quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Açores têm 60 trilhos pedestres

Os Açores têm atualmente mais de 60 trilhos pedestres devidamente homologados, estendendo-se por mais de 500 quilómetros de caminhos no conjunto das nove ilhas.

Os números foram revelados hoje, na apresentação da Equipa de Coordenação e Manutenção da Rede Regional de Trilhos Pedestres. Esta equipa resulta da contratação de 20 pessoas que em permanência passarão a assegurar a manutenção e identificação dos trilhos já homologados e a criação de outros.

Segundo a apresentação feita na ocasião, nos Açores existem apenas, neste momento, trilhos pedestres de "pequenas rotas", ou seja, com menos de 30 quilómetros. No entanto, as autoridades açorianas contam "abrir num futuro próximo" grandes rotas, assim como trilhos urbanos, tendo sido avançado o exemplo da cidade de Angra do Heroísmo, classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

Entre 60% a 70% dos turistas que visitam os Açores praticam pedestrianismo, segundo dados dos inquéritos feitos em postos de turismo da Região, revelou o director regional do Turismo, João Bettencourt, acrescentando que também os residentes no arquipélago praticam cada vez mais este tipo de atividades.

Já o secretário regional com a pasta do Turismo, Vítor Fraga, disse que os percursos pedestres têm "um papel determinante" e são "um produto âncora" na oferta turística dos Açores, inscrevendo-se este reforço de meios humanos destinados aos trilhos numa aposta do executivo que visa "o incremento contínuo e sustentado da qualidade dos produtos turísticos" regionais.

Segundo Vítor Fraga, a Rede de Percursos Pedestres Classificados dos Açores é já "devida e regularmente" verificada, "através da revitalização de sinalética, vistorias, ações de limpeza e manutenção".


Notícia: jornal «Açoriano Oriental».
Saudações florentinas!!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Aproxima-se o fim das quotas leiteiras

Os presidentes das regiões ultraperiféricas (RUP) da União Europeia defendem, no seu contributo para a consulta pública do POSEI, que se deve dar uma "atenção particular" ao impacto da liberalização das quotas leiteiras, em particular nos Açores.

O programa comunitário POSEI financia medidas especiais que garantem o abastecimento de produtos essenciais e o apoio à produção local das RUP - Açores, Madeira, Canárias e territórios ultramarinos franceses-, encontrando-se em fase de revisão.

As regiões ultraperiféricas da União Europeia consideram que, face à “extrema fragilidade e à forte dependência dos agricultores” destas regiões e à “importância de manter os produtos agrícolas tradicionais, torna-se importante continuar a promover um desenvolvimento territorial equilibrado”. O documento salvaguarda que deve ser “dada uma atenção especial ao impacto dos acordos internacionais, bem como a toda a evolução dos regulamentos europeus para certos produtos sensíveis nas RUP, como, por exemplo, o fim do regime de quotas leiteiras, que toca em particular os Açores”.

O parecer sobre a consulta pública do POSEI das RUP aponta a necessidade de manutenção do programa na sua vertente agrícola, assim permitindo-se “reforçar a competitividade da agricultura e das suas fileiras” nestas regiões: “É dentro deste contexto que a Conferência dos presidentes das RUP defendem que o POSEI deve ser preservado no seu espírito a fim de permitir assegurar a prossecução dos seus objetivos, em particular em termos de acompanhamento de todas as fileiras”, é defendido no documento. De acordo com estas regiões europeias, “qualquer outra orientação que vise comprometer as raras produções de exportação terá consequências negativas sobre a competitividade e emprego”.

O relatório final sobre os contributos da consulta pública de revisão do POSEI vai estar concluído no final de 2013 ou início de 2014, de acordo com a Comissão Europeia.


Notícia: jornal «Açoriano Oriental».
Saudações florentinas!!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Florentinos satisfeitos com a "fibra"

Os florentinos dizem que ganharam qualidade de vida com a chegada da fibra óptica ao grupo ocidental açoriano, o que possibilitou ligação à internet mais rápida e televisão digital.

A fibra chegou às ilhas das Flores e Corvo em finais de Outubro passado, depois de um complicado processo reivindicativo. Antes, as comunicações com o grupo ocidental - as restantes ilhas açorianas já dispõem de fibra óptica desde meados dos anos 1990 - eram lentas e ineficazes.


