quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Concerto de cravo por Gustaaf van Manen

No âmbito do seu plano de actividades, o Museu das Flores promove pela primeira vez na ilha das Flores um concerto de cravo. O maestro Guustaf van Manen interpretará obras de Johann Sebastian Bach na Igreja de São Boaventura, hoje (quinta-feira) às 20h30 e amanhã, à mesma hora, no Museu municipal das Lajes.

O concerto insere-se no projecto de descentralização cultural levado a cabo pelo Museu das Flores, numa tentativa de melhor servir a comunidade florentina e captar novos públicos.

A residir nos Açores desde 1980, o holandês Gustaaf van Manen foi professor de piano e órgão no Conservatório de Ponta Delgada, onde fundou o Coro, tendo mais tarde lecionado diversas disciplinas no Conservatório de Angra do Heroísmo, onde exerceu desde 1999 até à sua reforma as funções de presidente do conselho executivo daquele Conservatório. Gustaaf van Manen realizou inúmeros concertos como pianista, organista e cravista, foi diretor musical na Capela americana da Base das Lajes e é organista titular na Igreja do Colégio, em Angra do Heroísmo.


Notícia: "sítio" da Câmara Municipal de Lajes das Flores.
Saudações florentinas!!

quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

Investigadora florentina vence prémio

Bernardete Melo foi uma das vencedoras da Innovate Competition Fundação AstraZeneca (FAZ), na categoria de investigação translacional.

A FAZ Innovate Competition está integrada no programa científico do Congresso para estudantes de ciências da vida (iMed Conference) e constitui um concurso no qual os jovens estudantes e investigadores são desafiados a apresentar projetos de investigação originais, em que estejam envolvidos e inseridos na vertente da investigação básica ou da investigação translacional.

Este ano, a FAZ Innovate Competition foi composta por duas vertentes: uma primeira apresentação dos projectos em formato de poster científico, tendo os melhores classificados pelo público, mediante votação, sido seleccionados para posterior apresentação oral na iMed Conference.

Destas apresentações orais, o júri escolheu dois vencedores, um por cada categoria na área das ciências da vida, em que a investigadora Bernardete Melo venceu na categoria de investigação translacional, com o projecto "A ressecção do nervo do seio carotídeo previne o aumento de peso e reverte a dislipidémia, em modelos animais de síndromes metabólicos e pré-diabetes".

O prémio atribuído foi uma bolsa de investigação no valor de seis mil euros, que constitui um incentivo monetário para que os investigadores possam dar continuidade a estes projectos nas instituições onde os mesmos estão a ser desenvolvidos.


Notícia: portal «Ciência Hoje».
Saudações florentinas!!

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Açores perdem receita de 37,4 milhõ€$

Passos Coelho disse "sim" à redução de 30% em relação às taxas nacionais, mas diz que não pode haver aumento de transferências da República. Assim, a Região fica a perder.

A abertura do primeiro-ministro para alterar dos actuais 20% para 30% o diferencial fiscal nos Açores, anunciada na sua primeira visita oficial a esta Região Autónoma, representa um presente “envenenado” que contraria a proposta do Governo Regional presidido pelo socialista Vasco Cordeiro.

O Executivo açoriano pretendia que a baixa da carga fiscal fosse acompanhada do correspondente reforço das transferências da República para a Região, de modo a compensar a quebra na cobrança dos impostos que constituem receitas próprias da Região. Passos Coelho deixou claro que estava receptivo à redução de impostos, mas contrariou a pretensão do Governo Regional num tema que não fazia parte da agenda da cimeira entre os dois governantes.

A questão foi introduzida pelo líder regional do PSD, com Duarte Freitas a propôr, nas vésperas da visita do primeiro-ministro, a reposição "com urgência" dos 30% do diferencial fiscal no arquipélago (a diminuição máxima que os impostos podem ter em relação ao Continente), dizendo ter "fundadas esperanças" de que haveria resposta positiva de Passos Coelho nesse sentido.

