Mostrar mensagens com a etiqueta RAG. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta RAG. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

«Preto no Branco» #45

I - Que maravilha!
Dois dos sete prémios foram para os Açores, Região que ganhou o concurso em termos parciais e absolutos. É um marco importante para a afirmação do Arquipélago no Mundo, enquanto maior santuário natural do País e da Europa, e uma das relíquias da Biosfera. O Governo Regional empenhou-se muito neste concurso e o investimento foi uma aposta ganha. Desde 2003 que o autor destas linhas anda a defender que as 9 ilhas, ilhéus adjacentes, bem como o mar e os fundos marinhos, que lhes pertencem, deveriam ser classificadas, em conjunto, como Património Natural da Humanidade. É uma solução a la longue, a qual requer uma visão arrojada e desprendida de complexos de pequenez. A mesma pequenez que julga que grandeza é fazer nascer hotéis como cogumelos, e depois é vê-los “às moscas”, improvisando-se então pacotes turísticos de 3ª categoria, através dos quais quase se implora a hordas de turistas que venham encher essas infra-estruturas, enchendo-nos os olhos. A mesma pequenez que, descendo um degrau, não foi capaz de colocar as Flores entre as 7 Maravilhas de Portugal... caso será para dizer - “o que nos abunda em beleza falta-nos em sabedoria”.

II - Vai uma imperial?
Desconhecemos se a medida foi tomada em todas as festas de Verão que se realizaram nas Flores. Mas merece nota e registo o facto de, pelo menos na Festa de São João, ter sido estipulado pela autarquia que não poderiam ser vendidas nas tascas cerveja em garrafas de vidro, “impondo-se”, com toda a razão, a utilização dos barris de pressão. Curioso foi notar que toda a gente percebeu o alcance da medida e mostrou concordância com o sistema adoptado. É um bom exemplo, que deve ser seguido e alargado a outro tipo de bens de consumo. Todavia, em matéria de resíduos quase tudo está por fazer nesta Reserva da Biosfera. Nesta terra, continua a não haver um único ecoponto; separação de lixo, nem ouvir falar dela; há um único cartaz alusivo ao estatuto alcançado junto da UNESCO na esconsa sala de recolha de bagagens da Aerogare; exportação de papel, vidro e plásticos, isso continua a ser uma miragem; para a lavagem dos contentores, que tresandam, parece que falta água e sabão... enfim, é uma lista que nunca mais acaba... os principais responsáveis locais, caso precisem de aprender como se faz, não precisam de grandes deslocações ou conferências... basta ir ao Corvo e ver as medidas que ali estão a ser tomadas, isto, para não falarmos do incremento à utilização das energias renováveis, pois, se é certo que temos vento, também não é mentira que a ocidente também faz Sol.

III - O pão nosso de cada dia...
Não faltam entidades fiscalizadoras disto e daquilo. Para não falar da famosa ASAE, ele é Instituto para cá, Autoridade para lá, Inspecção disto, Serviço daquilo. A todos esses “corpos expedicionários” que também demandam a ilha das Flores de vez em quando, soma-se, muitas vezes, vamos dizer assim, “um agudo sentido de vigilância” da parte dos florentinos, os quais, na maioria dos casos, costumam saber de cor os números verdes ou azuis de todas esses organismos, e chega a ser impressionante o “sentido de cidadania” com que, por exemplo, o Sr. A liga para a Polícia a dizer que o canto do galo do Sr. B incomoda; que o Sr. C denuncia o Sr. D por que este apanhou uma espécie de pescado dois milímetros fora do tamanho permitido; que o Sr. E faz queixa do Sr. F por causa do bovino que comeu duas maçarocas no terreno alheio, e por aí fora... digamos que a ilha é um Big Brother notável em tudo quanto é miudeza. Ora, atentas as proporções, no que seria de esperar relativamente à escala da gravidade, é de espantar que não tenha havido ainda uma manifestação à porta da padaria! ... O pão da ilha das Flores anda literalmente intragável. Umas vezes é vendido cru, outras esturricado; uns dias não tem sal, outros é pilha; tanto apresenta no miolo bolas de farinha, como cavidades semelhantes à da Gruta dos Enxaréus. Por mim, acho que não há necessidade de reclamar para aqui ou para ali. Corria-se o risco da padaria ser fechada e era pior a emenda que o soneto. Bastará dizer, alto e bom som, que o que se passa é uma autêntica vergonha, e que basta de fazer porcaria!

Preto no Branco,
Ricardo Alves Gomes

segunda-feira, 12 de julho de 2010

«Preto no Branco» #44

Ai de ti

Aplica-se sempre. É inerente à condição humana: as “boas” ideias, seguidas das respectivas iniciativas ou propostas - quando conseguem fazer caminho, vencer obstáculos, mobilizar apoios, e ganhar força bastante que as leve ao sucesso – geralmente não têm dono.
Quando tal não acontece, então, costuma ser entendido que a ideia é “má”, e caso se procurem autorias, nas mais das vezes, o plural é trocado pelo singular, apontando-se um responsável.

Vem isto a propósito da petição lançada online, em Janeiro passado, poucos dias após a tragédia que se abateu sobre o Haiti, a 12 desse mês, que, segundo as últimas informações disponíveis, causou mais de 220 mil vítimas, mais ou menos o equivalente a toda a população dos Açores, para se ter uma noção da mortandade. Para não falar no número de desalojados, que ultrapassa o meio milhão, ou dos apoios prometidos, que teimam em não chegar àquele povo mártir.

