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sábado, 2 de julho de 2016

«Brumas e Escarpas» #108

Os maroiços da Fajã Grande

Na Fajã Grande, assim como por toda a ilha das Flores, existiam muitos maroiços. Noutras ilhas, nomeadamente a noroeste do imponente cone vulcânico que é a montanha do Pico, também existem muitos maroiços. Os maroiços do Pico são típicos e estão a ser alvo de uma investigação arqueológica, dadas as semelhanças inequívocas existentes entre os maroiços madalenenses e outras estruturas piramidais encontradas nas ilhas da Sicília e de Tenerife, nas Canárias. Os maroiços da Fajã Grande, no entanto, pouco tem de semelhante às monumentais pirâmides de basalto negro que caraterizam a paisagem picoense. Mas poderão ter algo comum no que à sua origem diz respeito.

Os maroiços da Fajã Grande, construídos sobretudo entre as propriedades agrícolas, da mesma forma que os maroiços do Pico, terão resultado da necessidade de limpar os pedregulhos dos terrenos de cultivo, embora no caso da ilha do Pico a abundância das fragas e penedos ultrapassasse gigantescamente as existentes na ilha Flores. Essa a razão por que naquela ilha os maroiços adquirem maior estrutura, sendo também mais numerosos.

Mas o que distingue e caracteriza os maroiços da Fajã Grande é sobretudo a sua utilidade, sendo que em muitos deles foram plantadas figueiras e videiras, uma vez que são estruturas mais simples, de superfície plana e férteis. Dizem os estudiosos desta arte arqueológica que quer em Itália quer em Espanha, as sondagens e a recolha de materiais arqueológicos em complexos extremamente semelhantes permitiram estabelecer uma suposta datação, que poderá prolongar-se até às idades do Bronze e do Ferro. Muito provavelmente os simples e utilitários maroiços da Fajã Grande nada têm a ver com isto e são bem mais recentes e possivelmente nunca poderão ser considerados Património da Humanidade, nem têm o encanto e a beleza caraterística dos maroiços da ilha do Pico e que têm despertado, desde sempre, a curiosidade de visitantes e locais. Além disso, têm muita utilidade, pois para além de neles se cultivar a figueira e a videira, muitos serviam para pôr a roupa a coarar, para armazenamento de lenha, para veredas de acesso a outras propriedades, para as crianças brincarem, etc. Por tudo isto e sobretudo porque sem paralelos noutros pontos do globo, talvez nunca cheguem a ter o interesse das monumentais e emblemáticas pirâmides basálticas do Pico ,que no dizer de alguém prometem seduzir os mais céticos num arquipélago com remanescências lendárias - qual Atlântida perdida - onde a fantasia e a história se entrelaçam de forma tão intensa, que se torna difícil descortinar onde começa a ciência e acaba o mito.

Os maroiços da Fajã Grande, infelizmente, nunca lhes poderão seguir as pegadas, até porque a maioria se perdeu entre os meandros das faias, incensos, silvados e cana roca que enchem quase tudo o que eram relvas e terras cultivadas noutros tempos.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 12 de junho de 2016

«Brumas e Escarpas» #107

O curral das galinhas

Na Fajã Grande, na década de 1950, não havia casa que não tivesse um curral de galinhas. Até a do senhor padre Pimentel, assim como em todas as outras casas mais abastadas. É que as galinhas tinham um papel de relevo na alimentação, não apenas pela carne mas sobretudo pelos ovos. Além disso o custo da sua alimentação era fácil e barato, uma vez que eram alimentadas com milho que abundava na freguesia mas também com ervas e verduras, nomeadamente com erva-santa e ainda com o farelo que sobrava do peneirar da farinha. Ao farelo juntava-se água, fazia-se uma massa a que se adicionava, por vezes, couves cortadas, cascas de batatas picadas ou outras sobras de comida, a fim de que o cardápio das ditas cujas ficasse mais suculento.

As galinhas eram criadas num curral, construído para o efeito junto de casa. O curral era um pequeno espaço, geralmente retirado à courela da porta. Era murado com paredes bastante altas, muitas vezes encimadas com arame farpado ou rede porque as atrevidas das galinhas se não fossem piadas ou se não tivessem as asas amarradas ou cortadas, saltavam cá para fora e iam pôr os ovos onde bem entendessem. Depois era o diabo para os encontrar. Além disso esgaravatavam e davam cabo das colheitas por ali existentes. Os currais, geralmente, situavam-se junto ao pátio traseiro de cada casa, cuja parte inferior havia sido transformada em poleiro. Este era uma pequena concavidade escura, tendo a um canto o linheiro, devidamente preparado para elas porem os ovos. Nos currais mais afastados do pátio contruíram-se poleiros de madeira, ou seja, pequenos casotos ou encravados na aba duma parede, ou até colocados no meio do curral. Havia quem aproveitasse este espaço para nele construir o estaleiro.

No entanto, quem tinha hortas, por entre as terras de mato, tapava-lhes bem as paredes, amarrava e cosia as asas às galinhas e soltava-as na horta, com a dupla vantagem de lhes retirar as ervas daninhas e de lhes ir lançando algum estrume. Nas hortas também se construía o poleiro, ou adaptando uma furna ali existente ou construindo um de madeira, semelhante aos dos currais. Por vezes um cesto velho, deitado, também servia de poleiro. Mas, neste caso surgia um pequeno problema. É que as atrevidas das galinhas apanhando-se à solta decidiam pôr os ovos onde bem queriam e entendiam, aqui e além, muito escondidinhos e mudando de sítio em cada dia, o que obrigava os donos a uma tarefa árdua, incómoda, demorada e por vezes improfícua para lhes descobrir os esconderijos. Era costume, para evitar tal estouvado procedimento, deixar-lhes um ovo no linheiro inicial ou um objeto que imitasse um ovo e assim as parvas das galinhas, cuidando cada uma que ele era seu, iam à vez lá desovar os restantes.

Na verdade, por incrível que pareça, os currais das galinhas, apesar de simples e modestas construções, tiveram um importante papel na economia e sobretudo na alimentação da população fajãgrandense.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Fazendense dispensa treinador do futsal

O treinador Paulo Barroso coordenou todos os escalões de futsal do GDF nas duas últimas épocas desportivas.

A Direcção do Grupo Desportivo Fazendense comunicou o fim da ligação do clube com o anterior treinador-coordenador:

O Grupo Desportivo Fazendense vem por este meio informar o fim da presença do mister Paulo Barroso na coordenação do futsal deste clube. Agradecemos todas as conquistas que foram alcançadas, que não foram alcançadas por mero acaso do destino, mas deixamos uma palavra para os atletas deste clube que sempre souberam dar tudo para que o sucesso surgisse.

A Direcção do clube teve de ponderar que rumo dar e esta tomada de decisão também não veio por mero acaso, havendo inúmeros motivos para tal, sendo o principal, e o que realmente importa, o que contraria toda a estrutura deste clube e que nos garante a continuação da modalidade ao longo do tempo, que são os jovens atletas, aqueles que ninguém dá por eles, mas o clube dá, porque são para eles que trabalhamos, os atletas da formação, porque eles são os homens de amanhã.

Quando um clube vem em absoluto crescendo na modalidade ao longo dos últimos 7 a 8 anos, tempo em que a actual Direcção está em funções, e apenas numa época desportiva vê os seus escalões de formação reduzidos a “nada”, correndo mesmo o risco da equipa sénior não poder participar nos Nacionais devido à inexistência desses mesmos escalões de formação, isto após a coordenação e treinamento desses escalões de formação ocorrerem pela pessoa em causa, é razão para refletirmos e chegarmos à conclusão que algo não está bem! Qual seria o resultado final daqui a um, dois, três anos? O fim dos escalões de formação e da equipa sénior, o fim do clube.

Foi nesse pensamento que esta Direcção se baseou, que ainda assim apresentou três soluções para a continuidade do mister Paulo Barroso à frente unicamente da nossa equipa sénior, no entanto a nossa “pobre solução” era inferior ao que mesmo conseguiria auferir ao “tocar guitarra debaixo de uma árvore no Porto”, segundo as suas palavras, não sendo assim possível a sua continuidade. Desejamos a continuação de boa sorte para o seu futuro e uma palavra de amigo: olhe para os jovens atletas com bons olhos, porque inevitavelmente são eles a continuidade.

Saudações florentinas!!

domingo, 29 de maio de 2016

«Brumas e Escarpas» #106

O lugar dos Paus Brancos

O pau-branco é uma árvore endémica açoriana, existente em todas as ilhas do arquipélago exceto na Graciosa. Atinge os oito metros de altura, tem folhas lanceoladas a ovaladas, com flores brancas e frutos de tom azulado escuro, semelhantes aos da oliveira, árvore a cuja família pertence, mas curiosamente a oliveira não vegeta nos Açores. A sua madeira é muito apreciada e utilizada sobretudo no fabrico de móveis.

Cuida-se que no início do povoamento o pau-branco, que se desenvolve juntamente com o incenso e a faia, existiria em grande quantidade nas ilhas açorianas. No entanto, com o início da colonização, as zonas mais soalheiras e de melhor terreno foram assoreadas dando origem a terrenos agrícolas para cultivo dos cereais ou a pastagens para a criação de gado, o que provocou um enorme desbaste da mancha florestal primitiva. As espécies menos resistentes, como o pau-branco, foram as mais prejudicadas. Atualmente, dado o abandono de muitos campos agrícolas e pastagens, as espécies mais persistentes como a faia e sobretudo o incenso são as mais privilegiadas e protegidas pela natureza. A ampla plantação, no século passado, de outras espécies, com destaque para a acácia e sobretudo para a criptoméria, também terão contribuído para o lento desaparecimento de algumas endémicas, entre as quais o pau-branco.