"Esta proposta do PSD/Açores é uma esperteza apressada porque dá com uma mão e tira com a outra. Estamos todos de acordo com a reposição fiscal. O que diferencia o PSD/Açores é que omite a correspondente reposição dos recursos que foram retirados aos açorianos", reagiu o vice-presidente do Governo Regional. Sérgio Ávila acrescentou que "por decisão do PSD e do CDS-PP, os açorianos estão a pagar mais impostos para que o Governo da República poupasse com os Açores".

Duarte Freitas estima que esta medida devolve aos açorianos cerca de 50 milhões de euros. Diferente previsão tem o Governo Regional, que aponta para uma perda de receita na ordem dos 37,4 milhões de euros. Ou seja, os contribuintes locais ganham, mas é o Governo Regional quem perde.


Notícia: jornal «Público».
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segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Primeiro destino turístico de natureza

No espaço de uma década, o Governo Regional quer transformar os Açores no primeiro destino turístico de natureza do país.

O secretário regional dos Transportes e Turismo sublinhou que o sector turístico tem um "papel muito relevante a desempenhar no desenvolvimento" da Região: "Mas estamos a falar de um dos sectores mais competitivos do Mundo", sublinhou Vítor Fraga, dizendo que os Açores são um "destino valioso, mas recente", que está em "competição direta" com outros, "promovidos durante décadas" e já com públicos fidelizados.

Para Vítor Fraga é necessário reverter as "aparentes desvantagens" dos Açores em oportunidades, sem nunca pôr em causa valores fundamentais como a "sustentabilidade ambiental". Assim, defendeu que os Açores têm de ser vendidos como um destino "de excelência", um dos "segredos da Europa ainda por descobrir", com uma "natureza deslumbrante todo o ano" e "características únicas a nível natural e ambiental", e rentabilizar a "invejável" localização entre a Europa e a América, captando turistas dos dois continentes.

"Se conseguirmos aproveitar todas estas oportunidades em pleno, podemos numa década fazer dos Açores o principal destino de natureza do país e assegurar para a nossa Região o estatuto de referência em termos internacionais no turismo náutico", afirmou o governante regional.

Reconhecendo que a questão dos transportes é fundamental, Vítor Fraga disse, no entanto, que há que ter a consciência de que os desafios do setor não se esgotam na liberalização das ligações aéreas a duas ilhas do arquipélago, a partir de 2015. Assim, disse ser fundamental a aposta na qualidade e na inovação, sublinhando que "receber bem é sinónimo de criação de postos de trabalho".


Notícia: «Açoriano Oriental» e jornal «i».
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domingo, 26 de Outubro de 2014

Proteção Civil em todas as freguesias?

O presidente do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores lançou um apelo às Juntas de freguesia para que criem equipas de intervenção local para atuar em caso de acidente ou catástrofe.

José Dias, que falava no II Encontro Regional de Freguesias dos Açores, entende que os autarcas locais podem dar um contributo importante em matéria de prevenção e apoio às Comissões municipais de Proteção Civil: "Eu gostava de lançar o desafio à constituição das equipas de intervenção local, que são, nem mais nem menos, do que a população residente, com a incumbência de conhecer riscos e vulnerabilidades locais, criando uma cultura de participação na segurança", insistiu José Dias, que admite que este é "um sonho" que persegue há algum tempo.

Em resposta ao desafio lançado pelo presidente da Proteção Civil açoriana, o coordenador regional da ANaFre, António Teles disse que associação está disponível para assumir mais essa competência, sobretudo quando está em causa um "bem essencial" como a vida humana: "Quem sabe, podemos salvar alguma vida e esse é um bem essencial", destacou o responsável nos Açores pela Associação Nacional de Freguesias, acrescentando estar "disponível para fazer esse trabalho".

Mas Jorge Neves, da direção nacional da ANaFre, diz que é necessário clarificar primeiro as competências das Juntas de Freguesia nesta matéria, recordando que a Lei de Bases da Proteção Civil diz que as autarquias devem "colaborar" em matéria de segurança, mas não especifica o papel dos presidentes de Junta: "Este é um conceito que não está devidamente especificado no que diz respeito às competências e aos meios e também quanto à interligação com a restante hierarquia da Proteção Civil", advertiu Jorge Neves.

