziu os nossos alunos a taxas de sucesso que ocupam o pódio das escolas públicas da Região Autónoma dos Açores.

Todas estas conquistas serão seriamente comprometidas, num futuro muito próximo, se for aprovado o novo Regulamento de Concurso do Pessoal Docente da Educação Pré-Escolar e Ensinos Básico e Secundário da Região Autónoma dos Açores.

Enquanto ilha pequena, à semelhança de outras, com menor capacidade de apelo profissional, os contratos por tempo indeterminado com obrigatoriedade de permanência de, no mínimo, três anos letivos têm permitido uma menor flutuação do corpo docente. A EBS das Flores beneficiou, em muito, com esta medida, em particular os seus alunos (que são os destinatários do ensino público regional), mas, também, toda a comunidade educativa e até a própria ilha. Tudo aquilo que permita a fixação de técnicos superiores na ilha das Flores, qualquer que seja a área, repercutir-se-á na sua renovação e promoverá o seu desenvolvimento.

Uma das alterações do novo regulamento de concurso do pessoal docente, prestes a ser aprovado na ALRAA, terá consequências dramáticas na EBS das Flores (e em outras de pequena e média dimensão) e prende-se com o facto de o concurso de docentes, mesmo que passe a anual, não mais implicar a obrigatoriedade de permanência na escola de colocação. Nesta cláusula, são contempladas duas situações distintas, em que nenhuma delas beneficia a escola. Num primeiro cenário, o docente fica colocado no quadro da EBS das Flores, aceita a colocação, opta por não exercer a docência nessa escola e pede afetação para mais próximo da sua residência, no entanto, a vaga de quadro fica preenchida e, até que ele consiga mudar para o quadro da escola pretendida, será substituído por um docente contratado anualmente, que raramente se mantém em dois anos consecutivos. Esta situação poderá arrastar-se por muitos anos, gerando uma enorme rotação anual de docentes a assegurar a substituição de colegas que estão a ocupar uma vaga de quadro. Outro cenário possível será o professor ficar colocado no quadro da EBS da Flores, aceitar a colocação e optar por exercer nessa escola; se ficar mais do que um ano escolar, terá um bónus na sua graduação profissional, proporcional ao número de anos que permaneceu, para poder concorrer para outra escola. Prestar serviço nessa escola será uma forma de facilitar e promover a saída para outra.

A ser aprovada esta alteração, a flutuação de docentes na EBS das Flores, em todos os ciclos, crescerá de forma exponencial, o que resultará em implicações prejudiciais, óbvias, na qualidade do ensino, para além de sobrecarregar os docentes efetivos a exercer funções nessa escola.

Assim, os cidadãos abaixo assinados vêm, por este meio, reivindicar a alteração da proposta de decreto legislativo regional do Regulamento do Concurso do Pessoal Docente da Região Autónoma dos Açores, apelando para que continue a vigorar a cláusula de permanência mínima de três anos, de modo a que, nas escolas das ilhas de menor dimensão, haja uma estabilidade maior do corpo docente e um menor recurso a contratação, evitando uma situação de rotatividade sucessiva de um elevado número de docentes, com prejuízo para a qualidade de ensino nessas ilhas. Ademais, convém nunca esquecer que todas as alterações legislativas, no domínio da educação, devem centrar-se especialmente nos alunos e nos seus superiores interesses, em consonância com os direitos constitucionalmente consagrados.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

«Brumas e Escarpas» #120

Queijo de fabrico caseiro

A ilha das Flores, contrariamente a outras do arquipélago açoriano como por exemplo São Jorge, apesar da sua grandiosa e excelente criação de vacas leiteiras, nunca se tornou conhecida nem muito menos famosa pela produção de queijo. No entanto, por toda a ilha e, mais concretamente, na Fajã Grande sempre se fabricou caseiramente muito queijo, pese embora este, contrariamente à manteiga, nunca fosse comercializado, nem muito menos exportado. Atualmente, porém, é possível encontrar algum queijo produzido nas Flores à venda noutras ilhas açorianas.