Donde, hoje, que se completam seis meses sobre o sismo, e considerando que a iniciativa “Ajuda de Portugal ao Haiti: acolher desalojados na nossa terra” falhou em toda a linha, entendo dever deixar aqui algumas notas, não para justificar o fracasso, mas para aclarar o contexto em que a Petição foi lançada, para que não fique a sensação que foi algo pensado e feito de ânimo leve, apenas com o mais primário dos voluntarismos:

  1. A ideia nasceu nas Flores. Porém, dado que nos Açores ou noutra parte do País não surgia proposta similar, era importante que ganhasse “lastro”, pelo menos em várias ilhas, de modo a poder ser assumida como Regional;

  2. Uma iniciativa da “sociedade civil”, teria que o ser, de facto, autêntica e genuinamente. Não faz sentido que determinada instituição ou entidade chame a si uma proposta, desconhecendo qual a receptividade no terreno e a nível operacional das pessoas e/ou colectividades. Não obstante, houve a cautela prévia de abordar discretamente a Diocese de Angra e o Governo Regional dos Açores, para eventuais diligências, que seriam necessárias, caso a sociedade civil demonstrasse, de facto, vontade em receber desalojados do Haiti nas nossas ilhas. Sem o concurso dos canais institucionais respectivos, impossível seria accionar os empenhos congregados.
    Ora, quer num quer noutro caso, a reacção foi positiva, ou seja, quer a Diocese quer o Governo Regional, ao mais alto nível, manifestaram ver a iniciativa com bons olhos, coisa que, por si só, garantiria “a ponte” com o Patriarcado e Governo da República;

  3. Por outro lado, sabendo-se, de antemão que o papel de Portugal na ajuda ao Haiti não seria feito fora do quadro da União Europeia, iguais abordagens foram feitas ao Governo e à Presidência da República e os feedbacks foram igualmente positivos. Sabíamos que só com o empenho da Casa Civil do Senhor Presidente da República, bem como do Governo da República, designadamente ao nível dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros, e da Solidariedade Social, haveria hipótese de inserir a iniciativa nas agendas, a qual, apresentada como regional, poderia ser tomada como nacional, no concerto dos países dispostos a ajudar. É claro que toda essa embrionária articulação não poderia ser alegada aos eventuais subscritores na altura, dada a delicadeza que (caso tivesse chegado a sê-lo) um assunto de Estado envolve. Se há regra que é “sagrada” é manter reserva, enquanto determinado processo não está suficientemente “maduro”, sendo que, ainda assim, quem afere das condições para assumir publicamente esta ou aquela posição não são os proponentes mas sim os destinatários – convém lembrar;

  4. Ora, para quem se der ao trabalho, perceberá melhor agora o cuidado que foi posto na “Exposição de Motivos”, propositadamente abrangente, de modo a que, para além dos cidadãos, individualmente considerados, as entidades destinatárias, numa segunda fase, pudessem adoptar o documento e desenvolve-lo posteriormente, através de instrumentos complementares;

  5. Simultaneamente, sobretudo a nível local - leia-se Regional - foram enviadas dezenas, talvez centenas, de mensagens por email, a começar por Juntas de Freguesia, passando por Municípios, e acabando na ALRA, sem esquecer os órgãos de comunicação social, e ainda diversas associações, como, por exemplo, Bombeiros, Escuteiros, Misericórdias, Casas do Povo, entre outras - no sentido de se apurar, em cada ilha, exactamente, quais os recursos humanos e logísticos que estariam disponíveis;

  6. O facto de se entender oportuno vir agora dar estas notas, prende-se, tão só, com uma conclusão – se a iniciativa “Ajuda de Portugal ao Haiti: acolher desalojados na nossa terra” falhou, não por falta da abertura revelada pelos mais altos responsáveis, que seriam interlocutores da Região com o País e deste com a Comunidade Internacional.
    A questão teve que ver, essencialmente, com a falta de apoio à iniciativa, por parte dos cidadãos e das “forças vivas” locais, designadamente das ilhas dos Grupos Central e Ocidental, que foram pensadas como as mais acolhedoras para os deslocados, ainda que em número diminuto, estimado entre 5 a 25 por ilha, mas que, no cômputo final, seria significativo, em função da nossa dimensão, e extremamente positivo, do ponto de vista do alcance desse gesto tão fraterno e tão simbólico, condizente com os valores civilizacionais e comunitários, que geralmente invocamos com propriedade inteira;

  7. Porquanto, o autor destas linhas tem que agradecer, reconhecido:

    - às pessoas com quem primeiro trocou impressões sobre o assunto e que, de forma generosa e anónima, ofereceram os seus contributos e manifestaram ficar à disposição para aquilo que fosse necessário fazer, fosse o que fosse;

    - a todos e a cada um dos que acederam integrar os signatários proponentes (por ordem alfabética: Carlos Morais, Frederico Maciel, Jorge Rodrigues, Manuel Rita, Tomás Rocha e Tomaz Ponce Dentinho), tendo aceite de imediato corroborar, assumir e até delegar a condução da iniciativa, ao contrário do que é habitual, a alguém mais “periférico”;

    - a quem, de boa vontade, subscreveu a Petição, bem como aos que, por qualquer motivo, embora não a tenham subscrito, manifestaram por outro meio o seu incentivo;

    - à Ouvidoria das Flores, na pessoa do Rev. Padre David Barcelos, pelo interesse e entusiasmo que, desde a primeira hora, revelou, tendo sido consequente nas palavras e nos actos;

    - aos amigos e conterrâneos - Nelson Fraga, que não se poupou a esforços e despendeu horas a formatar informaticamente os conteúdos enviados para colocar a Petição online, para além de ter prontamente acedido a que o blogue “Fórum ilha das Flores”, de que é administrador, alojasse a iniciativa. Ao César João Sousa, dono do blogue “Liberdade Democrática na ilha das Flores”, que também “na hora” fez questão de veicular online a proposta, tendo ainda dedicado um “post” para o efeito.
Dito isto, resta-me chamar a mim o fracasso da iniciativa, e assumir, perante todos, a responsabilidade por uma ideia que “não passou”, bem como acatar ainda eventuais críticas que possam ser imputadas.