Notícia: RDP Antena 1 Açores.
Saudações florentinas!!

domingo, 10 de novembro de 2013

Festa das Crianças, na Fajãzinha


As festas em geral, e em particular as religiosas, desde sempre foram apanágio e marco imprescindível das gentes açorianas. Neste caso em concreto mostramo-vos imagens da Festa das Crianças, na freguesia da Fajãzinha.

Grande azáfama para os adultos, que ao longo de uma semana levaram a cabo uma panóplia de tarefas para que nada faltasse no dia dedicado à Festa das Crianças, que afinal são os protagonistas mas que por razões óbvias os mais crescidos é que tomam as rédeas. Uma festa onde nada faltou e para as conhecidas Sopas do Espírito Santo apareceram pessoas vindas de toda a ilha, chegando próximo das quatro centenas.

Graças ao tempo de Verão e à cordialidade da natureza que bafejou de brilho a ilha das Flores neste dia, houve aqueles que “com um só cajado puderam matar muitos coelhos”, ou seja, dar um excelente passeio, aproveitar para estar perto da natureza, rever amigos e poder estar presente na festa que culminou com um almoço de Sopas de Espírito Santo oferecido a todos os que naquele dia marcaram presença na Fajãzinha.

Bem haja a todos, em especial à organização da festa, à igreja, à Luísa Silveira como responsável pelas fotografias e ajuda à produção e a todos os que de uma forma ou de outra tornaram possíveis estas imagens, bem como o trabalho videográfico.


Vídeo: YouTube de José Agostinho Serpa.
Saudações florentinas!!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Açores têm 500 igrejas e capelas

Levantamento iniciado em Abril insere-se no programa nacional de actualização da base de dados sobre o património móvel e imóvel da Igreja Católica.

O Sistema de Informação para o Património Arquitectónico já inventariou 542 imóveis no arquipélago dos Açores, na sua maioria igrejas e capelas. Este levantamento do património arquitectónico religioso dos Açores, iniciado em Abril, “tem procurado completar o acervo que já estava sinalizado ou que se inventariou de novo, quer em termos de informação histórica quer em termos de informação fotográfica”, disse João Paulo Constância, membro da Comissão Diocesana.

A Comissão Diocesana dos Bens Culturais da Igreja, segundo o seu presidente Duarte Melo, além de “desenvolver esforços para inventariar, salvaguardar e valorizar” todo o património diocesano, pretende-se também proceder à elaboração de futuros roteiros que sirvam de guias turísticos a quem nos visita.

A Diocese de Angra que abrange todo o arquipélago dos Açores, possui um total de 172 paróquias distribuídas pelas nove ilhas.


Notícia: jornal «Público».
Saudações florentinas!!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ilhas das Flores e Corvo: agarrados ao computador após ligação à fibra óptica

Uma semana após a chegada da fibra óptica, os habitantes das ilhas das Flores e Corvo estão "mais agarrados" ao computador e os empresários contam concretizar mais facilmente "bons negócios" com esta melhoria das comunicações.

O presidente do Núcleo empresarial das Flores e Corvo considera que a ligação destas ilhas ao cabo submarino de fibra óptica, há uma semana, além de ter “melhorado substancialmente” as comunicações vai facilitar a concretizações de “bons negócios”: “Não tenho dúvidas nenhumas de que vão melhorar quer os contactos com outros parceiros, quer a nível das importações. Isso vai ser uma melhoria muito boa para as duas ilhas”, afirmou Carlos Silva, que representa 47 empresários das ilhas das Flores e Corvo.

Há uma semana que as duas ilhas açorianas do grupo ocidental, onde vivem perto de 4.500 pessoas, estão ligadas ao sistema global de cabo de fibra óptica, uma antiga ambição das populações que só agora foi concretizada e que permitiu melhorar a rapidez de acesso à internet.