Na Fajã Grande na década de cinquenta assim como nas anteriores do século passado, fabricava-se muito queijo, fazendo o mesmo parte do cardápio diário na maioria das casas. Umas vezes comia-se fresco, ou seja, acabadinho de fazer, outras, ligeiramente, curado. Apesar de ser de uso exclusivamente caseiro, o queijo feito na Fajã Grande era de ótima qualidade embora sem fama nacional ou, muito menos, internacional, pese embora de vez em quando se enviasse, particularmente, um ou outro queijinho bem curado para familiares e amigos residentes noutras ilhas ou até na América. Essa boa qualidade do queijo fajãgrandense devia-se sobretudo à qualidade das pastagens, ao excelente tratamento que era dado às vacas e, consequentemente, à excelente qualidade do leite que se ordenhava das mesmas

O fabrico de queijo, na Fajã Grande, no entanto era, puramente artesanalmente feito nas próprias moradias, o que não impedia que apresentasse características de boa qualidade. Mas o fabrico era muito reduzido, geralmente fabricava-se um queijo dia-sim dia-não, uma vez que cada lavrador tinha apenas uma ou duas vacas leiteiras e, além disso, a venda do leite à Cooperativa ou ao Martins e Rebelo era fundamental para que cada família se sustentasse e conseguisse algum dinheiro a fim de comprar nas lojas, o café, o petróleo, o açúcar e todos os outros produtos que necessitava e que não produzia. Por vezes e em certas alturas do ano as vacas davam pouco leite ou até nenhum, quer porque estivessem para dar cria quer porque fossem utilizadas para puxar os carros ou os corsões e a lavrar os campos, dado que poucos eram os lavradores que tinham à porta gado alfeiro ou junta de bois de trabalho, para carrear as lenhas, as mondas, os milhos, os estrumes, lavrar e preparar as terras para semear os milhos.

Pelo contrário, na altura em que as vacas davam crias, geralmente nos meses de março e abril, havia grande abundância de leite, chamado crostes. Acontecia que, depois de dar a cria, a maioria das vacas dava muito leite, pois eram muito bem tratadas, antes do próprio parto e nos dias que se lhe seguiam. Alem disso, muitos vitelos nem bebiam o leite todo e, na maioria dos casos não bebiam nenhum, uma vez que naqueles tempos, não era hábito comer a carne dos vitelos, estes eram pura e simplesmente abatidos e enterrados logo após o parto. Apenas um ou outro se criava para fazer dele uma futura vaca ou um gueixo de engorda. Mas era necessário retirar o leite das vacas nos dias que se seguiam ao parto. Como este não servia para desnatar e ser vendido para o fabrico de manteiga, ficava em casa. Uma parte era utilizada na alimentação e a outra deitada aos porcos. Assim a parte dos crostes que sobrava era utilizada para fazer queijos – os tradicionais e célebres queijos de crostes. Estes queijos eram fabricados em grande quantidade pelo processo tradicional do fabrico do queijo com o leite normal, amornando um pouco os crostes e juntando-lhes de seguida o coalho líquido, comprado nas lojas e que na Fajã Grande existia em todas as casas. Depois de coalhada, a massa que originaria o queijo era colocado nas formas de lata, furadas nos lados e em cima duma tabuinha, suspensa numa selha, como se fazia com qualquer queijo., sendo o soro que escorria aproveitado para os porcos.

Os queijos de crostes assim como os de leite normal comiam-se frescos. Mas quando se faziam em maior quantidade, sobravam alguns que se punham a curar ao sol durante vários dias, ao mesmo tempo que se ia escoando o soro. O queijo ficava mais duro e adquiria a cor amarelada. Quero os frescos quer os curados eram excelentes e tinham um sabor adorável.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Carta aberta, em tom de desabafo e muito desânimo pela alteração do Regulamento de Concursos do Pessoal Docente na Região Autónoma dos Açores

Tenho pena, tenho mesmo muita pena, que as conquistas, feitas nos últimos 20 anos no ensino público regional, sejam postas de parte de um momento para o outro, de forma sobressaltada, quase como se não houvesse amanhã, e sem qualquer tipo de proteção em relação às ilhas mais pequenas.