De salientar que actualmente apenas cinco municípios dos Açores têm planos de emergência atualizados, sendo que as autarquias açorianas admitem rever até ao final do presente ano esses seus desactualizados planos de emergência.


Notícia: jornal «Açoriano Oriental».
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sábado, 25 de Outubro de 2014

Madeira e Açores com elevado índice de mortes devido a problemas respiratórios

Madeira e Açores registaram (entre 2008 e 2010) o maior índice de mortes devido a problemas respiratórios da União Europeia, segundo o anuário regional do EuroStat.

A Região Autónoma da Madeira surge na liderança com 294,6 mortes por cada 100 mil habitantes, sendo que logo depois surge na lista os Açores com 195,8 mortes por 100 mil habitantes, registando-se em ambas as regiões elevados níveis de pneumonia e bronquite crónica e aguda, segundo o anuário regional do EuroStat.

O documento mostra ainda que Portugal Continental também apresenta elevados índices de mortes por problemas respiratórios, com valores iguais ou superiores a 115 mortes, com exceção das regiões de Lisboa e Setúbal, enquanto a média na União Europeia é de 85,3 mortes.

O anuário do EuroStat refere ainda que as mortes por problemas respiratórios são quase o dobro nos homens em relação às mulheres, sendo este dado mais expressivo nos casos da Madeira e dos Açores.

Por outro lado é de referir também que um estudo da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos concluiu que os distritos de Aveiro, Leiria e Santarém e os Açores não têm cuidados paliativos e que metade dos doentes referenciados morre sem acesso a este tipo de assistência.


Notícia: jornal «Açoriano Oriental» e «Correio da Manhã».
Saudações florentinas!!

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Domingo passamos à “hora de Inverno”

Portugal, à semelhança de toda a União Europeia, atrasa os relógios no próximo domingo e entra por cinco meses na "hora de Inverno".

Na madrugada de domingo, os relógios atrasam 60 minutos à 1h00 nos Açores. Portugal passa a estar alinhado com o tempo universal (tempo médio de Greenwich, TMG), conforme informação do Observatório Astronómico de Lisboa.

Estar alinhado com o tempo universal significa que está no fuso horário zero (igual ao do meridiano de Greenwich, que se convencionou usar como marcador para o tempo). A mudança da hora acontece em todos os países da União Europeia.

Na Europa, a norma começou na altura da I Guerra Mundial e teve como objetivo poupar combustível numa altura em que este era racionado. Atualmente já não há um impacto económico, mas apenas social, já que os horários de trabalho coincidem mais com a luz solar. Ainda assim, a União Europeia reavalia a manutenção dos horários de Verão e de Inverno de cinco em cinco anos.

É certo que os dias vão escurecer mais cedo, mas também é certo que é bom ter mais uma hora na noite de sábado para domingo do último fim-de-semana de Outubro, independentemente da forma de a usar.


Notícia: «Diário de Notícias», jornal «Público» e RTP.Notícias.
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quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

António Maria Gonçalves expõe em PDL

Até 12 de Dezembro poderá ser admirada a obra de António Maria Gonçalves e o seu talento, cuja faceta artística surpreende quem aprecia pela primeira vez as suas obras.

Teve lugar na passada sexta-feira (dia 17), na sede do PSD de Ponta Delgada (São Miguel), a inauguração da exposição de pintura de António Maria Gonçalves, florentino e ex-deputado regional. A mostra de 27 quadros poderá ser visitada todos os dias úteis na sede regional do PSD/Açores em São Miguel.

De acordo com o pintor micaelense Martim Cymbron, António Gonçalves evidencia uma curiosidade em trabalhar em vários géneros pictóricos e demonstra ser um explorador nato na utilização de vários materiais, usando-os para compor uma obra. A sua criatividade vem ao de cima através das composições que faz e tem um traço bastante livre abstraindo-se desta forma das antigas regras académicas, mergulhando no mundo do abstraccionismo e figurativo.