No entanto ficou a sua memória e, sobretudo, a sua marca indelével na toponímia de muitas localidades. Foi o que aconteceu na Fajã Grande, freguesia que entre os seus variadíssimos lugares, possuía um com o nome de Paus Brancos.

O lugar dos Paus Brancos situava-se na parte sul da freguesia, próximo da chamada zona da Lagoinha ou Alagoinha, paredes meias com a Rocha. Era um amplo espaço onde existiam três tipos de propriedades: algumas terras de mato, onde proliferavam incensos, faias, loureiros, sanguinhos, entrelaçados entre fetos e cana roca, uma outra lagoa e várias relvas. As lagoas eram terrenos onde, desmesuradamente, crescia a erva. E onde existiam os inhames de água. No entanto, como eram inundadas com a água que descia quer da Ribeira dos Paus Brancos quer das várias grotas que proliferavam na Rocha, eram terrenos muito alagadiços, o que fazia com que a erva crescesse de tal modo que, com alguma frequência, era ceifada e acarretada aos molhos para os palheiros sobretudo para alimentação das vacas leiteiras.

Formando uma ampla planície e protegido dos ventos pela Rocha e pelo Pico Agudo que lhe ficava em frente, o lugar dos Paus Brancos, assim como a sua vizinha Alagoinha, era muito fértil e de excelentes pastagens, pese embora se situasse já nos contrafortes da Rocha que, neste lugar era extramente firme, hirta e segura, pois ali não havia derrocadas ou ribanceiras e geralmente não caíam pedras. A Rocha, apesar da água que por ela descia, era tão firme que através dela, havia sido, em tempos idos, construída uma vereda que dava acesso às relvas do mato, nomeadamente às do Rochão do Junco, do Rochão Grande, do Serrado Velho e do Rochão Tamusgo que lhe ficavam sobranceiros.

O lugar dos Paus Brancos a leste fazia fronteira com a Rocha do mesmo nome, a norte com a Alagoinha de Baixo, a oeste com o caminho e com o Pico Agudo e a Sul com a Alagoinha de Cima e com Mateus Pires. O acesso às propriedades fazia-se através de uma canada que se iniciava no enorme largo do Pico Agudo, onde havia um descansadouro.

A origem deste topónimo é de fácil e simples explicação. Decerto que provinha do facto de ali existirem inicialmente muitos paus-brancos que aos poucos terão desaparecido devido ao arroteamento e transformação de algumas terras de mato em pastagens e lagoas e, mais tarde, devido à plantação de criptomérias.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sábado, 14 de maio de 2016

«Brumas e Escarpas» #105

Os pincéis de caiar

Na Fajã Grande, na década de 1950, a maioria das casas de habitação eram caiadas, tanto interiormente como exteriormente. Relatos vários, no entanto, diziam-nos que em tempos idos as casas da freguesia mais ocidental dos Açores não seriam rebocadas nem pintadas e eram cobertas de palha.

Mas as casas com as paredes caiadas com cal, por razões de higiene e saúde e também para não se deteriorarem, necessitavam de ser caiadas de vez em quando, evitando assim o aparecimento e alastramento de humidade, musgos e limos, portadores de bactérias e outros micróbios causadores de doenças epidémicas e mortais. Além disso, sobretudo devido ao aspeto exterior, as casas caiadas ficavam todas brancas, dando um certo embelezamento não só às mesmas mas também à freguesia, pelo que muitas vezes até eram caiadas por altura do casamento de um filho, da chegada de um parente americano ou nas vésperas da festa da Senhora da Saúde.

Geralmente, embora houvesse alguns caiadores especialistas na matéria, muitos dos moradores na freguesia é que caiavam as suas próprias casas, comprando apenas a cal e fazendo eles próprios os pincéis, poupando assim algum dinheiro. A cal era comprada nas lojas, em pedra ao quilo. Colocada num bidão de petróleo cortado ao meio ou até numa pia de água, era-lhe deitada em cima água. A cal começava a ferver e ficava sob a forma de fluido. De seguida era mexida com um pau e, pouco depois, estava pronta para caiar.

Mais difícil, embora mais barato, era conseguir os pincéis. Para tal era necessário ir ao mato apanhar o bracéu de que eram feitos. Na verdade o bracéu apenas nascia e crescia no mato, logo ali por cima da Rocha, fazendo jus do seu nome, pois partilhava-o com o do próprio lugar onde florescia o Lugar do Bracéu. Como as terras onde desabrochava eram grandes e ficavam longe das casas, a sua apanha, corte e acarretamento demorava uma manhã inteira, sendo neste caso retirada uma pequena quantidade para fazer os pincéis quando fossem necessários. Paralelamente, arranjava-se um cabo de madeira, adequado e fios barbante.

Escolhido o melhor bracéu, era feito um rolo grosso, que depois era dobrado a meio e muito bem amarrado. Por sua vez o cabo era enfiado na parte em que o bracéu dobrara, sendo novamente muito bem amarrado e ainda melhor apertado. A extremidade oposta ao cabo, constituída pelas pontas, era muito bem aparada de forma que se aproximasse duma superfície lisa. Estava feito o pincel, que uma vez molhado na cal, caiaria a casa. Mas por vezes as paredes das casas eram altas e as escadas rareavam. Assim o caiador munia-se de um enorme pau ou de uma cana de bambu ou na ausência desta, duma simples cana, fazendo-lhe um buraco numa das extremidades. Enfiado o cabo do pincel neste buraco, ele era amarrado à cana, de tal modo que não se desprendesse, conseguindo-se assim, com arte e engenho chegar e caiar os pontos mais altos das paredes das casas sem recurso à escada e sem a perda de tempo de a subir e descer vezes sem conta, a fim de a ir mudando de sítio.

Como muitos outros utensílios de fabrico artesanal, os pincéis de caiar as casas perderam-se no tempo, sendo hoje, caso existam, uma objeto de museu.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 8 de maio de 2016

«Todos ilhéus», por Nuno Costa Santos

Ao me saberem açoriano, diversos continentais perguntam: "Nunca te fez confusão viver numa ilha?". Mesmo muitos dos que se encantam com as paisagens e o acolhimento, contam-me de um ocasional sentimento de claustrofobia, confessam que por vezes se sentem agoniados por estarem rodeados de mar, por não poderem atravessar fronteiras terrestres, fugir para outra banda, dar uma volta de carro até ao país do lado.

Respondo que não. Que nunca tive esse sentimento quando vivia a tempo inteiro na ilha de São Miguel, nem o tenho sempre que regresso a casa e por lá fico, em trabalho ou em férias. Que nunca pensei: "Vivo numa ilha, estou tramado". Revelo até um escândalo: durante o meu crescimento nunca pensei que vivia numa ilha. Nunca reflecti sobre o assunto, muito menos acompanhado de bibliografia.

Nunca passei um minuto a matutar nas questões do "mar por todos os lados", do "isolamento", da "solidão", da "limitação". Estava demasiado preenchido. A ilha era a minha terra, onde tinha vivências contraditórias, umas alegres, outras não, como acontece em qualquer lugar do mundo.

Nem na fase das inquietudes habituais quis levantar voo para território distante. Na adolescência nunca senti o desejo urgente de me ir embora. Viajar para o continente e aí viver era apenas o percurso normal de quem havia terminado o liceu e queria prosseguir os estudos. Não passei tardes no quarto a fantasiar com a vida lisboeta e não fui para cima de uma rocha como um poeta romântico a imaginar os mundos "cosmopolitas" para lá do horizonte. Era feliz onde estava - tanto quanto pode ser feliz um adolescente. Com a sorte de ter uma família, um grupo de amigos, namoradas, uma vida cultural feita de muitos discos, livros e filmes que nos chegavam de fora com a velocidade certa, de beber fininhos bem tirados em cervejarias onde se falava, se debatia e se asneirava. A ilha nunca teve qualquer dramatismo, esse tipo de dramatismo de quem a vê de fora, mesmo quando está dentro.

A ideia de que o ilhéu é um ser prisioneiro entre vagas e de que quer sempre ir mais além do que o espaço que habita é um cliché que convém mais a uma poesia gasta da vivência insular do que à realidade quotidiana. Claro que não me refiro ao sonho emigrante que muitos açorianos tiveram em alturas de dificuldades extremas. Penso naqueles que têm condições materiais mínimas e alcançaram à sua maneira uma posição de conforto e de pertença a uma comunidade com virtudes e naturais defeitos. Muitos deles, claro, associados ao desporto federado de comentar a vida dos outros.

É curioso perceber que muitos dos visitantes que partilham este sentimento repentino de estarem encerrados no meio do Atlântico, quando voltam ao ninho, pouco saem dos seus circuitos habituais. Pouco saem do seu roteiro, seja pessoal ou profissional. Não visitam bairros alheios. Não conhecem os nomes das avenidas, das ruas, das freguesias da sua cidade. Vivem em ilhas ainda mais pequenas que as ilhas onde por instantes se sentiram prisioneiros. Vai-se a ver e somos todos ilhéus. Pensem nisso.