Tiro o meu chapéu a todos os professores que, tendo concorrido por três anos para este desterro (na boca de alguns com responsabilidades políticas, nunca na minha), sabendo de antemão quais eram as regras do jogo, cumpriram com profissionalismo, competência e seriedade a “missão” que lhes foi confiada (e para a qual estavam a ser pagos). Aqui, falo daqueles que cumpriram, em simultâneo, com o seu dever de assiduidade. Todos estes ajudaram, em colaboração com outros, a construir uma escola melhor e a conduzir os nossos alunos a taxas de sucesso que em muito nos honram e que, apesar de públicas, não são devidamente divulgadas nos meios de comunicação social da região como se houvesse (será que não há?) umas escolas filhas e outras enteadas do sistema público regional. Nada que me espante, também em relação às ilhas, há umas de primeira, outras de segunda e, até há, as de terceira. Não se pode esquecer que aquilo que faz uma Escola não são as condições físicas, nomeadamente infraestruturas modernas e recursos tecnológicos de última geração, mas, acima de tudo, os recursos humanos envolvidos.

Não consigo resistir a abrir aqui um parêntesis: Por acaso alguém reparou nas imagens, de arquivo, da RTP-Açores sobre a Escola Básica e Secundária das Flores aquando da divulgação dos resultados dos exames nacionais? Este assunto e outros semelhantes, acrescidos ao número de vezes em que a ilha é referida nas notícias regionais apenas porque o “avião cancelou” (esclareço dois pormenores: nem todas as vezes que o avião não vem às Flores é por culpa “das condições atmosféricas no aeroporto de destino” e o avião não “passa” por cá, vem ou não vem) dava uma crónica daquelas!

Voltando ao assunto que hoje me preocupa, tal como os docentes que referi mais acima, existem outros, poucos, que por aqui já davam a cara, ou que, ao longo das últimas duas décadas assumiram que exercer a docência na nossa escola, fixar residência na nossa ilha e aqui constituir família seria o seu projeto de vida. Estes que, até hoje, permaneceram cá, por opção, ponderam seriamente a pertinência de por cá continuar, pois a estabilidade que permitiu um trabalho programado por vários ciclos, e do qual já obtivemos frutos, a renovação dos diferentes órgãos de escola e até a abertura de novos cursos, são algumas das conquistas que, rapidamente, entrarão em retrocesso. Serão poucos para desempenhar muitas funções, a maior parte delas sem qualquer tipo de remuneração, e isso cansa e desgasta. Digo mais, “os velhos da casa”, quando quiserem concorrer, podem dar-se ao luxo de prescindir da dita bonificação, que nos querem dar, porque, com a nossa graduação profissional, assumiremos os topos das listas no concurso.

Uma das alterações do novo regulamento do concurso do pessoal docente, prestes a ser aprovado na ALRAA, terá consequências dramáticas na nossa escola, e prende-se com o facto de o concurso de docentes passar a ser anual. Num primeiro cenário, o docente fica colocado no quadro da EBS das Flores, aceita a colocação e opta por não vir para cá, pede afetação para mais próximo da sua residência, no entanto, a vaga de quadro fica preenchida e, até que ele consiga mudar para o quadro da escola pretendida, será substituído por um docente contratado anualmente, que, sabemos, raramente se mantém em dois anos consecutivos. Esta situação poderá arrastar-se por muitos anos, gerando uma enorme flutuação anual de docentes a assegurar a substituição de “professores-fantasmas” (os que ocupam a vaga de quadro e não necessitam de comparecer na escola de colocação). Outro cenário possível será o professor ficar colocado no quadro da EBS da Flores, aceitar a colocação e optar por vir exercer nesta escola, passado esse ano, terá um bónus na sua graduação profissional para poder concorrer para outra escola, esta escola servirá, assim, de trampolim para voos mais altos.