Por outro lado, José Andrade, comissário da exposição, diz que esta é a primeira exposição de António Maria Gonçalves, que nasceu e vive nas Lajes das Flores, dedicando a sua vida ao bem comum – em todos os patamares do poder local (Junta e Assembleia de freguesia da Fazenda, Câmara e Assembleia municipal das Lajes) ou no órgão máximo do poder regional. Associou o bem comum à sua vida: na música (como compositor e pianista, maestro e cantor), no teatro (como encenador e actor), na literatura (como escritor e poeta) e na pintura.

O homem público pintava em privado. Apaixonado, autodidacta, reservado, experimentalista, revoltado. Pintar era a sua terapia intimista. Mas expor seria arriscar. Até que um dia Duarte Freitas conseguiu convencê-lo a extrair as cataplasmas do casulo. E tanto desafiou o pintor António Maria Gonçalves a expor a sua primeira exposição, que é, no mínimo, surpreendente. O homem multifacetado na vida também o é na pintura, com diferentes temáticas, estilos e técnicas.

Afinal, no extremo ocidental dos Açores, de Portugal e da Europa há um pintor que merece atenção e incentivo.


Notícia: jornal «Correio dos Açores».
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quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Propõe o PCP que pequenos agricultores açorianos sejam isentados de IVA e tenham descontos na Segurança Social

O deputado regional do PCP apresentou uma anteproposta de lei que propõe a isenção de IVA e a redução dos descontos obrigatórios para a Segurança Social dos pequenos agricultores.

“Esta proposta do PCP assinala a importância da agricultura familiar para a segurança alimentar, através da diminuição da dependência externa, para o desenvolvimento económico socialmente útil, para a sustentabilidade e diversificação das atividades agrícolas e para a diminuição do desemprego”, afirmou Aníbal Pires.

A agricultura familiar, a pequena atividade agrícola que emprega sobretudo a mão-de-obra dos vários membros de uma mesma família, tem um papel insubstituível no incremento das produções agroalimentares tradicionais, no abastecimento em alimentos frescos aos mercados locais, no aumento da diversificação agrícola, defesa da biodiversidade, redução da utilização de produtos fitofarmacêuticos e proteção do ambiente.

O deputado regional comunista afirmou que a iniciativa propõe uma redução das contribuições para a Segurança Social com algum significado, considerando que a medida terá um impacto “muito importante na melhoria dos rendimentos dos trabalhadores deste setor e para quem tem como principal atividade a agricultura familiar”, além de efeitos na própria economia regional: “As contribuições que estão determinadas são valores superiores a 30% e aquilo que estamos a propor, embora de uma forma gradativa e em função do rendimento, é uma alteração com três escalões em que essa contribuição para a Segurança Social varia entre 5% e 18,75%”, explicou Aníbal Pires, sublinhando que a agricultura familiar “é estratégica para os Açores”.

O deputado do PCP/Açores alertou que os rendimentos dos pequenos produtores agrícolas têm vindo a ser seriamente afetados devido ao “aumento do custo dos fatores de produção, como os combustíveis, energia, água, acrescidos do insustentável aumento da carga fiscal e de contribuições obrigatórias e de excessiva burocracia”. Uma situação que, segundo Aníbal Pires, “é tanto mais grave quanto os Açores são a região do país onde existe uma maior percentagem de agregados familiares que declaram obter rendimentos exclusivamente da sua própria exploração agrícola”.

Assim, o PCP pretende, como medida de apoio à agricultura familiar nos Açores, reduzir os descontos obrigatórios para a Segurança Social e isentar estes pequenos produtores agrícolas de IVA, permitindo melhorar o seu rendimento e tornando a sua produção mais rentável, como estímulo à dinamização e modernização deste tipo de atividade.

Aníbal Pires destacou o caratér abrangente da medida comunista por vir a ser importante tanto para os Açores como para o país: “Se isto é importante para os Açores, é igualmente importante para todo o país. É evidente que estamos a fazer isto atendendo às especificidades da Região”, sublinhou o deputado do PCP, para quem os efeitos da proposta “em termos da dinâmica económica compensará certamente a diminuição de receita na Segurança Social e em termos das contribuições fiscais”.