Crónica do escritor Nuno Costa Santos, publicada originalmente na revista «Azorean Spirit - SATA Magazine», número 72.
Saudações florentinas!!

domingo, 17 de abril de 2016

«Brumas e Escarpas» #104

A razão do nome “Poço do Bacalhau”

O Poço do Bacalhau é um dos mais interessantes e míticos lugares da Fajã Grande e, juntamente com a queda de água da Ribeira das Casas que sobre ele cai abruptamente, forma uma das mais belas e extraordinárias paisagens da ilha das Flores, quiçá dos Açores.

A origem deste topónimo permanece bastante misteriosa porquanto se revela difícil de desvendar. Há no entanto que considerar algumas hipóteses plausíveis e aceitáveis, enquadradas na lógica da nomenclatura de muitos outros lugares da mais ocidental freguesia açoriana.

Em primeiro lugar a hipótese que parece mais lógica é a de que o nome tenha algo a ver com a palavra bacalhau, que designa o tão apreciado peixe pescado no Atlântico Norte, quer na sua forma natural quer escalado e salgado. É verdade que o bacalhau terá rareado desde sempre na Fajã Grande. No entanto, não é de descartar a hipótese de Diogo de Teive e outros navegadores portugueses nas suas viagens de ida e, sobretudo, de regresso do norte do Atlântico, tenham ancorado na costa oeste da ilha das Flores, na baía da Ribeira das Casas, quer para recrutarem marinheiros quer para se abastecerem de água e víveres, permitindo assim que a população primitiva desta localidade conhecesse o bacalhau, talvez até o transacionasse trocando-o por produtos agrícolas. Cuida-se, segundo a tradição oral, que outrora algumas das habitações da Fajã Grande ficariam localizadas junto à Ribeira das Casas, no lugar hoje chamado Covas, tendo sido mais tarde soterradas por uma enorme ribanceira cujos vestígios ainda hoje são bem visíveis. O próprio nome da ribeira parece estar ligado a tal crença. Ora, sendo este lugar povoado seria possível ser o poço uma espécie de local de esconderijo ou de armazenamento do referido peixe. Também é possível que a sua água fosse fundamental para o abastecimento das embarcações que faziam ali escala na demanda do bacalhau. Trata-se, no entanto, de meras e vagas hipóteses que parecem fortalecer-se com o que escreveu João Gomes Vieira no seu livro «O Homem e o Mar – Os Açorianos e a Pesca Longínqua nos Bancos da Terra Nova e Gronelândia». Nesse livro aquele historiador florentino afirma que os açorianos destacam-se, desde cedo, na pesca à linha nos navios bacalhoeiros. Aliás, tudo leva a crer que pescavam na Terra Nova desde os tempos dos Cortes-Reais e a certeza de que o faziam a partir de 1500, havendo a considerar este dado histórico inapelável: os bacalhoeiros, nas suas viagens de regresso a Portugal, faziam escala nos Açores. Mais acrescenta que o contributo insular foi de tal forma importante que, nas últimas décadas do século XIX, toda a frota bacalhoeira portuguesa se encontrava na posse de armadores dos Açores, ainda que operando a partir da Figueira da Foz e de Lisboa.

Uma outra hipótese, talvez ainda menos provável do que as anteriores, é a de que o poço ou o lugar onde ele se situa tenha granjeado o nome da mesma forma que o receberam outros lugares da Fajã Grande, como Mateus Pires, Fonte Simão, Ribeira de José Fraga, o ilhéu do Constantino, o Poço do Justino ou a Escada do Amaro, estes dois últimos evoluindo para Pocestinho e Escadamar, por serem o apelido do respetivo proprietário ou de alguém envolvido num acontecimento excecional, ocorrido naquele lugar, como é o caso do lugar de Mateus Pires, lá para os lados da Alagoinha, onde se cuida que um homem com este nome terá sido ali soterrado debaixo duma ribanceira. É verdade que o apelido Bacalhau embora comum em muitas regiões do país, presumivelmente poderá apenas escassamente ter chegado à ilha das Flores. Mas neste caso a toponímia pode até estar ligada à lenda segundo a qual um déspota, deportado foi para lá atirado depois de morto, numa deturpação de um qualquer nome estrangeiro.

Uma outra hipótese é a de que sendo possível observar entre as pedras do fundo do poço, na sua parte menos profunda e junto das margens, grandes iroses, que na sua cor e forma se assemelham ao bacalhau, poderá ser uma mera fantasia, mas também é possível que estas tenham sido confundidas com aquele peixe ou até substituídas por ele como alimento.

Como todas estas hipóteses, embora viáveis, possam revelar uma débil credibilidade e ainda menor fundamento histórico, não será de descartar ou deixar de considerar-se ainda uma última, embora ténue e pouco consistente. Na década de 1950 havia quem fosse às escondidas banhar-se nas frescas águas daquele poço. Naturalmente que em tempos anteriores o mesmo terá acontecido. Mas para se nadar ali, dada a crença mítica de que o poço era misterioso, tinha redemoinhos e de que junto à rocha não tinha fundo, era necessário que quem se atrevesse a nele mergulhar tivesse que nadar bem, ou num sentido metafórico nadar que nem um bacalhau.

Duma forma ou de outra o nome ganhou consistência e permaneceu, irrevogável, até aos dias de hoje e, assim como o próprio poço, a razão de ser do seu nome manter-se-á sempre envolta em brumas de mistério, como enigma transcendente que, no entanto, em nada ofusca ou sequer belisca a sua beleza natural e a grandiosidade da paisagem em que se enquadra.

Um leitor acrescentou a estas mais uma hipótese segundo a qual o nome do poço estaria no formato do cimo da rocha, de onde se desprende a cascata, que na realidade se assemelha ao rabo de um bacalhau encimando aquela frondosa vertente.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 3 de abril de 2016

«Brumas e Escarpas» #103

Maldita cana-roca

A cana-roca na década de 1950 na Fajã Grande era uma espécie de planta maldita ou, pelo menos, mal amada. Uma monda ou uma praga que urgia devastar, a fim de que não alastrasse e se sobrepusesse às outras plantas e às árvores que cresciam ao redor e que eram de grande utilidade. Assim, uma das tarefas de cada agricultor era cortá-la e por vezes até lhe arrancar as potentes e grossas raízes nos terrenos onde florescia desalmadamente. O seu aproveitamento era muito reduzido, servindo apenas, uma vez picada, para secar as cercas ou currais dos porcos e, quando verde, as suas folhas de melhor qualidade eram selecionadas e utilizadas para colocar debaixo do pão de milho quando saído do forno ainda quente, assim como debaixo da carne fresca, por alturas de jantares e festas do Espírito Santo ou em matanças de porco. As crianças, assim como as abelhas famintas aproveitavam o suco adocicado das suas flores para se deliciar, uma vez que nesses tempos o açúcar e os doces rareavam.

No entanto a cana roca, uma planta invasora muito comum nas ilhas dos Açores, florescia em catadupa nas terras de mato da Fajã Grande, nomeadamente no Delgado, Cabaceira, Cuada, Espigão, Cancelinha, Lombega, Moledo Grosso, Pocestinho, Pico Agudo, Lavadouros, Vale Fundo, Curralinhos e de muitos outros e até no sopé da Rocha e em muitas relvas sobretudo nas mais próximas das terras de mato. Nesses tempos recuados e de grandes trabalhos e canseiras, os donos das terras de foice em riste haviam de se livrar de toda ela, ceifando-a e cortando-a durante horas e dias, por vezes até arrancando as suas carnudas raízes, simplesmente para deitar fora, pois não servia para nada.

A cana roca, considerada também como planta ornamental, dada a beleza das suas flores é originária do Himalaia. Tem um caule herbáceo e as suas folhas são de um verde brilhante e as flores amarelas e alaranjadas, de rara beleza e adocicado aroma, crescendo em botões em forma de espigas. Pode atingir os dois metros de altura. As raízes são carnudas, assemelham-se a tubérculos e são muito parecidas, no aspeto e no sabor, às do gengibre, uma das plantas medicinais mais antigas e populares do mundo, de cuja família a cana roca açoriana é uma espécie.

O seu nome científico é Hedychium Gardnerianum, sendo conhecida popularmente pelos nomes comuns de conteira, jarroca, roca, cana roca e gengibre-selvagem e, em muitas regiões assim como nas ilhas açorianas, é considerada espécie invasora. Nos Açores, na verdade, tem vindo a tornar-se um problema crescente para as espécies nativas. Recorde-se que são consideradas plantas invasoras as espécies que, a nível geral, apresentam alta capacidade reprodutiva, alta capacidade de dispersão, alta resistência e versatilidade adaptativa face a mudanças ambientais, ausência de competição importante por parte de espécies nativas e escassez ou ausência de inimigos naturais no novo ambiente.

A cana roca está incluída na lista das 100 espécies exóticas invasoras mais perigosas do mundo publicada pela União Internacional para a Conservação da Natureza.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sexta-feira, 25 de março de 2016

«Brumas e Escarpas» #102

Sexta-feira Santa e a tradição da Sopa de Funcho

Na década de 1950, a Sexta-feira Santa na Fajã Grande era um dia de recolhimento, de luto e de grande respeito por se comemorar a morte de Jesus. Desde a tarde da quinta-feira, ainda antes de se iniciar a celebração da missa in Cena Domini e do lava-pés, até à noite de sábado e da celebração da vigília pascal, o toque dos sinos e das campainhas na igreja era totalmente interdito. Durante esse tempo, todo e qualquer sinal de índole litúrgica, necessário a chamar a atenção e concentração dos fiéis num momento mais solene de qualquer celebração litúrgica ou destinado a anunciar e a chamá-los para qualquer ato religioso, assim como os toques do meio-dia e das trindades eram substituídos pelo roufenho som da matraca. As imagens dos santos permaneciam retiradas dos altares ou cobertas com panos negros ou roxos desde o Domingo da Paixão, na altura celebrado liturgicamente quinze dias antes da Páscoa.