Definitivamente, estas alterações vão “destruir” um trabalho de duas décadas. Sobre os docentes contratados, uma palavra: na sua grande maioria são profissionais da educação eficientes e cumprem com todas as funções que lhes são atribuídas. Não é isso que está aqui em causa, o que está em causa é a instabilidade que existirá na nossa escola com mais de 60% de docentes contratados anualmente.

Aos colegas que serão abrangidos por esta alteração legislativa e que não terão que cumprir com um ano, ou dois, a que ainda estavam sujeitos para concluir o módulo de três anos, e que, neste momento, contam os dias para sair de cá, duas considerações: oxalá que, ao longo da vossa vida profissional, não passem por nenhuma escola pior do que esta e que o pior sítio onde tenham morado ou venham a morar, na vossa vida, seja na ilha das Flores. Em vinte anos e meio de serviço nesta escola, vi chegar algumas centenas e partirem outras tantas, e garanto-vos que, aqueles que mais choraram à chegada, foram os que mais choraram à partida.

É claro que, idealmente, todos deviam poder trabalhar onde têm a família, onde gostam de estar, ninguém é mais apologista disto do que eu. O que está a acontecer, nesta situação, é que diversas regras instituídas vão mudar, de um momento para o outro, e a sensação que temos é que nos estão a tirar o tapete de debaixo dos pés. Não há aqui normas transitórias. A única regalia oferecida em contrapartida será a bonificação na graduação profissional para concorrer para fora da ilha das Flores. Qual o benefício que daí advirá para a EBS das Flores?

Nas décadas de 80 e 90, do século XX, alguns casais que viviam, trabalhavam e até tinham casa na ilha das Flores, optaram por sair da ilha para garantir, para além das condições de saúde, um ensino de qualidade para os filhos. Destes, pais e filhos, pouquíssimos voltaram. Os que não voltaram fizeram muita falta. Creio bem que voltaremos a assistir a um “êxodo” semelhante nos próximos anos, pois os pais das Flores perceberão que os impostos que pagam não estão a ter o mesmo retorno na educação dos seus filhos que os impostos pagos por contribuintes de algumas das outras ilhas do arquipélago. Esse êxodo está patente no diferencial plasmado nos censos de 2001 e 2011, acrescento, ainda, que o número de habitantes que esta ilha perdeu corresponde à redução do número de alunos na nossa escola, na referida década.

Aos nossos governantes algumas questões: É com medidas destas que pretendem reverter a desertificação das ilhas mais pequenas (as denominadas ilhas de coesão) nomeadamente na fixação de jovens casais e no incentivo à natalidade? Nalgumas ilhas dos Açores, estão a desenvolver-se diversas iniciativas para fixação de jovens qualificados, porque é que, na ilha das Flores, nem sequer se tenta manter aqueles que cá estão ou, no mínimo, fixar novos em igual número?

Aos órgãos máximos desta ilha, àqueles que foram eleitos para nos defender, não têm nada a dizer sobre este assunto? Por uma vez, pelo menos por esta vez, ponham de parte as quezílias partidárias e unam-se em torno de uma causa que, penso e quero acreditar, seja comum a todos nós, pois “quem não se sente, não é filho de boa gente”!


Opinião de Rosa Maria Belo Maciel, natural da ilha das Flores e residente por opção na ilha das Flores; ex-aluna desta escola, ex-presidente do Conselho Executivo da EBS das Flores (de 2007 a 2013), mãe e professora da EBS das Flores.

domingo, 29 de janeiro de 2017

«Brumas e Escarpas» #119

A espadana

Antigamente, a espadana era uma planta de grande utilidade na Fajã Grande. Nascia, crescia e florescia abruptamente e em grande abundância nos maroiços, nas canadas, nas encostas dos outeiros e até nas terras de mato. Nestas, muitas vezes, a espadana crescia tão densamente que até tinha que ser desbastada ou cortada radicalmente por constituir uma ameaça para outras culturas, nomeadamente, para os inhames e árvores de fruto.