Notícia: jornal «Açoriano Oriental» e rádio Atlântida.
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terça-feira, 21 de Outubro de 2014

«Brumas e Escarpas» #80

O náufrago

O Semedo chegou à porta de casa e levantou a taramela num sufoco. Na cozinha, a mulher e a filha seroavam entre cardas, fusos e resmas de lã, admiradas pelo tardio da chegada. A Deolinda foi a primeira a insinuar com suave ironia: - Só agora?! A estas horas, meu pai há muito que havia de estar na cama.
E como o Semedo embatucasse por completo, a mulher sem levantar olho das cardas: - Boa coisa não andaste a urdir! – E, levantando o rosto, sem esmorecer a cardação, prosseguiu – Credo, home! Que cara é essa?! Parece que viste o Eiramá!

O Semedo, a crescer numa tremulação que acicatava cada vez mais o pasmo das duas mulheres, lá foi desembuchando: Fora ali, para os lados do Rolinho das Ovelhas... Ele, o Bosseca, o Zé de Mateus e o Caboz, na mira dos caranguejos, do Canto do Areal ao Rolinho. Eis senão quando avistaram uma embarcação a aproximar-se de terra, junto ao Rolinho. Eles a correr que até parecia que deitavam os bofes pela boca fora... mas qual o quê? Quando lá chegaram, a maldita tinha zarpado. Apenas uma pequena chata, abandonada, a balancear no vaivém da maré. Ao voltarem, deparam-se com gemidos angustiantes. Um vulto de homem, sabia-se lá de onde, que nem americano falava, enfiado na aba de uma pedra, a chorar e a gemer... Pelos vistos tinha sido ali abandonado. Trouxeram-no e, ao chegar ali, bonito serviço! Os outros a pisgarem-se, cada um para seu lado e ele a ficar só, com o homem... fora da porta. Haviam de lhe dar guarida, lá em casa.

A mulher e a filha nem queriam acreditar! Meter em casa um homem, sabia-se lá de onde e de que religião. Àquelas horas da noite... Nem pensar!

Mas no dia seguinte toda a freguesia louvava o Semedo. Fosse da Cochinchina, fosse do Japão, fosse de onde fosse, aquilo era um ser humano. Um gesto muito bonito, o do Semedo.

Mas os rumores não tardaram. Aquele homem devia ser um ateu, um criminoso, um facínora, semelhante ao que há muitos anos também ali desembarcara e, de tão mau que fora, após a morte, por castigo, fora atirado para o Poço do Bacalhau. Que o tivesse deixado, o Semedo, onde o encontrou. Havia de morrer à fome, que é o destino dos criminosos e dos sacripantas! E depois... com uma filha solteira lá em casa... Hum! Não havia de sair coisa boa dali.

Porém, em casa do Semedo todos se afeiçoaram depressa ao suposto náufrago. O homem era delicado, correto, submisso e de trato afável. Apenas um senão: ninguém o entendia e ele não percebia patavina do que lhe diziam e tinha a estranha mania de, todos os dias, tracejar um risco no muro da cerca do porco. Sabia-se apenas que se chamava Dimitri e que, muito provavelmente, devia ser russo e não acreditava em Deus.

Os dias passaram e o Semedo via em Dimitri o filho que nunca tivera e Deolinda apaixonara-se, como nunca. Pior. Dimitri, agora já a balbuciar as primeiras palavras em linguagem que se entendesse, também se declarava em juras de amor, enquanto pela freguesia cada vez mais se comentava, à socapa, que ali havia marosca.

O Semedo, apavorado, foi bater à porta do vigário. Havia que casá-los, quanto antes. Mas para o prebendado, o casamento não servia para encobrir poucas vergonhas e aquele homem era um ateu, vindo de um país onde a religião católica era odiada. Além disso, não tinha papéis que demonstrassem o seu baptismo. Que tirasse o cavalinho da chuva o amigo Semedo que casamento é que não havia de haver.

E não houve, o que não foi obstáculo a que Dimitri e Deolinda se envolvessem, às escondidas dos progenitores, em desvelos e fascinações.