Carlos Silva, que também é proprietário de um empreendimento turístico na ilha das Flores, reconheceu que “a melhoria foi muito substancial” quer para os empresários quer para as populações das duas ilhas, alegando não haver dúvidas que “agora a velocidade da internet é mesmo rapidíssima”: “É a tal questão de se ligar ao Mundo com a rapidez que se impunha já há muito tempo e que finalmente chegou. Não vale a pena olhar para trás. Está a funcionar em pleno e oxalá agora haja muitos bons negócios por via dessa rapidez da internet”, disse o presidente de Núcleo empresarial das Flores e Corvo.

Carlos Silva garante que anteriormente, devido à lentidão no acesso à internet, houve “negócios retardados” em virtude da velocidade ser tão baixa que “por vezes havia alguma dificuldade em contactar com os clientes”, mas “não deixamos de fazer negócios”.

Kathy Rita trabalha na única residencial da mais pequena ilha dos Açores, propriedade dos pais, tendo confessado que tem sempre os computadores ligados, não só por questões laborais mas também para poder estar ligada ao Mundo: “Já não há quebras nos vídeos, mesmo na rádio on-line. Já não faz pausas que uma pessoa esperava se calhar meia hora ou 20 minutos para carregar qualquer coisa de um minuto. Agora está muito melhor”, afirmou Kathy Rita, que nasceu nos Estados Unidos e veio viver para o Corvo aos 13 anos.

A jovem, que revelou ter sido das primeiras pessoas no Corvo a estar ligada à internet quando esta chegou na década de 1990, referiu que agora as pessoas utilizam muito mais o Skype para falar com os familiares emigrados e a internet transformou-se numa rotina diária: “O pessoal já passava muito tempo em casa à noite. Agora estão mais agarrados aos computadores, sem dúvida. Até a minha mãe está no YouTube a ver receitas e dicas. Está toda a gente aqui colada aos computadores”, disse Kathy Rita.


Notícia: jornal «Açoriano Oriental».
Saudações florentinas!!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

À conversa com Francisco Gomes Vieira


Retalhos da História da ilha das Flores, por Francisco Vieira.

Nascido em 1940 na vila de Lajes das Flores, Francisco Gomes Vieira após a sua juventude passada nesta ilha emigrou para o Canadá, onde com sua esposa e filhos tem a vida constituída.

Desde cedo mostrou ser possuidor de uma memória rara e invejável, agarrado aos livros e em especial os da história da nossa História da ilha das Flores e os de genealogia.

Como a ilha das Flores - segundo as suas palavras - é deficiente em relatos históricos, Francisco Gomes Vieira sempre se agarrou a tudo ao seu alcance para reconstruir a história florentina. Assim sendo, este historiador concilia a História disponível mais as histórias das nossas gentes ao longo dos séculos para definir a História mais verdadeira e real possível da ilha das Flores.

Todas as mais palavras que eu possa utilizar são desnecessárias. Muito obrigado a este historiador florentino pela disponibilidade e em especial a enorme sabedoria e conhecimento que decidiu partilhar com todos nós, em prol de uma ilha mais clara para uma história mais rica e digna.

Obrigado à Luísa Silveira pela ajuda à produção e fotografia.

Vídeo: YouTube de José Agostinho Serpa.
Saudações florentinas!!

domingo, 3 de novembro de 2013

Ogivas nucleares estão em repouso?

Um submarino nuclear americano está afundado a 640 quilómetros ao largo dos Açores. Há 36 anos que os seus destroços repousam no fundo do mar sem que se saibam os perigos que podem advir deste facto.