A espadana muito frequente nos Açores é no Pico designada por filhaça e em São Jorge por corriola. Trata-se de uma planta não endémica, proveniente da Nova Zelândia e que cientificamente se designa por Phormium Tenax. Noutras regiões onde existe também é conhecida pelos nomes comuns de harakeke (em maiori) ou linho-da-nova-zelândia. Trata-se duma espécie de planta sempre verde, de folhas perenes com distribuição natural na Nova Zelândia e na Ilha Norfolk, mas naturalizada em diversas regiões temperadas e subtropicais e cultivada quer como importante fonte de fibra quer como planta ornamental. A espadana cresce como um aglomerado de largas folhas, em forma de tiras, de até dois metros de comprimento, ao redor de uma espécie de caule central, muito mais alto do que as folhas, onde se podem observar belas flores amareladas e vermelhas.

Sabe-se que na Nova Zelândia as folhas da espadana foram utilizadas para delas se retirarem fibras utilizadas na confeção de tecidos tradicionais e também para a feitura de cordame e velas de navios

Destino semelhante teve a espadana nos Açores, mas ao que consta apenas na ilha de São Miguel, onde foi cultivada para extração e produção de fibra. Segundo alguns historiadores a economia micaelense, paralelamente ao chá, em tempos não muito recuados, desenvolveu várias iniciativas de produção industrial não só do linho, mas também da espadana de onde se chegou a retirar apreciáveis resultados, antes do surgimento de fibras sintéticas. Na ilha do Arcanjo a espadana foi também muito utilizada uno fabrico de cordoaria, sobretudo no concelho da Lagoa onde ainda existem ruinas duma fábrica de desfibração de espadana.

Na Fajã Grande a espadana era utilizada em bruto para substituir as cordas, bastante mais caras mas muito necessárias no dia-a-dia. As folhas da espadana eram cortadas e postas a secar e depois desfiadas em tiras mais grossas ou mais finas, maiores ou menores de acordo com o fim a que se destinavam. Para além servirem para amarrar pequenos molhos, depois acarretados às costas, as espadanas eram muito usadas para amarrar os molhos de rama seca assim como os fetos secos que eram guardados nas casas velhas para alimentar e fazer cama aos animais, amarrados nos palheiros nas longas noites de inverno. Também cortadas em pequenos e finos pedaços serviam de cordões para amarrar as bocas dos sacos, das moendas, cambulhões de milho, as asas das galinhas e até os suspensórios das calças quando os botões falhavam. Mas um dos mais interessantes usos da espadana era no desfolhar do milho. Nos dias anteriores cortavam-se as folhas em pequenos pedaços que se desfiavam finamente. Depois eram feitos pequenos molhinhos que uma vez amarrados e dobrados em U invertido eram presos a uma alheta das calças de cada desfolhador. À medida que desfolhavam iam formando mancheias que eram amarradas com os cordões de espada e penduradas nos milheiros mais altos onde ficavam a secar durante alguns dias. Só depois eram recolhidas e guardadas mas durante esses dias os campos tinham um maravilhoso e deslumbrante aspeto.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sábado, 14 de janeiro de 2017

«Brumas e Escarpas» #118

Matança do porco (Diário de Ti’Antonho)

Quando eu era criança a matança do porco realizava-se de madrugada e era um dia de folia e festa para cada família. A preparação da matança começava muitos dias antes. Era preciso cortar lenha, serrá-la e fendê-la, ir buscar queirós ao Mato para o chamusco e cortar cana roca para secar o curral. Na véspera da matança era preciso picar a cebola para as morcelas, cozer o pão e as escaldadas, preparar as comidas e comprar uma garrafa de aguardente. Eram convidados os familiares mais chegados, os vizinhos ou alguns amigos.