Diz o dito popular, “Nunca peças a quem já pediu, nunca sirvas a quem já serviu”... espero que nos Açores, em especial nas ilhas mais pequenas, continue a viver-se na “abundância” actual, que o nível de vida possa subir, que as catástrofes naturais não assolem esta terra, e que nunca seja preciso pedir nada a ninguém.

Preto no Branco,
Ricardo Alves Gomes

terça-feira, 2 de março de 2010

«Preto no Branco» #43

Solidariedades da treta

Se nos Açores os efeitos sociais da crise (ainda) não se fazem sentir como no Continente e nas Flores (ainda) não tanto como noutras ilhas, o certo é que, à nossa escala, começam a intensificar-se diversos sinais de carências várias, nalguns casos muito preocupantes e reveladores de que a palavra «miséria» entrou de novo no nosso quotidiano, com um grau de gravidade que há muito não conhecíamos e estávamos habituados a considerar uma «história do passado».

É claro que hoje em dia a realidade social não tem nada a ver com a vivência de outrora, donde, para problemas novos exigem-se novas respostas, isto, sem embargo do indeclinável papel que cada membro da comunidade, individualmente, e cada família, por junto, têm o dever de continuar a exercer, não obstante a rede de mecanismos directa ou indirectamente apoiados pelo Estado, incomparáveis com o suporte que existia dantes.

Várias são as instituições de solidariedade social e muitos são aqueles que através delas dão o exemplo de como bem aplicar os recursos disponíveis, para além das suas acções no dia a dia serem pautadas por um sentido de «dever», «serviço», «missão», e até «sacrifício», que não têm preço e não estão escritos em lado nenhum, mas antes traduzem os bons princípios que devem presidir a conduta de quem oferece o seu labor à causa social/comunitária. Esses hão-de rever-se nestas linhas. Outros não... santa paciência! Há verdades que a verdade manda dizer: Assim, não pode ser!

Não há vila ou concelho que não tenha: uma Santa Casa da Misericórdia; uma Casa do Povo; uma Associação ou Movimento de benemerência disto ou daquilo; um Agrupamento de Escuteiros; um Centro da Cáritas; uma Obra da Paróquia; um Lar de Idosos; um Serviço de Acção Social Municipal; uma repartição dos Serviços de Segurança Social do Estado... e o "diabo a sete". Capelas e mais capelinhas e mais capelas!
Sabem por que é que essas entidades, muitas vezes, na verdade, são criadas e para que servem? Para sorver dinheiro ao Estado - a "fonte" acaba por ser sempre o orçamento público - para justificar uma sede, órgãos sociais, um departamento administrativo, (que alberga filhos e enteados), recursos e meios, ao serviço dos interesses dos capatazes, por sua vez "feitos" com a necessidade de albergar as sua "clientelas", que lhes justificam o sustento... Isto tem que ser dito, de nada vale assobiarmos para o lado ou sermos hipócritas.

No "País profundo", que não apenas nos maiores centros urbanos, onde se contam as ilhas, a questão social é já um caso muito bicudo também. Importaram-se os males dos meios maiores e perderam-se as virtudes dos pequenos.
A classe média, maioritária, está “entalada” pelos Bancos até à raiz dos cabelos. Nos Açores, vão valendo os subsídios à lavoura, os “favores” públicos e os rendimentos mínimos, para assegurar liquidez às famílias.
Os miúdos, não aprendem a ler, escrever e contar, não sabem dizer “Bom Dia”, e são alimentados a refrigerantes, batatas fritas e "bollycao". Os professores vão dar aulas "à rasca", com medo dos pais. Os idosos, sobrevivem aflitos, em cada vez maior solidão e passam necessidades. As toxicodependências, para lá do álcool, deixaram de ser um fenómeno urbano e germinam como junco. O planeamento familiar é de gargalhada. A higiene tresanda. O sentimento de impunidade perante o crime começa a ser regra geral. O individualismo tomou conta das comunidades, que estão a perder completamente a noção de consciência colectiva. Poucos são os que ainda se fiam da “palavra dada”, etc., etc., ... enfim, andamos todos a fazer de conta.

E a providência social, em cada uma das localidades? Onde está ela?
Caiu largas vezes, definitivamente, nas mãos de caciques da pior espécie, que pensam assim: "vamos criar/ocupar uma instituição porque depois isso dá direito a protocolos com a Autarquia e o Estado e é uma maneira de sacar dinheiro e benesses”.
Depois, o Estado, central ou regional, também ele demissionário, vem com a lógica do «descentralizar». E toca a distribuir e a «adubar». Na paga, de 4 em 4 anos, muitas dessas ditas IPSS´s (instituições públicas/particulares de solidariedade social) lá vão movendo as suas influências e arregimentando votos para o "cavalo certo”, em que apostam, consoante os arranjos privados mais convenientes.

Resumindo. A raiz do problema está em duas coisas; dinheiro e votos. A caridade cristã serve de “tapa poros”, abrilhantado com vernizes de apregoada “Solidariedade".

Essa mesma solidariedade que, com tantos meios afectos, nunca foi tão perversa, cínica e corrupta como agora, diga-se, Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

PS: Para quem se der ao trabalho aqui ficam algumas ligações, as quais ajudam a ter ideia das “capelas” existentes, e que todos os dias sorvem o escanzelado Estado:

sábado, 23 de janeiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

«Preto no Branco» #42

Ilhas, nós e os outros

Somos ilhas.
Acontece muito. Falamos de «nós» sem considerarmos os «outros». Também acontece o contrário. Falamos dos «outros» como se «nós» não existíssemos... do «tic-tac» desse pêndulo, entre o egocentrismo mais bacoco e a auto-estima mais miserabilista, resulta uma noção totalmente desfigurada das posições relativas.

Importa contextualizar e perceber aquilo que deveria ser óbvio, por nem sempre termos presente no nosso horizonte visual outra ilha, grupo ou arquipélago à nossa frente, para melhor sabermos relativizar.
Há mais do que os nossos olhos vêem. Devemos ser capazes de ver para lá do que os olhos alcançam, e perceber que isso também acontece aos «outros». Não há «nós» sem «eles», e só há «outros» por que há «nós».