O caso continua envolto em mistério e secretismo. Há já algumas dezenas de anos que os habitantes do arquipélago dos Açores podem estar expostos aos perigos da radioactividade sem que disso tenham real consciência. O afundamento do USS Scorpion, submarino nuclear norte-americano, ao largo da Zona Económica Exclusiva açoriana, é, inclusivamente, desconhecido por várias personalidades políticas e científicas regionais. Cerca de 400 milhas a sudoeste dos Açores encontra-se depositado no fundo do mar o que resta do submarino norte-americano USS Scorpion. Mas mais importante do que isso é o facto de nunca terem sido retiradas dos destroços as duas ogivas nucleares nem os reactores nucleares que o submarino transportava à data do seu afundamento (22 de Maio de 1968). Apesar do material estar localizado em águas internacionais, as autoridades norte-americanas têm impedido, até hoje, que outros estudiosos tenham acesso ao local e possam efectuar investigações. Numa das últimas grandes avaliações levadas a cabo por cientistas dos Estados Unidos, há quase trinta anos, em 1986, a conclusão não poderia ter sido mais lacónica e intranquila: não está provado que haja perigo de libertação de material radioactivo. No entanto, também ninguém pode assegurar a 100% que tal não venha a acontecer ou já tenha acontecido. Esta é uma resposta insuficiente face aos reais perigos - depositados a 3.048 metros de profundidade - que estão aqui em causa. E, até à data, mais de quatro décadas volvidas sobre o misterioso desaparecimento do submarino nuclear, a esmagadora maioria da documentação existente sobre o USS Scorpion continua classificada como secreta pelas autoridades militares norte-americanas. Até ao momento desconhecem-se as verdadeiras causas que levaram ao afundamento do Scorpion. No entanto sabe-se que o nome do submarino é citado no pior escândalo da História da secreta norte-americana, a célebre CIA - no famoso caso Walker.

Apesar deste dossiê ser desconhecido por grande parte da opinião pública, também há cientistas da Universidade dos Açores que têm conhecimento do caso. Alguns estabeleceram contacto com a armada americana a fim de obter mais dados, já que os destroços estão localizados numa região vulcânica. A informação recebida foi parca e adiantava que regularmente são feitas monitorizações no local do incidente para detectar se o material nuclear está ou não a ser corroído. Para além disso, a armada norte-americana já afirmou que os reactores utilizados em todos os submarinos e navios com origem em terras do tio Sam são concebidos para minimizar o impacto no meio ambiente em caso de acidente. O que não deixa completamente tranquilo quem tem conhecimento do caso. Aliás, o «Expresso das Nove» apurou que há quem, na comunidade científica, admita a hipótese dos elevados índices de mercúrio detectados há alguns anos em determinadas espécies piscícolas estarem directamente relacionados com o Scorpion. Uma hipótese meramente académica, mas que no entender de especialistas não deve deixar de ser levada em conta. A nossa reportagem tentou obter reacções de vários cientistas nacionais conhecedores do problema, bem como de diversos organismos oficiais, mas nenhuma das pessoas ou entidades contactadas aceitou prestar declarações sobre tão controverso, polémico e secreto dossiê. Curiosamente, apesar de serem vários os que afirmam desconhecer a existência do USS Scorpion, a nossa reportagem apurou também que o mesmo já foi alvo de um trabalho académico realizado no departamento de Biologia da Universidade dos Açores, no âmbito da disciplina de Poluição. No entanto, todos os esforços encetados no sentido de contactar os autores do referido trabalho não foram bem sucedidos.

O afundamento do submarino norte-americano, bem como o facto do material nuclear que este transportava a bordo nunca ter sido retirado do fundo do mar são dados que o Executivo Regional conhece. Contactada pelo «Expresso das Nove», fonte da Secretaria Regional do Ambiente adiantou que em 1993 a tutela recebeu um relatório com informação sobre o caso Scorpion, remetido pelo então Ministério do Ambiente. No documento eram citadas as conclusões do trabalho realizado em 1986 pelas autoridades americanas, as quais afirmavam que não tinham sido detectados quaisquer vestígios de contaminação radioactiva na zona do acidente. A mesma fonte garantiu-nos ainda que das análises periódicas que são feitas às águas junto à costa e nas zonas balneares nunca foram detectados valores anormais ou que indiciassem qualquer atentado ambiental. O dossiê Scorpion está sob a responsabilidade do Governo da República. No entanto, o caso não parece merecer grande atenção do Executivo central.