O dia da matança começava cedo, com a chegada dos convidados e do matador que tomavam pequenos cálices de aguardente, para aquecer, coisa rara nos outros dias do ano. Depois enganava-se o porco para que saísse do chiqueiro, tapando de seguida a porta do mesmo para que o porco não voltasse a entrar e se escondesse durante a luta que se seguiria. Alguns homens mais afoitos saltavam para o curral, localizado regra geral atrás da cozinha da casa, tentando agarrar o animal e amarrá-lo pelos queixos. Era nestas alturas que o dono gostava de mostrar o porco aos convidados, com vaidade, pelo seu enorme porte e muita gordura. Depois o porco era puxado ou arrastado até junto da mesa onde era deitado num banco, preso pelos homens e morto com uma facada dirigida ao coração. O sangue era aparado num alguidar de barro por uma mulher e seria utilizado, mais tarde, para as morcelas.

Depois de morto, o porco era “chamuscado” com as queirós trazidas do Mato e que haviam sido postas a secar. Seguia-se a lavagem, a abertura e o esventramento do animal, que posteriormente, era dependurado de uma trave de uma loja, de uma casa velha ou até na cozinha. Depois era o almoço em que se comia peixe, feijão assado, carne de ovelha e caçoila do porco. À tarde o principal trabalho da matança cabia às mulheres; lavar as tripas, encher e cozer as morcelas, depois dependurá-las nos fumeiros da chaminé.

A meio da tarde, amigos da família, expressamente convidados para o efeito, vinham ver o porco, e provar a caçoila, os inhames, as iscas de fígado e um copo de vinho. Depois jogavam às cartas e as crianças jogavam à bola com a bexiga. À tardinha, desmanchava-se o porco, picava-se e temperava-se a carne das linguiças e à noite já se comiam bifes e morcelas. No dia seguinte derretiam-se os torresmos e salgavam-se os ossos que eram guardados numa salgadeira. Minha mãe mandava-me sempre ir levar uma posta de carne e toucinho a casa de alguma pessoa a quem devesse favores.

Era assim as matanças de porco na minha casa, quando eu era criança e que afinal eram muito parecidas com as de hoje.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 8 de janeiro de 2017

Flores, a Esmeralda do Atlântico (4/4)

Após vos termos apresentado na primeira parte do nosso artigo a ilha das Flores, de vos termos dado a conhecer o melhor local onde ficar e quais os melhores restaurantes, respetivamente nas segunda e terceira partes, vamos nesta quarta e última parte do nosso artigo dar-vos a conhecer um percurso de muito fácil acesso, com um nível de dificuldade baixo e que termina literalmente no paraíso!

O percurso em questão situa-se à direita, na estrada que liga a Fajãzinha à Fajã Grande, entre as pontes da Ribeira Grande e da Ribeira do Ferreiro e é exatamente esta última que dá o nome ao trilho. É igualmente conhecido como percurso da Alagoinha ou ainda Lagoa das Patas. Todo o trilho é largo e com algumas subidas com pequenas inclinações. Boa parte do piso é empedrado, o que não oferece dificuldade de maior. Contudo, por ser uma zona húmida, obriga a algum cuidado, especialmente no regresso, pois é a descer. Todo o percurso é debaixo de um túnel de árvores com as águas da ribeira a correrem livremente uns metros mais abaixo e um pequeno curso de água à esquerda, o que dá um enquadramento de grande beleza a todo este caminho.

Já na segunda parte do percurso, começam a aparecer as criptomérias, árvores de médio e grande porte e de enorme beleza, particularmente o seu tronco com tom cor de ferrugem brilhante. Introduzida em meados do século XIX, a criptoméria teve uma excelente adaptação, muito particularmente pela similaridade com as condições do seu local de origem, o Japão. De tal maneira que representa 56% da área florestal total de produção, dado ser igualmente uma excelente madeira para construção e marcenaria.