Confuso? Não. Vejamos «outros», mais longe...
Se ajudar, ao menos, para tirarmos certas ilações sobre «outros», bem mais perto, seria um óptimo passo.

O que lhes pedimos?
Que parem um bocadinho para pensar e façam o mesmo exercício...
Aqui ficam alguns exemplos de ilhas atlânticas, acessíveis à distância de um clique no Google, desde Tristão da Cunha, no Sul, às Faroe, a Norte:

  • Ilha de Santa Helena
  • Estatuto político: território britânico ultramarino
  • Área: 420 km2
  • População: 6.653 habitantes
  • Ilha de Ascensão
  • Estatuto político: território britânico ultramarino
  • Área: 91 km2
  • População: 1.100 habitantes
  • Ilha La Gomera, Canárias
  • Estatuto político: Região Autónoma das Canárias, Espanha
  • Área: 370 km2
  • População: 19.580 habitantes

A pesquisa de vídeos e mais informações, sobre estas e outras ilhas, fica ao critério dos interessados. Garanto que irão encontrar aspectos muito curiosos... e a cores. Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

PS: vi o texto sobre o Acordo Ortográfico. Vou ter de discordar do senhor Denis Correia. Espero ter tempo para abordar aqui essa matéria fundamental, um destes dias. Em todo o caso, é louvável que o nosso conterrâneo tenha suscitado a discussão de tão importante assunto.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

«Preto no Branco» #41

A Senhora Professora

Maria Manuela de Medeiros Nóbriga Gomes
(24.12.1928 – 24.12.2009)

Uns mais que outros, os professores marcam. Sempre.
De todos, aqueles que mais marcam são, em princípio, os da instrução primária. Marcam os alunos e os pais, as escolas e as comunidades, as gerações e os tempos, as histórias e os percursos... marcam os destinos de uma criança.

A Senhora Professora, a D. Manuela, como lhe chamávamos, marcou. E marcou-me. Muito.

Chamado “à parte”, recebi a notícia [do seu falecimento] umas horas depois, em cima da Noite de Natal. Abri a palma da mão e contei os cinco dedos... quem mais me marcara até hoje?

Marcar não advém, directamente, de gostar ou amar. Não resulta, necessariamente, de simpatizar ou admirar. Não deriva, obrigatoriamente, de laços de sangue ou amizade.
Marcar, pode ser também isso tudo, conjunta ou separadamente. Mas é diferente disso.

Marcar galga os «afluentes do rio». Marcar é «moldar o barro». Marcar é configurar. Marcar é «o timbre e o selo» que, uma vez aposto, cada qual leva consigo.
Não é saber andar, falar, ler, contar, escrever, comer, brincar, estudar, trabalhar, pensar, cumprir, merecer, lutar, acreditar ou sonhar... é adquirir uma determinada forma de andar, falar, ler, contar, escrever, comer, brincar, estudar, trabalhar, pensar, cumprir, merecer, lutar, acreditar ou sonhar... e por aí adiante, vida fora.
Marca-nos quem nos emblema, quem cunha decisivamente uma certa forma de ser e de estar.

A D. Manuela, com elevado mérito, honrosa distinção e louvável brio, soube preservar, recriar, vincar e configurar o emblema da Escola Primária da Fazenda. Fê-lo ao longo de décadas. Atravessou gerações. Marcou as pessoas de um tempo e de um lugar, que tanto fez por elevar, e que com tanta tristeza ou alegria viu quedar ou sobressair.
Se abrirmos «a palma da mão da Fazenda» e contarmos, a D. Manuela merece estar, com inteira justiça, entre quem mais e melhor iluminou o espírito daquela Comunidade - situando-nos na segunda metade do século XX.

Seria, portanto, da mais elementar gratidão, que quem de direito tomasse a iniciativa de propor adequada evocação institucional à Senhora Professora, tomada ao menos no seu sentido literal, pois a palavra, na sua mais lídima acepção, tem força bastante para dizer sobre o estatuto da figura a que respeita.

A título pessoal, aqui fica este pensamento, testemunho de quem tenta alinhavar estas linhas a jusante, não sem acrescentar que assume com orgulho o emblema que a D. Manuela deixou à Escola e que aceita, prezado, o quinhão da marca que lhe cabe, por ter sido seu aluno.

Preto no Branco,
Ricardo Alves Gomes

PS: Não se pretende ensaiar aqui qualquer retrato biográfico ou elogio póstumo. Há-de haver quem saiba fazê-lo melhor e com maior propriedade. Isso não significa, porém, que alguém fique coarctado de comungar o fio desta nota singela, cuja exclusividade é de todos os que a queiram fazer sua.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

«Preto no Branco» #40

Francisco Sá Carneiro (1934 - 1980)
Evocar é pouco...

Contam-se hoje 29 anos sobre a morte de Francisco Sá Carneiro. Caso a vida não lhe tivesse sido ceifada, teria completado 75 anos, a 19 de Julho passado.

Sabemos que as personalidades carismáticas - sobretudo quando desaparecidas trágica e prematuramente, em pleno exercício das mais elevadas funções de Estado - costumam ascender a uma «galeria de mitos», que a História se encarrega de iluminar, ficando acesa a memória e vivo o legado de quem, partindo, deixa marca aos contemporâneos e vindouros.

Sucedem-se, portanto, miríades de evocações, individuais e colectivas, em especial nas datas mais simbólicas, ou quando “momentos altos” assim o determinam. Aqui, sabemo-lo também - bastando-nos aferir pela sua convicção e correspondente conduta – uns há com legitimidade inteira, outros com razões plenas, e ainda outros que merecem lhes seja reconhecido direito a essa honra. Dos «fariseus», restantes e abundantes, um sopro chega para desmascarar.