Ninguém desconfiava da arma poderosa que os inimigos russos detinham: os códigos utilizados pelos submarinos americanos. A informação havia sido passada por Walker, um oficial da marinha norte-americana, que protagonizou o pior escândalo de espionagem e que poderá mesmo ter conduzido o Scorpion ao fundo do mar. Desde o início da actividade, em 1959, que o submarino norte-americano navegava nas profundezas do mar vigiando os navios russos. A bordo do USS Scorpion seguia uma experiente equipa de marinheiros, entre os quais intérpretes de russo que interceptavam e traduziam as informações transmitidas pelos militares inimigos a outras unidades em terra. A 17 de Maio de 1968, o USS Scorpion efectuou a sua última missão. Após três meses de serviço no Mediterrâneo, os militares preparavam-se para regressar a casa quando o comandante recebeu novas ordens. As ilhas Canárias eram o próximo destino. A missão era clara: vigiar um grupo de embarcações soviéticas. O submarino demorou cinco dias numa viagem que terminaria de forma abrupta ao largo dos Açores, onde permanecem ainda hoje os respectivos destroços. Os 99 tripulantes que iam a bordo morreram. Contudo, dois militares que faziam inicialmente parte desse grupo e que, no entretanto, haviam saído do submersível, permanecem vivos. O «Expresso das Nove» também tentou falar com um deles, mas até ao fecho da nossa reportagem não obtivemos qualquer resposta de Alan Stricklind, ex-membro da tripulação. Nunca se chegou efectivamente a saber como ocorreu este desastre. Inicialmente especulou-se que tinha sido um dos dois torpedos transportados pelo Scorpion a causar o afundamento. No entanto, esta teoria foi rapidamente abandonada fruto de uma segunda investigação que encontrou as duas armas nucleares intactas no fundo do mar. O caso continua a ser considerado pelo Pentágono como “top secret”. E há mesmo quem defenda a hipótese de o afundamento do Scorpion ter sido desencadeado pelas próprias autoridades norte-americanas em virtude dos soviéticos terem um alegado conhecimento pormenorizado acerca da embarcação norte-americana. Outra teoria avançada revela que o afundamento do submarino poderá ter sido causado por um incidente com um submarino russo que, na altura, também se encontraria no local, mas nada disso é confirmado, quer pelas autoridades norte-americanas quer pelas russas. A última vez que se soube do submarino foi a 17 de Maio de 1968. Cinco dias depois deu-se o afundamento. Foram necessários mais de cinco meses para detectar a respectiva localização. Ainda hoje há quem defenda, quer nos EUA quer na ex-URSS, que com o afundamento do Scorpion ficou também guardado um dos maiores “segredos” da Guerra Fria, razão pela qual actualmente - mais de 45 anos depois - as autoridades russas e norte-americanas continuam a considerar o Scorpion um assunto da mais alta confidencialidade.

A 110 milhas da costa norte da ilha de São Miguel está “enterrado” mais uma embarcação que à data do naufrágio continha material radioactivo. A 25 de Novembro de 1997, o cargueiro com registo no Panamá chamado MSC Carla fez a sua última viagem perto das águas açorianas. A bordo seguiam 11 toneladas de césio 137 acondicionado em barris de aço de 330 TetraBq. O césio 137 é um isótopo radioactivo, proveniente da fissão de urânio ou plutónio. Embora este componente químico não emita vapores, nem gases, é facilmente detectável pelos meios de radiação fruto da sua alta perigosidade. Presentemente, os destroços desta embarcação com bandeira panamiana continuam a 3 mil metros de profundidade, a 110 milhas da maior ilha açoriana. Apesar da legislação internacional, já ratificada por Portugal, relativamente ao transporte de materiais radioactivos ser clara, a mesma nem sempre é cumprida. A lei determina que o material radioactivo seja transportado em cápsulas hermeticamente fechadas, passíveis de aguentar o desgaste, de modo a que a saúde humana e o meio ambiente estejam a salvo de um acidente.


Notícia: «Expresso das Nove», edição de 17 de Setembro de 2004.
Saudações florentinas!!

sábado, 2 de novembro de 2013

«Brumas e Escarpas» #66

O Dia dos Defuntos

Na ilha das Flores, como em todo o orbe católico, celebrava-se com um misto de saudade, tradição e religiosidade o dia 2 de Novembro, vulgarmente denominado Dia dos Defuntos.

Mas, na Fajã Grande, o culto e devoção das almas, com verdade, envolvia em desmedida dedicação toda a freguesia. Nem os mais descrentes se esquivavam de evocar a memória dos falecidos e sufragar as almas dos familiares que já haviam partido deste Mundo. Daí que, não apenas o dia 2, mas também todos os outros dias de Novembro tivessem uma forma de celebração religiosa específica e muito peculiar.