A matraca era um instrumento construído em madeira, formado por três tábuas pregadas umas nas outras e com um suporte manual na parte superior, como se de uma pequena caixa se tratasse. Na parte exterior das tábuas estavam cravadas várias argolas de ferro, semelhantes a batentes de portas, que se soltavam batendo em conjunto e de forma violenta e agressiva na madeira, logo que a matraca fosse abanada com alguma força e agilidade, produzindo assim um som batido, matracado, estranho e esquisito.

Durante esse dia, o único do ano em que não havia missa, a maioria do povo não trabalhava e à tarde muitas pessoas seguiam em romaria até à Fajãzinha para assistir às endoenças, celebradas às três horas da tarde na Igreja Matriz daquela freguesia. Para além de três padres, as cerimónias que recordavam e celebravam a Paixão e Morte de Nosso Senhor exigiam alfaias litúrgicas diversas e paramentos que a igreja da Fajã não possuía. Os celebrantes deviam paramentar-se de capa de asperges, casula e dalmáticas roxas que eram mudadas na quarta e última parte da cerimónia por iguais paramentos, mas de cor preta. Presidiam a estas cerimónias para além do pároco da Fajãzinha, padre António Joaquim, o padre Pimentel e o padre Mota, párocos da Fajã e do Lajedo respetivamente.

Na Fajã as cerimónias litúrgicas resumiam-se, ao cair da noite, à procissão do Enterro ou do Senhor Morto. A igreja permanecia totalmente escurecida, não havia Santíssimo e era retirada a imagem de Cristo com os braços articulados, de um crucifixo muito grande que existia no altar da Senhora do Rosário e colocada dentro de um esquife debaixo do altar-mor, a simular o sepulcro e de onde fora retirado o frontal. A imagem da Senhora da Soledade, habitualmente nua e escondida numa arrecadação atrás do altar, era vestida e colocada num andor. A procissão percorria a rua Direita com as duas imagens e era simplesmente acompanhada pelo toque sincronizado da matraca. Depois de recolher à igreja, a procissão terminava com o sermão do Enterro.

Uma outra tradição mantida neste dia, relativamente à alimentação, para além de se guardar jejum e abstinência, era a de se comer Sopa de Funcho. O funcho que na Fajã Grande proliferava e florescia nas encostas entre os canaviais, nas bordas das canadas e em cima dos maroiços, na Sexta-feira Santa era ou parecia ser mais doce do que habitualmente. O motivo desta suposta e adocicada alteração do sabor daquela planta aromática era de carácter eminentemente religioso e estava relacionado com os mistérios da paixão e morte do redentor. Segundo uma antiga lenda, muito provavelmente baseada nos Evangelhos Apócrifos, quando Nossa Senhora seguia a caminho do calvário a acompanhar o sofrimento do seu filho, como que para aliviar a sua dor, distraidamente ia apanhando e mascando folhas de funcho. Em homenagem à dor e ao sofrimento da Virgem Maria, a planta passou todos os anos como que a tornar-se mais doce naquele dia.

Ora, sendo a Sexta-feira Santa um dia consagrado ao jejum e à abstinência, o cardápio habitual e tradicional desse dia, na Fajã Grande, resumia-se a uma sopa cujo ingrediente principal era o funcho. Era a tradicional Sopa de Funcho.

A tradição da Sopa de Funcho na Sexta-feira Santa era por quase todos respeitada. Bastava apanhar aqui ou acolá uma mancheia de funcho, escolhendo-se as partes mais verdes e mais tenrinhas. Feito o caldo com água, cebola, alho, uma colher de banha de porco e uns pedacinhos de batata, juntava-se simplesmente o funcho finamente picado, como se de couve ou de outra hortaliça se tratasse.

Em muitas casas, sobretudo nas mais pobres, esta sopa era feita em muitos outros dias, na altura em que havia funcho fresco. Apesar de nesses dias se juntar à Sopa do Funcho uma talhadinha de toucinho, a qual lhe dava um gostinho muito saboroso e apetecível, ela nunca tinha aquele sabor místico e adocicado da Sopa de Funcho da Sexta-feira Santa.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 20 de março de 2016

«Brumas e Escarpas» #101

Do Cilindro ao Canto do Areal

Aquela que hoje é considerada uma das mais interessantes avenidas marginais da ilha das Flores, outrora era uma simples e tortuosa vereda. Iniciava-se junto ao Matadouro, num cruzamento que ali havia, designado a partir da década de 1950 por Cilindro. A razão deste topónimo teve a sua origem por altura da construção do troço de estrada entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande. Quando os empreiteiros vindos da Terceira chegaram à Fajã Grande, trouxeram apenas o material de apoio que a ilha não dispunha. O restante foi construído e fabricado por eles próprios, já depois de ali se terem fixado dando início às obras. Foi o caso dos cilindros com que haviam de calcar o cascalho e a bagacina que formavam o liso tapete da nova estrada.

O primeiro cilindro de pedra e cimento foi construído perto do Matadouro, situado entre a Via d’Água e o Porto, junto à Baía de Água e em frente à canada que dava para casa do José de Lima. Porém, este primeiro cilindro construído na Fajã Grande era enorme e pesadíssimo. O seu tamanho exagerado e o seu peso excessivo criaram um gravíssimo problema aos construtores: é que o cilindro de tão pesado que era, nunca permitiu às limitadas forças motoras existentes na freguesia – uma camioneta e meia dúzia de juntas de bois atreladas umas atrás das outras – que conseguissem movê-lo um centímetro que fosse do próprio lugar onde tinha sido construído. Perante tal inultrapassável imbróglio foi arquitetado um novo cilindro, mais pequeno e mais leve, enquanto aquele mamarracho ficou anos e anos ali parado, com a interessantíssima vantagem de apenas ter dado nome àquele local, que passou a chamar-se o lugar do Cilindro ou simplesmente o Cilindro.

Aí construiu-se, mais tarde, aquando da abertura da estrada, um pequeno largo com um cruzamento, no qual se iniciava, precisamente, a vereda ou canada que dava para as terras das Furnas, do Areal e do Canto do Areal, assim como para toda a orla marítima, desde da Baía de Água até ao Rolo do Canto do Areal. Era uma vereda muito estreita e sinuosa, com o piso de pedregulhos soltos, interdita a carros e corsões, traçada na direção norte/sul, ladeando na sua totalidade, a oeste pelas pedras negas do baixio e a leste delineada pelas paredes das courelas, belgas e terrenos de milho e de batata-doce que por ali existiam. No Respingadouro a vereda alargava-se e confrontava-se a oeste com o Campo de Futebol das Furnas a que, em arte, também dava acesso. Seguia-se, em frente à entrada principal do Campo um pequeno largo, transformado por vezes em descansadouro. Depois a vereda formava uma pequena curva, bifurcava-se com o Caminho das Furnas e da Rua Nova, passando, de seguida ao lado de uma lixeira ali existente, no enfiamento do Caneiro das Furnas e da Furna das Mexideiras. A partir daí, a vereda alargava-se com um pisoo mais liso, seguindo quase em linha reta até ao Canto do Areal, dando acesso a outras canadas e caminhos, nomeadamente à Rua das Courelas que se iniciava precisamente no Caminho do Areal.

Esta vereda era muito frequentada não apenas por quantos tinham propriedades a que a mesma dava acesso, mas também pelos pescadores e pelos apanhadores de lapas que procuravam os pesqueiros desde da Baía de Água ao Canto do Areal, nomeadamente do Rolinho das Ovelhas, Respingadouro, Furnas, Retorta, Redondo, Coalheira, Poça das Salemas e Canto do Areal.

Aos domingos e sempre que havia futebol, esta vereda era uma das vias de acesso ao Campo, para onde o povo se deslocava para assistir aos jogos de futebol entre o Atlético e a Rádio Naval, a Académica da Fazenda, o Sporting e a União, ambos de Santa Cruz.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sábado, 5 de março de 2016

«Brumas e Escarpas» #100

Sopas de leite

Na Fajã Grande, na década de 1950, na maioria das casas, a ceia, hoje denominada de jantar, era constituída apenas por sopas de leite. Estas sopas eram feitas com pão de milho ou, na falta deste, com bolo, cozido para o efeito num tijolo ou com papas. Era um manjar pobre, simples, mas muito saboroso e desejado, sendo que, por vezes, era reforçado e acompanhado com algum conduto, nomeadamente uma fatia de queijo, um pedacinho de linguiça, uma tirinha de torta ou até, um pratinho de sopa de agrião ou couve.