E quando Deolinda não mais pode ocultar a gravidez, o falatório transformou-se em aleivosias insultuosas. A mãe definhou de vergonha e o pai pô-los porta fora, injuriando-os, ameaçando-os, deserdando-os. Poucos dias demorou a ira do Semedo e a debilidade da sua consorte. Foram os primeiros a acudir aos vagidos de um pequerrucho que, numa tarde de Setembro, lhes quebrava o veneno do desgosto e lhes despertava o bálsamo da ternura.

E o pequeno Gervásio crescia entre o enlevo dos pais e a ternura dos avós. O vigário não lhe pode negar o baptismo. A alegria, o encanto e a felicidade reinavam em casa do Semedo e na freguesia já ninguém se lembrava que o pai do pequeno Gervásio era, afinal, um náufrago abandonado na ilha, talvez um criminoso, com quem a Deolinda do Semedo vivia amancebada.

Numa noite, porém, o inesperado aconteceu. Dimitri saiu de casa e nunca mais regressou. De manhã, o Cardoso afirmava a pés juntos que um bergantim se havia aproximado da enseada do Rolinho das Ovelhas e nele tinha visto embarcar um homem. A partir do dia seguinte, todas as tardes depois do pôr-do-sol a Deolinda do Semedo, lavada em lágrimas, sentava-se sobre um rochedo, à beira mar, com o filho ao colo, apontando-lhe um horizonte indefinido.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Noite dos Sons e Sabores internacionais

O Lions Clube Pérola do Ocidente organiza a Noite de Sons e Sabores Internacionais no próximo sábado (dia 25), pelas 19h30, na Casa do Povo das Lajes.

Este jantar de cariz solidário tem como objetivo a angariação de fundos para a aquisição de camas para o Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia das Lajes. Apresentando uma ementa variada este evento terá a participação dos estrangeiros residentes na ilha das Flores, trazendo os sabores dos seus países.


Notícia: "sítio" da Câmara Municipal de Lajes das Flores.
Saudações florentinas!!

domingo, 19 de Outubro de 2014

Assim foi a Festa do Cais das Poças

A abertura da Festa do Cais das Poças 2014 foi dedicada à etnografia, num desfile com cenas do nosso imaginário colectivo que em muitos dos casos não se distanciavam da realidade em nada, até porque tudo foi pensado ao pormenor, desde a indumentária, o local, os artefactos utilizados, as personagens, os animais... Todo o trabalho envolveu muitas pessoas, personagens envolvidas directamente no desfile foram umas centenas e imaginem quantas mais estiveram na retaguarda para tornar tudo possível.

As noites do Cais das Poças 2014 foram dedicadas à música com os Full K’ Ords, Chave d’Ouro, animação de rua (de altíssima qualidade) ao cuidado dos Sax N’Fun e os FuNgis MagiC tRuXiS. Entre a panóplia de actividades e concertos ainda podemos encontrar o concurso de pesca desportiva, jogos tradicionais, os “Ar de Rock”, a Orquestra Ligeira da Povoação, aula de fitness com o ginásio Viva Mais Fitness, folclore, passeios de barco, alguns grupos musicais da ilha e muito mais.

Os dias desta festa de início de Agosto ficaram pautados pela grande afluência da população que, com a ajuda do tempo, marcou presença de forma ordeira para desfrutar da variedade de artistas e degustar os diferentes paladares nos restaurantes e tascas criadas para o efeito, bem como rever amigos, familiares, conhecidos ou mesmo fomentar novas amizades.

A organização está de parabéns, bem como A Jangada - Grupo de Teatro como o seu vasto leque de actores e com a estrondosa capacidade de encenação e direcção de actores a cargo de Joaquim Salvador, que fez questão de pessoalmente orientar e delinear o cortejo de abertura da Festa do Cais das Poças 2014, não ficando, na minha opinião, nada ao acaso.

Obrigado a todos os que tornaram possíveis estas imagens e à Luísa Silveira pela captação das imagens e imprescindível ajuda na produção.


Vídeo: YouTube de José Agostinho Serpa.
Saudações florentinas!!