O final do percurso é seguramente o seu ponto alto e igualmente umas das paisagens mais cénicas e belas de todo o arquipélago. É uma das mais deslumbrantes que já conhecemos, ao longo de mais de 30 anos de caminhadas. Rodeada de vegetação de grande beleza, onde as criptomérias têm lugar de destaque e com uma parede com mais de 200 metros de altura de onde jorram inúmeras cascatas, está a tranquila Lagoa da Ribeira do Ferreiro, cujas cálidas águas refletem o paraíso natural que as rodeia, reforçando desta maneira a beleza ímpar deste local. Uma vez aqui, é-nos difícil sair e como tal, aconselhamos a que esta curta caminhada seja feita perto da hora de almoço, o que permitirá fazer um picnic neste paraíso e desta maneira ser mais um argumento para se usufruir mais tempo desta paisagem ímpar.

Ficha Técnica
Extensão: cerca de 1.200 metros em cada sentido. Duração: cerca de 40 minutos em cada sentido. Dificuldade: nível 1 (numa escala de 5 em que 1 é o mais fácil)

Equipamento aconselhável: sapatos de caminhada, sendo que uns bons ténis são suficientes. Roupa confortável e em camadas, pois sendo uma zona húmida por vezes a sensação de temperatura é fresca. Embora seja um percurso abrigado, um casaco corta vento é aconselhável.

Alerta: um ecossistema de grande beleza como este e qualquer outro, são sensíveis, pelo que tudo o que levarmos deve voltar connosco. A Natureza agradece e nós também. Boas caminhadas.


Crónica de Francisco Mendonça, publicada em «Simply Flow».
Saudações florentinas!!

sábado, 7 de janeiro de 2017

Flores, a Esmeralda do Atlântico (3/4)

Na segunda parte deste nosso artigo sobre a ilha das Flores, como certamente se recordarão, falámos sobre o porquê de a Aldeia da Cuada ser o nosso local de eleição para se ficar nesta ilha. Pois bem, nesta terceira parte vamos abordar o tema da gastronomia, pois como referimos no final do artigo anterior, caminhar em ambiente de Natureza abre o apetite.

Comecemos pelo restaurante Pôr do Sol. Ora aqui está um espaço que faz jus ao seu nome, pois a sua privilegiada localização, curiosamente muito perto da Aldeia da Cuada, no alto de uma arriba na aldeia da Fajãzinha em frente ao Atlântico, tem na sua esplanada um dos mais magníficos pores do Sol que já presenciámos. O interior é pequeno, num estilo rústico, mas é isso que o torna igualmente muito acolhedor. A ementa é rica em produtos locais e as suas sobremesas, também elas regionais, são deliciosas.

O restaurante típico O Forno Transmontano é outra das referências gastronómicas da ilha. Situado numa moradia ampla com vista para o mar, na localidade da Fazenda das Lajes, este espaço é também um restaurante familiar. A arte de bem cozinhar está muito presente aqui, onde o conhecimento ancestral da rica cozinha Transmontana se mistura com os deliciosos produtos açorianos. Resta acrescentar a rica carta de vinhos, não muito comum no arquipélago.

Por último aconselhamos o restaurante A Sereia, na vila de Santa Cruz, o mais relevante povoado da ilha das Flores. Junto ao Porto Novo (existe um segundo porto mais antigo), este restaurante, também familiar, é um espaço despretensioso, mas rico em tudo o que cozinha. A comida é típica da região, sem requintes desnecessários, mas deliciosa. Foi aqui que comemos os melhores rissóis de camarão que nos recordamos.

Caros caminhantes, não percam o nosso quarto e último artigo sobre a ilha das Flores, onde vos levaremos ao paraíso dentro do paraíso.


Crónica de Francisco Mendonça, publicada em «Simply Flow».
Saudações florentinas!!