No caso do pão utilizado no leite, havia duas hipóteses de confecionar esta refeição. No dia de cozer o pão, com ele ainda muito quente e logo após ser retirado do forno, este era esmiolado dentro da tijela com o leite, sendo que este nem era fervido. Era o pão que o aquecia. Nos dias seguintes, quando o pão já estava frio, o leite era fervido e deitado de imediato, ainda bem quente sobre o pão esfarelado, sendo assim o leite a aquecer o pão. Se o pão já fosse velho e tivesse alguma apetência para criar bolor, era estufado, isto é, aquecido ao vapor da água colocada no fundo de um caldeirão. Neste caso como ficava muito quente era ele também a aquecer o leite. Em todas estas situações o pão transformado em sopas com o leite era, na verdade, um manjar delicioso, saboroso e muito apreciado

Quando faltava o pão de milho, ou simplesmente quando rareava, cozia-se bolo no tijolo. Depois de cozido, este ainda quente, tal como o pão, era migado no leite fresco e colocado numa tijela, constituindo, assim, uma das mais frequentes e tradicionais ceias da população, sobretudo da mais pobre. Caso o bolo sobrasse de um dia para o outro, procedia-se ao contrário, isto é, fervia-se ou simplesmente aquecia-se o leite, sendo o bolo migado no mesmo, mas ainda frio. Neste caso, era o leite que aquecia o bolo, enquanto no primeiro era ao contrário, isto é, o bolo é que aquecia o leite. Finalmente quando faltava o pão e o bolo faziam-se papas com farinha de milho, as quais, ainda quentes eram misturadas no leite, da mesma forma que o pão ou o bolo.

Este belo manjar era comido em tijelas de louça, muitas delas pintadas, algumas até com interessantes desenhos e com a ajuda duma colher. Estas sopas tornavam-se muito mais apetitosas se fossem acompanhadas com uma fatia de queijo fresco ou meio curado ou com outro conduto ou até com um pratinho de sopa que se ia comendo em conjunto. Havia também quem gostasse delas acompanhados de uma tirinha de linguiça ou outro conduto de porco. Na altura em que as vacas davam bezerro o leite era substituído pelos crostes, sendo que com estes também se fazia queijo, muito bom e adequado para acompanhar as próprias sopas.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

«A ilha das Flores», por Filomena Mónica

Descobri a ilha do arquipélago dos Açores sobre a qual Raul Brandão escreveu “uma vasta desolação monótona”.

O arquipélago dos Açores é a única parcela do território nacional onde a natureza e as cidades foram preservadas. Ao longo dos anos, visitei com prazer as suas ilhas: faltava-me uma. Ao descobrir ser o ponto mais ocidental da Europa – não, não é a ilha do Corvo – parti para as Flores. Além da localização geográfica, queria ver as hortênsias, que eu imaginava já estarem em flor, e sobretudo observar os pássaros que só ali existem, como o garajau rosado, o papagaio-do-mar e a galinha-d’água.

Cheguei ao fim de uma tarde luminosa. Antes de subir às montanhas, entrei numa igreja da vila. Os meus olhos ficaram presos a uma menina de ar doce no interior de uma urna de vidro. De mãos postas, com uma capa de veludo roxa, bordada a oiro, tinha a cabeça apoiada numa almofada de renda. A posição, o perfil e os cabelos fizeram-me lembrar a Ophelia pintada por John Everett Millais. Quis saber quem era, mas no Turismo não mo conseguiram dizer. Devia ser "a mãe de Deus", comunicou-me a funcionária, pois fora isso que lhe dissera a sua avó.

Reparei então que, no cimo dos morros, existiam umas colunas altíssimas cujo objectivo me escapava. Um transeunte explicou-me que tinham sido "os franceses", sim, os do hotel onde eu estava alojada, que ali as haviam colocado. Foi então que recordei que, após o trauma de ter sido um parceiro menor durante a II Grande Guerra, Charles de Gaulle pretendera ser independente dos dois blocos – EUA e URSS – para o que congeminara um plano de defesa autónomo. Em 1964, a notícia da autorização dada por Portugal para ali se poderem colocar aqueles "espetos-espiões", bem como a permanência de submarinos em águas portuguesas, foi recebida com agrado nos círculos de Lisboa.

Outra foi a reacção do povo local, apavorado com o que, de início, julgou serem baleias gigantes. Para meu espanto, num local onde há pouquíssimos automóveis, deparei-me com inúmeros sinais de trânsito. Ao subir a montanha, notei as cascatinhas que, nascendo no alto, desembocam no mar. Os regatos são idílicos, mas a charneca, essa "vasta desolação monótona", como a designou Raul Brandão, é agreste. Alem disso, em vez dos pássaros que ambicionava conhecer, só vi coelhos anões. A certa altura, entrei num café, onde estava pendurada uma fotografia de um navio, o ‘Carvalho Araújo’. Na parte debaixo, podia ler-se: "O único meio de comunicação exterior, de mês a mês, desde 1930 a 1956, serviu esta ilha mais de 40 anos". Era o isolamento total. Se ali tivesse nascido – a ilha tem apenas 4 mil habitantes – acabaria por enlouquecer. Para umas férias, a ilha das Flores são uma delícia; para uma vida, não.


Opinião de Maria Filomena Mónica, publicada no «Correio da Manhã».
Saudações florentinas!!

sábado, 27 de fevereiro de 2016

«Brumas e Escarpas» #99

A Fajã Grande na década de 1950

A freguesia da Fajã Grande ocupava, juntamente com a Fajãzinha, uma ampla fajã delineada a oeste pelo mar e a norte, a leste e a sul por uma altíssima rocha que a separava do resto da ilha das Flores, isolando-a das restantes freguesias e das duas vilas – Santa Cruz e Lajes. Na década de 1950 o isolamento era tal que até as deslocações à freguesia mais próxima, a Fajãzinha, sobretudo no Inverno, tornavam-se bastante difíceis e por vezes impossíveis. Era necessário atravessar a Ribeira Grande, muito larga, apenas com uma ponte pedonal e por vezes levada pela correnteza e com um caudal fortíssimo. As margens ligavam-se por uma fila de enormes calhaus, mais ou menos alinhados, alguns ali colocados pela natureza outros pelos homens e relativamente próximos uns dos outros. Chamavam-se passadeiras. Quem se aventurasse a atravessar a ribeira, teria que o fazer saltando de calhau em calhau, o que, por vezes e para os menos afoitos, provocava escorregadelas que, para além de assustadoras, encharcavam uma boa parte da roupa. Os animais atravessavam-na a pé ou a nado. A ribeira, no entanto, não dificultava apenas as deslocações à Fajãzinha. Era por ali também que se ia às vilas ou às outras freguesias. Apenas para Ponta Delgada se virava a norte, subindo a rocha da Ponta, percorrendo um sem número de atalhos e veredas, saltando tapumes, pulando grotões e atravessando relvas para encurtar caminho.

Todas estas deslocações para além de muito difíceis eram também demoradíssimas. As ligações por mar, no Inverno, não existiam. Assim, o isolamento em que vivia a freguesia era total, absoluto e permanente. No meio deste isolamento existia uma beleza pura, original e sublime. Do cimo do Pico da Vigia podia desfrutar-se de uma vista aprazível, deslumbrante e encantadora sobre a Fajã. Talvez mesmo uma das mais belas vistas de toda a ilha das Flores.

Logo à direita de quem subia, divisava-se ao longe o oceano, ora manso e azulado, ora revolto e esbranquiçado de espuma, ornamentado pelo Monchique e pela Baixa Rasa, como que envolvendo e abraçando sem disfarce e sem vergonha, em semicírculo, a extensa fajã, delimitada a norte pelo alto do Portal e a sul pela Rocha dos Bredos. Depois, mais perto, a mancha negra, basáltica e rendilhada do baixio, com os seus caneiros e enseadas, onde se destacavam o Redondo, a Retorta, o Caneiro das Furnas, a Baia de Água e o Poceirão com o Calhau da Barra a fiscalizar passagem para o Atlântico. Mais além, espraiava-se a enorme Baía, debruada pelo Rolo, um amontoado inaudito de pedras polidas e arredondadas, estendendo-se ao longo da Ribeira das Casas e das Covas, desde o Pesqueiro de Terra ao Ilhéu do Cão, metamorfoseando-se de novo em baixio lá ao fundo, junto à rocha da Ponta. Já mais perto, a igreja rodeada pelas casas ordenadas em arruamentos simétricos, umas brancas, outras cinzentas, com os seus telhados avermelhados, aglomerando-se e misturando-se com cerrados, belgas e courelas onde florescia milho, batatas e couves. Mais perto ainda, já como que a prolongar-se pela encosta acima, pequenas pastagens e algumas terras de mato galvanizadas de um verde onde se misturavam incensos, faias, canas, fetos e cana-roca. Finalmente, mas muito distante, a norte, já para além da Ribeira do Cão, a Ponta, onde as casas se postavam em fila, muito bem arruadas na direcção da ermida da Senhora do Carmo, encravada nos contrafortes da rocha. Contrastando com o oceano e do lado oposto, um semicírculo pétreo e altivo, formado pelas rochas da Ponta, das Covas, das Águas, dos Paus Brancos, dos Lavadouros e do Curralinho, povoadas de ribeiras e de cascatas onde a água se desprendia em fluxos ritmados e refulgentes sob o verde dos socalcos e andurriais e o negro das fragas, ravinas e penhascos.