Não é esse, porém, o juízo que mais importa, ou sequer a destrinça entre idolatria insana e lúcida referência.

Sobre Francisco Sá Carneiro já “tudo” foi dito.

Tornar a evocá-lo, portanto, será pouco.

Melhor seria que quem o evoca pensasse no que o fundador do PPD teria para dizer, hoje... olhando para o partido, que criou... e para o país, que serviu e amou.

Preto no Branco.
Ricardo Alves Gomes

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

«Preto no Branco» #39

«Faces Ocultas; as de lá e as de cá»
A gente sabe mas ninguém entende


É o tema nacional da actualidade.
A cada passo, um episódio do Processo Face Oculta, novelo com mais pontas que meadas e que enriça Portugal de fio a pavio. Em cada canto está uma aranha e outras tantas teias - a somar à ingovernabilidade iminente e à mais profunda crise sócio-económica das últimas décadas, esta sucata, só(!) a ponta do icebergue, no dizer de vários, vem confirmar o que há muito antevíamos - caminhamos para a ruptura.

Nos Açores, e nas Flores, em particular, enquanto «por lá» o Face Oculta vai enchendo jornais, telejornais e despoletando múltiplos debates, «por cá» vive-se como se a coisa nos fosse alheia, caindo-se, amiúde, na tentação fácil de adjectivar o que se passa «em Lisboa», como se a Capital fosse uma cova de ladrões e a mais recôndita das ilhas [fosse] um atol alheio aos esquemas da perversão do Sistema. Como se a clamada urgência popular na limpeza que se impõe «por lá», fosse uma necessidade estranha à realidade «de cá». Não é. O que acontece é que é muito mais fácil abrir a boca sobre os escândalos que ninguém toma por seus, ou dos seus vizinhos, no lugar de levantar o dedo sobre o que vê, todos os dias, mesmo debaixo do nariz.

Não há, pois, destrinça possível ente o «lá» e o «cá». As únicas diferenças, a existirem, estão na escala; se «lá» é um Rolex, «cá» há-de ser um Sharp; se «lá» é uma nomeação para chorudo lugar em empresa do sector público estatal, «cá» há-de ser para o sector público regional ou municipal; se «lá» são mil patacos, «cá» hão-de ser dez... e por aí fora. O que faz o «lá» é o somatório de todos os «cá», seja nas Flores ou em Freixo de Espada à Cinta, na Horta ou na Nazaré, em Angra ou em Vila Real de Santo António, em Ponta Delgada ou na Figueira da Foz... e por aí fora, até Lisboa.

Dito isto, importava esclarecer, entre várias outras, certas «coisas de cá», tais como:

  • Por que é que um Município das Flores com pouco mais de mil habitantes emprega, directa e precariamente, cerca de 150 trabalhadores? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que, regra geral, os funcionários públicos dos serviços regionais tendem a integrar ou acabam por apoiar listas partidárias afectas à cor do partido do Governo Regional, ao passo que [os funcionários] das autarquias locais optam pela cor do partido instalado na Edilidade? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que por cada Secretaria Regional existe uma Delegação local que, na maioria dos casos, não serve para nada? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que com tantos instrumentos de urbanismo e ordenamento do território, a ilha [das Flores] apresenta casos de construção nova, muitas vezes promovida por entidades públicas, que são uma vergonha? A gente sabe, mas ninguém percebe;
  • Por que é que o Serviço Regional de Saúde, nas Flores, é uma autêntica agência de viagens? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que há tanta escassez de mão-de-obra na ilha e a Segurança Social local está a rebentar pelas costuras? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que nunca tendo havido tantas instituições de solidariedade social, programas públicos de previdência e recursos afectos, aumentam os casos de carência gritante? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que existem múltiplas forças de segurança na ilha, cada uma com a sua esquadra ou posto, meios e efectivos? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que há habitantes na ilha que já temem pela sua segurança e haveres? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que a Fábrica dos Lacticínios não é auto-suficiente? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que aos variados subsídios de apoio à lavoura e às pescas, não correspondem efectivas melhorias na qualidade dos sectores? A gente sabe, mas ninguém entende;
  • Por que é que não nos fiamos nas declarações ao Fisco daqueles que não são trabalhadores por conta de outrem? A gente sabe, mas ninguém entende...
Enfim... a lista dos porquês já vai longa... e nem chegamos aos negócios da sucata... melhor seria que a nossa comunidade fosse capaz de ver as traves nos «olhos de cá». É demasiado fácil ver os grãos de areia nos olhos dos «de lá».

Preto no Branco,
Ricardo Alves Gomes

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

«Preto no Branco» #38

Autárquicas 2009: Lajes – «Sempre unidos e sempre em frente, juntos conseguem»

... Cocktail
Em coerência, no essencial, o que dissemos a propósito da inauguração da Casa Mortuária de Santa Cruz, aplica-se às Lajes. Retiram-se ilações idênticas, ainda agravadas por ter sido a Sul que se inventou inaudita «moda» e fez desta um triste «cagaçal». Em matéria de «modistas», as Lajes está mais bem servida, diga-se de passagem...

É tudo gente séria
Seria «normal» que, para o candidato do Regime, o sufrágio do próximo domingo fosse uma festa, para cumprir calendário, sem quaisquer dificuldades. A Oposição foi «pêra doce»; o Governo [Regional] investiu bastante; houve dinheiro com fartura; a gestão e legalidade da Administração Municipal estão documentadas com rigor, clareza e transparência; a «máquina de propaganda» trabalhou sem descanso; os «homens do Presidente», sempre unidos, executaram as «ordens superiores»; os avençados/mercenários zelaram pelo «bem da nação», sempre em frente...

O Povo foi posto definitivamente «na ordem» e está ciente que «Roma não paga a traidores». Prevalece a «lei da rolha». Pode ser «perigoso» participar em «ajuntamentos suspeitos». O «melhor» é estar de «bico calado». Aos do «reviralho», resta sussurrar com cautela ou, não tarda, são «chamados», podendo ver inviabilizadas as benesses, normalmente concedidas àqueles que servilmente se ajoelham à «situação».