Durante o ano eram feitas na freguesia duas recolhas ordinárias de ofertas a favor das Almas do Purgatório: em Janeiro, a das línguas do porco e em Novembro, a do milho. No que concerne à oferta das línguas dos porcos, fenómeno estranho e de esconsa clarificação, cada agregado familiar, se assim o entendesse, salgava a língua do seu porco e, algum tempo depois da matança, levava-a para a missa dominical, finda a qual era arrematada no adro da igreja, sendo o dinheiro resultante de cada leilão entregue ao mordomo das almas, que o guardava. A recolha do milho, por sua vez, era feita no dia de Todos os Santos. Grupos de homens munidos de cestos ou sacos de serapilheira percorriam as ruas da freguesia e, batendo à porta de cada casa, gritavam: “Milho pr’ás almas”. Era também um costume ancestral e que tinha como objectivo recolher as ofertas de milho, cujo dinheiro resultante da venda também era destinado às benditas almas. Esta actividade era devidamente planificada e programada pelo mordomo das almas, que dias antes requisitava os homens necessários para fazer o peditório. Convidava também uma grande quantidade de mulheres para, durante e após o peditório, recolher o milho, debulhá-lo e enchê-lo em sacos. O milho posteriormente era vendido e esse dinheiro, juntamente com o do leilão das línguas e o de outras ofertas, era entregue ao pároco. Destinava-se a celebrar missas e rezar os responsos, todos os dias durante o mês de Novembro, por alma dos defuntos de todas as famílias da freguesia. Além disso, ainda eram feitas, ao longo do ano e por iniciativas individuais, sempre resultantes de promessas, outros peditórios e recolhas extraordinárias de produtos agrícolas que também eram vendidos ou leiloados.

Assim, e tendo em conta o dinheiro obtido através de todas estas derramas e ofertas, o pároco calculava o número de missas a celebrar. Depois dividia o número de casas da paróquia por esse número e estabelecia uma espécie de calendário, sendo que em cada dia do mês, excepto ao domingo, a missa era celebrada por alma dos defuntos de um conjunto de famílias. Este conjunto era determinado, grosso modo, pelo quociente do número de casas a dividir pelo número de missas. Nenhuma casa era excluída, mesmo que tivesse contribuído com pouco ou nem sequer tivesse colaborado na oferta de géneros ou na recolha de donativos.

Na tarde do Dia de Todos os Santos procedia-se à ornamentação e limpeza do cemitério, enfeitando cada família as sepulturas dos seus antepassados. No dia 2 de manhã cedo era celebrada a primeira missa, Missa in die obito com paramentos pretos, sendo inicialmente montada a essa no centro do cruzeiro, com seis castiçais ao redor e um tapete negro a cobri-la, como se de um funeral se tratasse. Finda a missa, o pároco trocava a casula preta pela capa de asperges da mesma cor e rezava os responsos dos defuntos. Seguia-se a procissão ao cemitério, durante a qual os sinos dobravam a finados e onde, novamente, eram rezados responsos e benzidas as sepulturas. De regresso à igreja eram celebradas mais duas missas, de acordo com as normas litúrgicas então vigentes. As Trindades da noite do dia 1 e da manhã e noite do dia 2 eram acompanhadas do dobrar a finados.

Quando nós crianças, ainda indiferentes a tais celebrações, perguntávamos de quem era o enterro ou quem tinha morrido, diziam-nos os adultos que era o enterro do Velho Laranjinho, figura mítica que representava todos os finados da freguesia. Também era costume no dia 2 de Novembro cozer pão e assar abóboras no forno, em louvor das almas do purgatório, mas o forno deveria ser apagado sempre antes do toque das Trindades, caso contrário, dizia-se, as almas dos nossos antepassados continuariam a ser queimadas pelo santo fogo do Purgatório.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

«Brumas e Escarpas» #65

As furnas da Rocha da Fajã Grande

Quem antigamente subia a Rocha da Fajã Grande, dia após dia, a fim de ir tirar o leite às vacas que pastavam no Mato durante o Verão, que no Inverno só havia gado alfeiro naqueles descampados, ou mesmo quem a escalasse apenas esporadicamente no cumprimento de tarefas fortuitas, como ceifar feitos, cortar bracéu, ir buscar queirós para a matança, apanhar amoras para fazer doce, ir ao Fio ou até simplesmente quem pretendesse viajar para os Cedros ou para Santa Cruz, neste caso para evitar a travessia da Ribeira Grande junto à Fajãzinha, encontrava, ao longo daquelas íngremes e sinuosas trinta e duas voltas, três furnas: a do Peito, a da Caixa e a dos Dez Réis.