Do outro lado e a sul, a segunda parte do semícirculo. Muito ao longe as rochas da Figueira e dos Bredos a protegerem a Fajãzinha, onde as casas, tão distantes e tão pequeninas, se assemelhavam a minúsculos salpicos esbranquiçados, como que confundidos com a enorme mancha verde das terras de mato, dos campos e das pastagens. Depois a Cuada, com a velhinha Casa do Espírito Santo e pouco mais de meia dúzia de casas perdidas entre hortas e pomares, consubstanciando-se, mais adiante, na Eira-da-Quada, com o oceano extenso, resplendoroso e sempre predisposto a receber o volumoso caudal da Ribeira Grande. Finalmente a rocha da Alagoinha povoado de um número quase infinito de grotas e cascatas, muitas delas dia e noite a escorrer, fazendo transbordar o Poço da Pata, semiencoberto pelo arvoredo do Vale Fundo, do Pocestinho e da Cabaceira.

No cimo do Pico da Vigia existia uma pequena casota branca, destinada à vigia de baleia, com uma enorme fresta no mural voltado para o oceano, que permanecia sempre aberta sobre o mar para que o vigia ali sentado horas a fio, avistasse as baleias e, de imediato, lançando um foguete lá do alto, avisasse os baleeiros, entretidos cá em baixo nas suas courelas, em pequenas fainas agrícolas, de tão gratificante descoberta. Daí a razão do seu epíteto.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 21 de fevereiro de 2016

«Brumas e Escarpas» #98

Moinho e moenda

“Moinho parado não cobra moenda.” Mais um interessantíssimo provérbio muito utilizado antigamente na Fajã Grande e com características tipicamente açorianas, nomeadamente da ilha das Flores e mais concretamente da Fajã Grande, onde o moinho na década de 1950 ainda era rei e senhor porque fundamental na limitadíssima economia da mais ocidental freguesia portuguesa. Este adágio, que se aplica na plenitude do seu significado a um quotidiano de trabalho exaustivo, intenso e contínuo do povo da Fajã Grande dos tempos antigos, parece ser a tradução ou adaptação de um outro muito conhecido e também muito comum nas ilhas: Barco parado não ganha frete.

Na Fajã Grande, na verdade, assim como os moinhos ou os barcos, os humanos quase não podiam estar parados a descansar. A vida agrícola a que se dedicavam a tempo inteiro, a que se associava a pecuária, era muito exigente, para além de cansativa, árdua e trabalhosa. Não dava tréguas. Era necessário trabalhar durante todo o dia e muitas vezes prolongar o trabalho pela noite dentro ou iniciá-lo alta madrugada. Parar para descansar ou, ainda pior, por preguiça, era sinal de que os produtos agrícolas teriam menos qualidade ou nem chegariam a crescer, feneceriam por completo, por isso era necessário, contínua e permanentemente, incentivar o povo e fazer apelos a que se trabalhasse. O moinho a girar dia e noite, com as águas das ribeiras era, indubitavelmente, um dos melhores exemplos para acicatar a atividade laboriosa dos habitantes da Fajã Grande, até porque os moinhos de água terão surgido na freguesia, muito provavelmente, desde os primórdios do seu povoamento, fazendo parte do seu património e da sua história.

Recorde-se que, na Fajã Grande, o moinho era a única instalação destinada à pulverização dos grãos de milho, fazendo-o por meio de mós, movidas pela água das ribeiras que corria sem cessar durante todo o ano, inclusive nos meses de Verão. O termo moinho terá a sua origem no latim molinum, vocábulo originado do verbo molo, que significa moer, triturar cereais ou fazer rodar a mó. Sabe-se hoje que o moinho de água é muito antigo e terá surgido, muito provavelmente, no século II d. C. sendo já usado pelos gregos e pelos romanos, que depois o espalharam pela Europa, tendo chegado aos Açores por altura do povoamento, uma vez que as ilhas eram ricas em cereais, na altura o trigo. Serviam, como indica a sua etimologia, para moer os cereais e transformá-los em farinha. É um engenho muito simples e que foi utilizado durante praticamente dois milênios, permanecendo ainda hoje em uso nalguns lugares, embora mais com o sentido museológico do que utilitário.


Os antigos moinhos da Fajã Grande desapareceram. Quase todos estão em ruínas e um foi recuperado mas como casa de turismo. O único moinho recuperado e em atividade está situado a Sul, na fronteira entre a Fajã Grande e a Fajãzinha. Trata-se do chamado moinho da Alagoa, o qual existe há quase século e meio, pois ostenta no frontispício a data de 1869. Detentor de um duplo engenho, o moinho da Alagoa labora através do aproveitamento da força da água da ribeira da Alagoa e na década de 1950 moía para os habitantes da Fajãzinha e para os da Cuada. Hoje mói para toda a ilha das Flores.

Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sábado, 13 de fevereiro de 2016

«Brumas e Escarpas» #97

Frascos de xarope a servirem de biberões e leite aquecido em candeeiros a petróleo

Muito tiveram que inventar os nossos antepassados! Não apenas no seu dia-a-dia mas também e sobretudo nos momentos ou ocasiões mais importantes e significativas da sua vida, como eram aquelas em que nascíamos e íamos crescendo no meio de enormes dificuldades, com excessivas carências, limitadas condições e pouquíssimos meios de conforto e bem estar.

Fixemo-nos num pormenor aparentemente muito simples: o dos nossos biberões. Nos tempos em que nos criámos, na década de 1940, não havia plásticos ou afins e, consequentemente, não existiam biberões com a forma, a qualidade, a performance e a excelência dos actuais. Aliás, nem sequer nenhuns biberões de outra coisa qualquer havia e se os houvesse não era possível comprá-los por parte da maioria das famílias da Fajã Grande. Assim, aos nossos progenitores só se proporcionava uma alternativa: a de inventar. Havia que inventar não apenas os biberões mas tudo o resto necessário ao nascimento e ao subsequente crescimento de uma criança. Para o nascimento inventou-se a velha do Corvo, que daquela pequenina ilha trazia os meninos numa cestinha. Mas inventar ou arranjar biberões não era assim tão fácil como criar a figura mítica duma velha vinda do Corvo. É que os recipientes de vidro também eram raros e a maioria desadequados, não apenas na forma mas também no tamanho. Imagine-se o que seria dar de mamar a uma simples e inocente criancinha numa garrafa de litro, uma vez que estas eram praticamente as únicas então existentes, resultantes da venda de vinho, aguardente ou licores por parte dos comerciantes. As de cerveja e laranjada eram cilíndricas e muito escorregadias e as de pirolito tinham uma bola no gargalo que impedia a saída do leite.

Sendo assim e perante tais dificuldades e limitações, havia que procurar frascos mais adequados para biberões noutras paragens, recorrendo-se frequentemente aos frascos de medicamentos, geralmente os dos xaropes, dado que estes eram mais pequenos, ligeiramente achatados e, obviamente, mais adequados a que as frágeis mãozinhas os agarrassem, dado que as mães não tinham muito tempo para os ir segurando durante a mamada. Era pegar e mamar. Assim, recorria-se geralmente aos frascos de xarope BenzoDiacol, usados contra a tosse e por isso existentes em maior quantidade e mais adequados por duas razões: porque o gargalo onde se enroscava a tampa tinha muitas voltas, sendo assim mais fácil prender a “mamadeira” e, por outro lado, eram bastante espalmados permitindo ao fedelho segurá-los melhor, enquanto bebia o delicioso, agradável e reconfortante leitinho.

Quanto ao leite, normalmente era fervido num caldeirão próprio, bastante mais pequeno do que os caldeirões de cozinhar. Mas não era possível estar a fervê-lo ou aquecê-lo ao lume sempre que a criancinha tivesse fome. Custava muito acender o lume com garranchos verdes e, além disso, só para aquecer um pingo de leite... Microondas? Nem na imaginação ou em sonhos... Daí recorrer-se a algo acessível e fácil mas nem sempre eficiente e eficaz, ou seja, por vezes não se alcançava o objectivo desejado, sendo nesse caso “pior a emenda do que o soneto”. Para aquecê-lo colocava-se o leite num pequeno caneco de alumínio e este em cima do fogão de vidro de um candeeiro a petróleo, daqueles que tinham um rendilhado ou uma espécie de flor na parte superior do vidro chaminé. Uma pequena distracção e estava, neste caso em vez do caldo, o leite derramado, com a agravante de sujar e besuntar não apenas o caneco mas também o candeeiro e, muito especialmente, o fogão da luz que ficava num estado de sujidade impressionante e que só poderia ser limpo depois de arrefecer.

Tantas eram as consumições! Tantas eram as arrelias. Talvez por isso mesmo deixávamos de mamar nos biberões bastante cedo e nos habituávamos a beber o leitinho pelas tigelas de loiça, por canecos de alumínio ou até pelas tampas das latas em que se ordenhavam as vacas. E nem um pingo se derramava!


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sábado, 6 de fevereiro de 2016

«Brumas e Escarpas» #96

Pás e varredouros

Na década de 1950, cozer pão era um hábito semanal em quase todas as casas da Fajã Grande. Geralmente cozia-se pão de milho, de vez em quando de trigo e, muito raramente, de mistura, feito com farinha daqueles dois cereais.

Para cozer pão eram necessários alguns meios e vários utensílios domésticos. Entre estes últimos destacavam-se as pás e os varredouros.