Perante isto, «normal» será que, no sábado, dia 10, «a carne já esteja benzida, os caldeiros fumeguem, a massa sovada, as pipas regadas, a tenda montada... e os atiradores com braçados de foguetes, prontos a estourar».

Subsistem, todavia, «só» uns «pequenos detalhes», a aferir pelos debates da RTP/A e RDP/A, que toda a gente pode ver e ouvir. Há alguns aspectos que ainda merecem ser mais bem afinados. É «coisa pouca», mas talvez ajude «às sopas».

O candidato do Regime, que se propõe a mais 4 anos de Poder, em cima dos 12 que já leva na conta, pelo menos à luz do dia e perante a comunicação social, tem optado por centrar a «mensagem» nas suas auto-intituladas qualidades de liderança, pessoais e políticas. Ele lá saberá...

Vejamos:

Chamou o pai e o avô (que Deus tenha) para a campanha, como «testemunhas de abono».

Não haverá ninguém, vivo, no concelho das Lajes que lhe possa abonar?

Diz que já deu provas, na sua vida particular, de ser um homem que sabe fazer.

Se deu provas, elas estão dadas. E se estão! Escusado é dizê-lo, como se isso fosse uma grande novidade. Toda a gente vê...

Diz que faz tudo por amor ao seu concelho e ao seu Povo e que não está à frente da Edilidade para se servir, ou para servir a sua família ou os seus amigos.

Pois... Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e outros dizem o mesmo.

Diz que a sua grande preocupação foi dar empregos. Que de pouco mais de 20 funcionários fez com que o Regime empregasse cerca de 150. Que mesmo sabendo que alguns produzem pouco, é melhor ajudá-los a levar algum dinheirinho para casa...

Então, porque é que se queixa e acrescenta que o Quadro do Pessoal não suporta tanta gente, e que a situação é provisória? Cabe-lhe, então, encontrar a solução mais adequada para um problema que ele próprio criou! Ou será que já tem uma solução à vista... mas não a pode dizer, antes das eleições? A isto chama-se alimentar a subsídio-dependência, ou «segurar as pessoas pelos queixos».

Diz que, ao longo dos anos, tem sido um alvo a abater.

Ora, se a Oposição nunca lhe fez oposição, se o Governo [Regional], como o próprio reconhece, está a atender às reivindicações apresentadas, se o Povo está calado... só pode ter sido alvo dos seus próprios actos, ou dos de «algum Judas» que com ele se senta/sentou à mesa...

Diz que, nas últimas eleições, só na véspera do dia é que se apercebeu que, afinal, a vitória não estava garantida.

Já alguém lhe perguntou, então, o que é que fez nesse dia? Diga!

Diz que vai pedir (ou já pediu) um estudo para aferir da viabilidade de construir um pontão no porto da Fajã Grande, de modo a que possa haver uma «praia de areia» na Zona Balnear.

É mesmo muita areia para atirar aos olhos! Por que é que não se lembrou de pedir um estudo relativamente à classificação da zona de risco da Ponta da Fajã, cujo levantamento reclama, satisfazendo os protestos dos populares da Ponta e as posições do partido que integra?

Diz que o outro candidato não é do concelho das Lajes e não tem nada a ver com o concelho das Lajes.

Onde é que esse candidato nasceu e foi criado? Qual a ilha e o concelho que o candidato escolheu para viver e trabalhar, quando terminou os seus estudos? Onde é que paga os seus impostos? Onde é que adquiriu e está a recuperar uma casa? No Pico? No Faial? No Corvo?

Diz que, avisado, desta vez, está a fazer uma campanha forte.

Isso nota-se. Sobretudo nas «notas de campanha» que as pessoas vão comentando diariamente, à boca pequena.

Diz que, se no resto dos Açores e em todo o País se trabalhasse à semelhança do Regime que instaurou nas Lajes, Portugal não estava na cauda dos 27 da Europa mas nos lugares cimeiros, a par dos países mais ricos.

Bolas! Isso é urgente e seria patriótico! O autarca das Lajes, deve ir imediatamente a Lisboa (ou a Bruxelas) dar uma conferência sobre boas práticas de gestão pública. Quem sabe se não será convidado a intervir na próxima reunião do Ecofin ou até do Conselho Europeu?

Brada e repete constantemente que é um homem sério, que as pessoas das Lajes o conhecem desde pequeno, que toda a gente sabe que ele é um homem sério, que quem é bem intencionado reconhece os sérios... e por aí fora...

O candidato da Oposição (que ganhou os dois debates, embora muito longe de ter esmagado) preferiu não entrar por aí, remetendo a palavra para os eleitores, no próximo domingo.
Realmente, se esse juízo for o principal critério, o Povo, que conhece «de ginjeira» o candidato do Regime, através do voto há-de dizer de sua Justiça.


Ironias, considerações e votos à parte, para que não restem dúvidas, e para que conste, o autor destas linhas esclarece o seguinte:

- não é apoiante do candidato da Oposição, (cumprimentou-o socialmente uma única vez desde a pré-campanha), e várias são as críticas/sugestões que guarda relativamente ao seu desempenho como vereador, bem como ao Programa Eleitoral que apresentou, reservando-as para altura oportuna, se este assim acatar, independentemente dos resultados do próximo domingo;

- por razões várias, tem feito por se conter relativamente ao exercício dos mandatos do candidato do Regime, (sendo que, em 12 anos, apenas por 3 vezes trocou brevíssimas palavras de circunstância com o autarca), o Presidente de Câmara mais forte com os fracos e mais fraco com os fortes que algum dia conheceu.

Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

«Preto no Branco» #37

Autárquicas 2009: Santa Cruz – «29/9 e 4/10, os dias em que a Comunidade bateu no fundo»

Dia 29 de Setembro,
o debate na RTP/Açores... ele está aí, disponível para (re)visionamento, através da internet. Pouco ou nada há a dizer. Foi «só» o espectáculo mais penoso e triste que o Município de Santa Cruz das Flores podia dar, ficando espelhada uma imagem paupérrima perante toda a Região... no meio da desgraça, o jovem João Paulo foi aquele que ainda conseguiu dar um ar da sua graça, merecendo nota para «ir a exame», quando os demais reprovaram à primeira.

Dia 4 de Outubro,
em vésperas das Regionais/08, houve um candidato que colocou as Flores nas bocas do País. Assumiu a conduta que costuma adoptar nas campanhas em que se empenha. O jornal «Expresso», em vídeo e em edição impressa, logo tratou de sintetizar a realidade encontrada nas Flores como, «A Ilha do homem que compra votos».
O Senhor em causa, está visto - politicamente inimputável - não deixa de ser simpático e bonacheirão no trato, pelo que não se compreende como é que o Povo da Vila tem tanto temor do homem. Pois, se a partir de 2010 e «rumo a 2012», até a Senhora Dra. Berta Cabral conta com os préstimos deste Florentino para integrar a Bancada Parlamentar do Partido na ALRA, como é que algum santacruzense pode temê-lo?
Do ponto de vista político, portanto, o «fenómeno» acaba por ser regional. As instâncias próprias lá terão os seus critérios...
Todavia, acima da política eleitoral estão outros valores, bastante mais elevados. Estão em causa bens colectivos intangíveis, absolutamente estruturantes.
Uma comunidade que assiste e permite, com total apatia, a inauguração de uma capela mortuária, cujo programa, dias antes, foi distribuído porta a porta, (com o timbre da Junta de Freguesia assinado pelo punho do seu mais directo representante), em que consta «descerramento de lápide», «bênção» e «discurso» seguido de «cocktail» no salão de festas da Sociedade Dr. Armas da Silveira... só pode ter batido no fundo!
Só pode ter perdido a noção dos princípios cívicos mais elementares.
Só pode ter perdido o mais básico sentido de Dignidade.
Só pode ter perdido os primeiros valores culturais com que se identifica.
Só pode estar amnésica relativamente a quem a serviu e honrou no passado.
Só pode estar indiferente relativamente a quem a representa no presente.
Só pode não esperar (nem faz por merecer) nada do futuro.
E que não se diga, esfarrapada e irresponsavelmente, que o assunto diz apenas respeito aos partidos ou à Igreja Católica. Não. Não diz!
O assunto só não diz respeito aos pagãos e, ainda assim, apenas àqueles cujas fontes culturais determinem rituais fúnebres em que tenham lugar manifestações de luto opostas às da civilização judaico-cristã.
O assunto diz respeito a todos!
Aos católicos, protestantes e membros de outras Igrejas, dentro do cristianismo. Aos crentes de outras religiões. Aos agnósticos e ateus. O assunto nem sequer tem a ver com o credo de cada um ou com a falta dele. O edifício tanto serve uns como outros. Mas entre todos existe um denominador comum – a morte, que não deve ser tabu, inspira o maior respeito e recato da comunidade em geral, ficando, depois, ao critério de cada família, amigos ou instituições, a opção pelas exéquias entendidas por mais adequadas.
Seja como for, parece-nos, no mínimo, ignominioso que: se inaugure uma capela mortuária; que a política partidária seja levada lá para dentro; que se faça do acto uma festa… e que, como se isso não bastasse, se ofereça um cocktail para assinalar a façanha!
Consumada a palhaçada, talvez nem valha a pena perguntar agora pela colectividade, associação ou agrupamento A, B, ou C... pois se nenhuma se manifestou...
Apenas uma nota, para finalizar.
Foi-nos dito, por fonte fidedigna, que este episódio, da Capela de Santa Cruz, acontece no seguimento do exemplo precedente, que veio das Lajes, onde, há tempos, terá ocorrido «cagaçal» semelhante...
Das Lajes, trataremos na próxima peça, Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

«Preto no Branco» #36

Partidos mais (re)partidos

Os resultados das eleições legislativas do passado dia 27 de Setembro, mais “as achas” que vão saindo de Belém, tornam praticamente impossíveis quaisquer rescaldos. O fogo está aceso, ainda agora começou, e qualquer análise ou previsão correm o risco de ficar desactualizadas em 24 horas. Faz lembrar o último crash das bolsas, em Outubro e Novembro de 2008.

Os comentadores não têm descanso e sucedem-se as entrevistas, debates, painéis e mesas redondas para todos os gostos, em todos os órgãos de comunicação social, em especial nas televisões.

A propósito, se há coisa que desgosta, quando não irrita, é ver reservar opinião para depois de ouvida a opinião dos comentadores. Todos temos olhos e ouvidos, todos pensamos pela nossa cabeça... e curioso é notar que os dirigentes partidários, não raras vezes, aguardam, colados às tv´s, para se pronunciarem mais tarde, muito em função do que disse A, B, ou C, neste ou naquele canal. Enfim... é um fenómeno do nosso tempo... quem está mais tempo “no ar” acaba, de facto, por condicionar aqueles que deveriam ser os principais mentores de uma ideia, orientação, posição ou estratégia... mas tudo se reduz demasiado à táctica do momento e à técnica de cada um.

Na táctica e na técnica, José Sócrates tem superado os líderes do PSD. Paulo Portas é melhor que José Sócrates. E Francisco Louça fica muitos furos acima dos demais. Isso faz a diferença e ajuda a explicar os resultados finais.

Do lado do comentário, de entre um naipe de meia dúzia de “consagrados”, há um que se destaca - Ricardo Costa - é o jornalista/político mais bem informado de Portugal e aquele que melhor, a par e passo, é capaz de sintetizar os factos e antever as consequências políticas, sem floreados.