As furnas eram concavidades encravadas na rocha, mesmo à beirinha do caminho, com formatos diferentes, com tamanhos desiguais e com fins diversificados, embora todas elas constituíssem marcos significativos na subida de tão gigantesca e descomunal escarpa.

A Furna do Peito era a primeira, a maior e a mais útil. Situava-se logo no início da subida, na décima volta e tinha a forma de uma grande caverna encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha, cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano, razão óbvia do seu epíteto. Esta furna tinha uma dupla finalidade: ora servia de abrigo da chuva, de protecção dos ventos e resguardo dos temporais, ora de lugar de descanso, de repouso e de retoma de fôlego. Mas era também uma espécie de templo onde entravam os caminhantes, sobretudo os que sentiam mais medo e ostentavam maiores dificuldades durante a subida, a fim de obterem ânimo, calma, tranquilidade e, sobretudo, a esperança de chegar ao cimo livres de qualquer perigo ou salvos duma eventual derrocada. Por isso havia sido colocada, numa das paredes interiores da furna, uma grande cruz de madeira e ao redor de todo o seu interior havia-se construído uma espécie de bancada feita de pedras toscas, onde os transeuntes que ali entravam se sentavam ou a descansar e a retemperar forças para continuar a subida, ou a implorar a Deus, à Virgem e a todos os Santos, Anjos e Arcanjos que impedissem o desabamento por ali abaixo de pedras ou ribanceiras, pelo menos enquanto durasse a extenuante e morosa caminhada até ao acimo.

Por sua vez a Furna da Caixa, situada a meio da Rocha, era bastante mais pequena, tinha muito pouca profundidade e situava-se rigorosamente a meio da escalada. Quem ali chegava, pelo menos tinha a certeza de que já galgara a primeira metade daquela abstrusa, enigmática e escabrosa subida. Como o seu tamanho e profundidade, de tão escassos que eram, não permitiam a um cristão sequer ali entrar para descansar ou abrigar-se, alguém construíra nos seus limítrofes um logradouro, com um muro protector e uma banqueta em forma de semicírculo e que servia simultaneamente de local de descanso e de miradouro. Na realidade, dali, enquanto se descansava, podia-se observar a Fajã como se de uma vista aérea se tratasse. Ao perto o verde das relvas da Figueira e das Águas e as terras de mato do Pocestinho e dos Paus Brancos; mais além as belgas da Bandeja e das Queimadas, os cerrados do Alagoeiro e do Mimoio e depois as casas, com o vermelho escuro dos telhados a misturarem-se com o verde amarelado das courelas. Por fim e a delimitar a imensa fajã a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas a entrelaçarem-se com o oceano imenso e infinito onde se haviam cravado desavergonhadamente, lá ao longe, a Baixa Rasa e o Monchique.

Finalmente, logo a seguir à Fonte Vermelha, a mítica Furna dos Dez Réis, a última, a mais pequena e, provavelmente a mais profunda. Tão pequena que nem uma cabeça humana caberia na sua entrada, tão funda que não se lhe conhecia a profundeza. Era no entanto uma das mais importantes e mais almejada de atingir por todos os que subiam aquele inexaurível alcantil. Por um lado, chegar à Furna dos Dez Réis era ter a certeza de que faltavam apenas dez voltas para chegar à cancela do Mancebo, no cimo da Rocha. Por outro lado aquela furna tinha um poder mágico e sobrenatural: quem metesse lá dentro uma mão bem fechada e formulasse um desejo que não fosse muito ambicioso, esse desejo ser-lhe-ia concedido.

Quanto a mim, todas as vezes que por ali passava, quando criança, metia a mão, firmemente fechada, pela furna dentro e formulava o desejo de chegar ao cimo da Rocha são e salvo. E confesso que esse desiderato, não sei se pela força milagrosa da furna, se pela minha coragem e valentia, sempre me foi concedido.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».