Quanto às pás, existiam geralmente duas em cada casa. Uma maior e mais grosseira ou tosca, destinada à cozedura do pão de milho e uma outra mais pequena, mais fina e de melhor qualidade, para o pão de trigo. As pás eram feitas de madeira e constituídas por duas partes: o cabo e a pá propriamente dita. As pás usadas na confeção do pão de milho eram, geralmente, de fabrico caseiro. Cada qual construía a sua pá. Para isso munia-se de uma comprida vara de madeira rija e cilíndrica, cortada nas terras de mato, que depois de seca era limpa de cascas e nós, na ponta da qual se pregava um pedaço de tábua, de forma arredondada. A parte da frente desta tábua, ou seja, a parte oposta ao cabo era afiada, como o gume de uma faca. Assim ficava mais fina, a fim de, por um lado, a padeira conseguir empurrá-la para baixo do pão cozido, pegando-lhe e retirando-o do forno com mais facilidade, mas também para, antes de cozido, o colocar no forno de forma adequada e no lugar que desejasse. A pá usada na cozedura do pão de trigo, bastante mais fina e leve, tinha forma semelhante, mas era constituída por uma peça única, também de madeira, sendo a pá uma continuidade do cabo. Estas pás, assim como muitas das usadas para o pão de milho eram feitas por carpinteiros. Havia vários na freguesia.

Por sua vez os varredouros, destinados a varrer o forno, eram sempre de fabrico artesanal, sendo geralmente a própria mulher que cozia o pão que os fabricava. Para tal necessitava de um pau ou vara semelhante ao cabo da pá. Depois amarrava-lhe numa das extremidades uma mancheia de ramos de árvore, recorrendo geralmente às que existiam mais à mão: faia-do-norte, loureiro, faia, sanguinho e, na ausência destes, a fetos ou cana roca. Havia também quem substituísse a verdura por umas tiras de pano, retiradas de roupas já não usadas, o que, embora tendo a vantagem de poder ser usado em várias cozeduras, exigia que estivesse constantemente a ser molhado em água para que o pano não ardesse.

Mas para além de varrer o forno e padejar o pão em cru ou já cozido, era necessário puxar as brasas para fora da porta, colocando-as amontoadas em cima de uma espécie de peanha que existia fora da porta, a fim de se manter por mais tempo o calor do forno. Essa difícil operação era efetuada com uma espécie de pá virada. Numa das pontas de um pau, igualmente semelhante ao cabo da pá ou do varredouro, era pregada uma tábua retangular, formando uma espécie de sacho e que, por vezes tinha uma outra finalidade: empurrar o pão já colocado no forno para se adequar mais o espaço aos que lá dentro ainda era necessário colocar.

Enfim... Trabalhos e esforços notáveis estes e muitos outros, os dos nossos antepassados.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sábado, 30 de janeiro de 2016

«Brumas e Escarpas» #95

Labuta diária

Na Fajã Grande, comunidade cuja economia dependia fundamentalmente da agricultura e da criação de gado, até à década de 1950 o calendário era profundamente condicionado e estabelecido pelas exigências de uma e outra destas atividades. Assim, o ano como que começava não no dia 1 de Janeiro mas em Outubro, a partir da altura em que se iniciava o novo ciclo agrícola e em que as terras não tinham nada. Era por isso que quem fizesse uma terra de meias, ou a tivesse de renda, se pretendesse terminar o contrato, entrega-la ao dono ou iniciar um novo período de arrendamento ou contrato de meias, devia fazê-lo nos fins de Outubro.

Assim, podia dizer-se que o ano agrícola começava quando se iniciava um novo período de produção, ou seja nos princípios de Novembro, altura em que a agricultura como que estava na sua fase de hibernação. Por estas alturas, pouco mais se fazia do que tratar do gado, preparar a matança do porco e do Natal. Mas iniciavam-se também as novas atividades agrícolas tendo em conta não apenas os ciclos lunares e as marés, mas também uma série de crenças, mitos, tradições e de costumes ancestrais e ainda o clima, o tempo, o vento, o sol, a localização das terras, a sua proximidade do mar, a natureza do terreno, etc, etc. Tudo isto obviamente condicionava e influenciava o ano agrícola.

Em Dezembro e Janeiro o mau tempo que se fazia sentir na freguesia cerceava fortemente as atividades agrícolas. Mas em Janeiro já se preparavam algumas terras, sobretudo as que ficavam mais próximas do mar, limpando, estrumando, transformando-a de modo ao terreno ficar limpo, fofo e sem torrões. Dava-se continuidade ao semear das favas, iniciado em Dezembro pela Senhora da Conceição, plantavam-se couves e cebolinho. Em Fevereiro, com o tempo a melhorar já se cavavam ou lavravam as terras que não tinham forrageiras ou que estavam livres e que recebiam o estrume retirado dos palheiros ou o sargaço armazenado nos lagos, no Rolo da Ribeira das Casas. Nalgumas terras semeavam-se os feijões, as caseiras e os tomateiros, plantavam-se couves. Fazia-se o canteiro para a batata-doce e, no fim do mês, já se plantava alguma rama se a houvesse.

Em Março continuavam-se os trabalhos iniciados em Fevereiro, nomeadamente os respeitantes ao acarretar para os campos o estrume e o sargaço, lavrava-se e cavava-se, preparando-se os terrenos para as sementeiras e plantações para o presente mês e para o seguinte. Já se semeava algum milho nas terras próximas do mar, como Areal, Furnas, Porto, Cambada, Estaleiro, Rego do Burro e outras. Procedia-se, se o tempo o permitisse, às primeiras sachas de algumas culturas já em desenvolvimento. A plantação da bata-doce tinha o seu apogeu nesse mês. Em Abril já se sachava e mondava o milho, enquanto se semeava nas terras mais distantes do mar e que haviam sido trilhadas pelo gado amarrado à estaca, e que antes deveriam ser abertas com o arado de ferro. Estas terras, geralmente não necessitavam de estrume. Semeavam-se batatas. Em Maio dava-se continuidade a tudo isto e já havia muito milho para sachar e abarbar. O mesmo acontecia em Junho, altura em que o milho já deveria estar todo sachado, mondado, desbastado e abarbado. Apanhavam as primeiras batatas que também haviam sido sachadas, mondadas e calçadas. Era preciso também sachar os inhames, apanhar alguns e plantar outros novos.

Em Julho e Agosto, enquanto o milho crescia limpavam-se as terras de mato, ceifando a cana roca e os fetos, assim como as relvas que tinham feitos. Estes eram postos a secar e depois amarrados às mancheias ou pavias, sendo guardados nas casas velhas para servirem de cama para o gado no Inverno. Muito milho ainda era sachado no início de Julho. Setembro era altura de quebrar a espiga ao milho, de o desfolhar sendo as folhas também amarradas em mancheias com folhas de espadana e presas nos milheiros para que secassem. Serviriam de comida para o gado no Inverno. Iniciava-se a apanha do milho nas terras perto do mar. Em Outubro era a apanha do milho, encambulhá-lo e guardá-lo nos estaleiros, arrancar os milheiros e limpar as terras que deviam ser entregues no fim do mês. Era o fim de um ciclo, o ciclo do milho que na verdade dominava todo ou quase todo o ano agrícola. Na verdade era o milho que estava na base da economia da Fajã Grande, nos anos 1950, baseada numa agricultura de subsistência, na qual o cultivo daquele cereal se revelava muito importante, dado que dele dependia a sobrevivência da população.

Toda esta labuta diária, a que se juntavam muitas outras atividades como o cortar lenha, ceifar erva, apanhar incensos, tratar do gado, tirar o leite, limpar palheiros e currais, ir muitas vezes ao leite ao mato, constituía um desmesurado trabalho, um cansativo esforço que no entanto era extremamente compensado com tudo aquilo que as terras davam, nomeadamente o milho, que constituía grande parte do sustento anual de cada família. O milho era pois rei e senhor, servindo inclusivamente como moeda e forma de pagamento. Um dia de trabalho era pago com um alqueire de milho.

Tudo no milho era aproveitado. Em primeiro lugar o produto final, ou seja, o que de mais importante se extraía do milho: a farinha, com a qual se fazia o pão e o bolo, elementos básicos no cardápio alimentar de então. Mas não se ficavam por aqui os lucros e benefícios de tal produção. As maçarocas, quando o milho estava verde e ainda vertiam leite eram cozidas juntamente com as batatas brancas ou assadas no espeto e constituíam um bom e saboroso alimento. Outras vezes os grãos eram torrados, servindo não só para se comer mas para se juntar e moer com o café. As folhas tinham um peso substancial na alimentação do gado no Inverno e as espigas, ainda verdes, também alimentavam os bovinos no Verão; a parte interior da casca das maçarocas, depois de desfiada e alisada, era utilizada para encher os colchões e travesseiros e com a restante também se alimentavam os bovinos; uma parte dos milheiros utilizava-se para fazer o lume em que se cozinhava a comida do porco, enquanto outros eram picados em pequenos pedaços e utilizados para secar o curral do suíno das húmidas imundícies em que era profícuo, graças ao seu desassossegado e hediondo reboliço; os sabugos eram utilizados para acender o lume, para as crianças brincarem e até para limpeza e higiene do rabiosque; uma boa parte das maçarocas, sobretudo aquelas cujos grãos eram mais raquíticos bem como as excedentes da produção da farinha, eram utilizados para alimento das galinhas, do porco e das vacas à engorda e até com os fios da cabeleira que saíam da ponta da maçaroca, depois de secos, se fazia chá, muito recomendado nos achaques dos rins e nas infeções urinárias. Além disso e depois de peneirada, a farinha deixava no fundo da peneira um farelo que era utilizado em parte para engrossar as águas das lavagens do porco e também para alimento das galinhas, fazendo-se com ele uma espécie de bola a que se juntavam couves e cascas de batatas, geralmente cozidas e picadas. Finalmente, com a farinha do milho ainda não seco faziam-se as tradicionais papas grossas.

Daí que toda esta riqueza resultante do cultivo do milho justificasse, durante o ano, um trabalho excessivo e cuidadoso e envolvesse toda a população no seu cultivo, a que dedicava grandes cuidados e gigantescos esforços. O milho era, na realidade, a causa e a razão de tudo, até determinando e delineando o calendário da Fajã Grande, obrigando os seus habitantes a uma árdua e persistente labuta diária.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

domingo, 24 de janeiro de 2016

A morte do jornal «O Monchique»

Foi com muita tristeza que recebi a notícia do fecho do jornal «O Monchique», da ilha das Flores. Dezoito anos foi a sua longa vida, muito jovem para ser de utilidade pública. São muitas as vozes que se calam, para uma ilha que fica tão longe e tão isolada. Só nos resta olhar em frente para o ponto mais ocidental da Europa, que é o ilhéu do Monchique. Já em 2010, no seu editorial, se alertava: "Tudo tem um princípio, tudo tem um fim". O financiamento já se tornava insuportável, por parte dos assinantes que não pagavam as suas quotas, ou por falta de publicidade, mas tudo leva a crer que os fundos estruturais que recebia por parte do Governo Regional, referentes à publicidade institucional, por vezes não passavam dos 55 euros. Só podia dar em doença "oncológica prolongada" para chegar rapidamente à sua morte. Ficou a ilha das Flores sem voz, sem um registo público, mas talvez foi o desejo desses que pensam ser donos dos açorianos, nomeadamente desta ilha da coesão, mas que está cada dia mais isolada... Vou transcrever algumas palavras e o último desabafo editorial do jornal «O Monchique»: "Um dia alguém recordará que O Monchique, para além de ser o ponto mais ocidental da Europa, também foi título de jornal e deixou impressa alguma da nossa história coletiva que ocorreu nos últimos dezoito anos!".

Um bem-haja José António, diretor do jornal «O Monchique».


Opinião de João Ventura, publicada no jornal «Diário Insular».
Saudações florentinas!!

sábado, 2 de janeiro de 2016

«Brumas e Escarpas» #94

O primeiro dia do ano na Fajã Grande na década de 1950

O primeiro dia do ano, ou dia de Ano Novo, sobretudo para as crianças, na Fajã Grande nos anos cinquenta era um verdadeiro dia de festa. A última noite do ano, no entanto era como todas as outras. Destinada ao sono. No entanto, antes de adormecer, as crianças ouviam todos os anos uma curiosa lenda, segundo a qual à meia-noite no Outeiro, junto à cruz, o Ano Velho e o Ano Novo travavam uma árdua luta, com o objetivo de decidirem entre si quem ficaria a mandar no próximo ano: se o Ano Velho, se o Ano Novo. Assim adormeciam nas suas camas de palha e casca de milho, uns agarrados aos outros, muito bem cobertos e caladinhos, com os olhitos muito arregalados por fora dos cobertores, com os ouvidos à escuta, a tentar descortinar algum ruído ou barulho indicador da luta e a desejar que fosse o Ano Novo a vencer. E não é que tinham uma sorte danada, pois no dia seguinte de manhã, ao indagar junto dos adultos quem teria sido o vencedor, havia sempre uma fonte fidedigna que jurava que tinha sido o Ano Novo a vencer a peleja. Outra lenda, esta mais destinada aos adultos, era a de que tudo o que acontecesse neste dia havia de acontecer durante todos os dias do ano. Assim quem trabalhasse neste dia havia de trabalhar todos os dias do ano, pelo que este dia deveria ser um dia de descanso.

Mas a grande festa era de tarde. Depois da missa e do jantar, sempre melhorado nesse dia com galinha guisada, inhames, linguiça e torresmos, as crianças que nos dias anteriores haviam formado grupos e ensaiado os cânticos adequados, percorriam todas as ruas da freguesia a cantar os Anos Bons, junto das portas de quase todas as casas, exceção para as que estavam de luto ou tinham algum enfermo em estado grave. Em cada grupo havia um chefe ou líder que tinha como funções principais formar, preparar e liderar o grupo e ainda a de receber o dinheiro e no fim o dividir, equitativamente, por todos os membros do grupo. Durante a tarde do dia de Ano Novo lá iam pelas portas das casas, tocando gaita, ferrinhos e cantando, a fim de que a dona da casa desse uma moedita ou um copinho de licor ou uns figos passados.

Chegados junto à porta da sala de cada casa cantavam:


Anos Bons e tão Bons Anos,
Deus vos dê de melhorados,
Tudo isto passou Cristo
Perdoai nossos pecados.

Ó senhora dona da casa
Raminho da salsa crua
Lá aos pés da sua cama
Nasce o Sol e põe-se a Lua.

Se a porta se abria logo, sinal de que a dona da casa daria alguma coisa, cantavam esta quadra:

A senhora Mariquinhas
Assentada na cadeira
Parece um botão de rosa
Apanhado na roseira.

Se a porta demorava em abrir-se ou nem se abrisse, sabendo o grupo que a dona estava em casa, cantava:

Ó senhora Mariquinhas
Coração de pedra dura,
Venha-nos abrir a porta
Estou co’a mão na fechadura.

No fim do dia, já ao anoitecer, o chefe de cada grupo dividia o dinheiro, equitativamente por todos. Geralmente dava mais do que um escudo a cada um, o que já era muito bom! Cada qual ia comprar um chocolate por vinte centavos e guardava o restante para o dia da Festa da Senhora da Saúde.

Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

«Brumas e Escarpas» #93

O Natal na Fajã Grande na década de 1950

Na Fajã Grande, como naturalmente em todas as outras freguesias açorianas, os preparativos para o Natal começavam alguns dias antes, por vezes e nalguns casos quase no princípio do mês de Dezembro, sendo que durante todo aquele mês, sobretudo as crianças viviam atafulhadas numa pequena grande azáfama. Na verdade, para os mais pequenos havia várias tarefas a realizar, nomeadamente, o fazer das casas e outros edifícios para o presépio e para as quais era necessário arranjar, por vezes até pedir nas lojas, restos de caixas de sapatos e caixotes de papelão, semear os pratinhos de trigo, arranjar material para a gruta. Aos adultos, nomeadamente às mulheres, era tempo de começar a fazer os licores, reservar ovos, engordar um galo ou uma galinha e arranjar ou mandar fazer uma ou outra fatiota para a noite e dia de Natal. Mas era sobretudo a preparação da ceia e do presépio que estava em causa.

Na maioria das casas, sobretudo naquelas em que havia crianças, o presépio era, na verdade, o epicentro de toda a preparação do Natal. O presépio, para além de representar a gruta de Belém onde Jesus nascera pobremente numa manjedoura ao lado de um burro e de uma vaca, servia também para representar, não apenas a típica freguesia açoriana, com casas, igreja, ribeiras, caminhos, moinhos, campos, etc, mas mostrava também cenas do quotidiano da população das ilhas, nomeadamente a ida ao moinho, os trabalhos agrícolas, a criação de gado à porta ou das ovelhas do mato, a matança do porco, a ida à fonte, o mexerico pelas ruas, etc, etc. No meio de toda esta panóplia representativa e metafórica, nunca faltava num dos cantos, lá bem distante da gruta, a humilde casa de Barbearias, onde segundo a lenda São José foi pedir lume para fazer uma fogueira e aquecer água para lavar o Menino e, no outro, o grandioso palácio de Herodes, perverso e malvado tetrarca da Galileia.

As figuras humanas, assim como as ovelhinhas, nalguns casos eram de barro, geralmente compradas nas lojas ou trazidas por algum familiar de outra ilha e guardadas de um ano para o outro. A maioria, no entanto, eram figuras desenhadas e recortadas de papelão. Nas ovelhas de papelão colava-se um pouco de lã ou algodão do lado que ficava voltado para fora. As personagens humanas eram pintadas ou revestidas através da colagem de pedacinhos de papel a simular as roupas. Por sua vez os montes eram construídos com pedras ou papel amarrotado e cobertos com leivas musgo verde e fofo, as ruas que circulam entre as casas eram feitas de farelo de serragem de madeira, as ribeiras que corriam pelas encostas com pratas de papel de chocolate e os lagos onde desaguavam feitos com vidros partidos, nos quais nadavam patinhos também eles de barro. A igreja, as casas e as outras construções eram de papelão e para a cobertura dos telhados usava-se papelão canelado. Recortavam-se as janelas e as portas, colavam-se cortinados... Enfim, nada faltava, mas todo este material tinha que ser recolhido com antecedência, o que nem sempre era fácil.

A ceia da Noite de Natal era muito diferente das dos restantes dias. Para além dos torresmos e da linguiça com inhames e pão fresco, comia-se uma galinha guisada ou assada e recheada com debulho. Mas, sobretudo para as crianças, o mais desejado era o arroz doce e os figos passados e, nas casas mais abastadas, o bolo doce de frutas.

O que, no entanto, atraía mais a atenção de todos na noite do dia 24 era a tradicional Missa do Galo à meia-noite e que fora precedida, nos nove dias anteriores, pelas novenas de Natal, celebradas sempre de madrugada, ainda noite escura.

O dia de Natal era dia de visitar os presépios dos amigos e vizinhos de toda a freguesia. Nessa altura comia-se um biscoito ou uma fatia de bolo e bebia-se um cálice de licor, alcunhado com muito carinho e ternura de Chichi do Menino Jesus.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».