Com este comentário aos comentários é que o comentário não chega ao fim. Adiante.

O País está assim:

- Em Belém, temos um Presidente da República que receia as “vulnerabilidades” do seu computador e faz disso uma celeuma de Estado. Mas que vai querer mostrar a Sócrates quem é o “chefe” do Estado, condicionando, à partida, os nomes que o Líder do Partido mais votado lhe apresentar, pelo que o Governo ficará numa posição que tem alguns paralelos com o Governo de Santana Lopes - por outras razões, evidentemente. Ainda assim, a “espada” vai estar sempre encostada ao pescoço do Primeiro-Ministro. Cavaco Silva, dissemo-lo em 2005, não tem perfil para um cargo que exige a habilidade que lhe falta e a magnanimidade que não lhe sobra, no exercício da “magistratura de influência”, especialmente em tempos conturbados. E não aguenta mais a hipocrisia da “cooperação institucional”. Está com sede de mandar, há-de tentar corrigir o “erro das escutas” - que lesou o PSD - com outro ainda maior e, para além de prejudicar irremediavelmente a sua reeleição (isso é o que menos importa aos portugueses) pode contribuir para atolar o País numa instabilidade atroz. Ora, ainda não indigitou o Primeiro-Ministro e já lhe declarou guerra...

- Em São Bento, temos um Governo de gestão que, fechadas as portas de Belém, e com tantas cortinas de fumo, não sabe com que linhas se vai coser. Tudo passará a ser incógnita. A especulação, boato, desconfiança, negociação e impotência farão dos bastidores o palco principal. Não é crível que possa cumprir o Programa de Governo, sobretudo quando vai estar em minoria na Assembleia da República. Aos ziguezagues foi Guterres...

- Na São Caetano à Lapa, temos a líder do principal Partido da Oposição “ligada às máquinas” e os herdeiros à espera das autárquicas, para lhe fazerem o enterro e se habilitarem. O processo, como de costume, não será amigável, prevendo-se escaramuças sangrentas, até que seja aclamado um novo “Dom” e os padrinhos das várias tribos aceitem beijar-lhe o anel...

- Na Assembleia da República, teremos - à direita e à esquerda - dois “profetas”, cada um a tentar, mais ou menos veladamente, levar “o seu povo à terra prometida”, leia-se, aproveitar ao máximo a fragilidade do Governo e do PSD para se assumirem como “fiscais avençados” do Governo e do Estado. Paulo Portas vai “vestir o fato” da responsabilidade, da liderança da Oposição e da defesa dos superiores interesses nacionais. Francisco Louçã, por seu turno, vai “vestir o fato” de baluarte da esquerda unida, dos descamisados, dos espoliados pelo capital e pelas grandes fortunas e da luta contra a corrupção.

Resultado: o País, entretanto, há-de navegar à vista, em auto-gestão...

Notas:

- Mário Soares, que sabe de política a potes, foi decisivo para espetar uma agulha no balão do BE, ao ter dito que não ficava chocado com uma eventual coligação PS/BE. Esvaziou o gás do BE, pois muitos hão-de ter pensado, “... se é para se coligarem, então, voto PS, ou já não voto no BE...”;

- Nas eleições legislativas anteriores, desde 1976, a soma dos votos dos dois maiores partidos, ou coligações (casos da AD e FRS) ficou sempre acima dos 4 milhões de sufrágios, à excepção de 1976 e de 1985 - ano em que o PRD arrecadou cerca de 1 milhão e quatrocentos mil votos, equivalentes aos célebres 18%, tendo, então, o PSD formado governo minoritário, com uma base eleitoral na casa dos 29%;

- As eleições de 27/09 passado foram a 3ª excepção à regra. Com efeito, a soma dos votos dos dois maiores partidos caiu de cerca de 4 milhões e duzentos e cinquenta mil votos, em 2005, para pouco mais de 3 milhões e setecentos mil votos, em 2009;

- Mais uma vez, CDS e PSD, somados, elegem mais deputados que o PS;

- A fasquia dos 50 mil votos brancos consolidou-se definitivamente a partir de 1999, tendo dado um salto em 2005, para os 103.537 votos, quedando-se nas últimas eleições em 98.951 votos, acima de qualquer partido, à excepção daqueles que obtiveram representação parlamentar e até do PCTP/MRPP que, desta vez, passa a ter direito a subvenção estatal, por ter alcançado 52.632 votos...

- Nas Flores, em Santa Cruz, onde o PS, entre 4 listas, parte como favorito para as Autárquicas, os votos das oposições, somados, ultrapassam o score dos socialistas. Nas Lajes, onde o PSD parte como favorito para o próximo dia 11, entre 2 listas, os votos das oposições, somados, ainda assim, não chegam para ultrapassar a fasquia obtida pelo PSD...

Preto no Branco,
Ricardo Alves Gomes

post-scriptum: A foto que acompanha o post tem um significado... quem adivinhar, ganha um prémio.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

«Preto no Branco» #35

Legislativas/09
Asfixias democráticas, apneias eleitorais e (as)fictícias institucionais

Tudo isto concorre para dar cabo do Estado de Direito Democrático.
Tudo isto reflecte a insustentável fragilidade do Sistema e vem agudizar o descrédito dos Órgãos de Soberania.
Tudo isto coloca o País à inteira mercê dos algozes do costume, enquanto o Sistema está “por um fio”, moribundo.
Há muito que temos vindo a clamar contra diversos indicadores, premonitórios desta letargia... há muito que reclamamos a (inevitável) refundação da República... mas este não será o sítio nem o timing indicados para escalpelizarmos o assunto com inteira propriedade.
Em todo o caso, ressaltam alguns tópicos. Que conste e para que se registe.

Asfixia democrática

Varre o Estado, de cima abaixo. Os cidadãos, quando não a sentem, pressentem-na. Nas mais variadas e prosaicas situações...
Em Lisboa, o PSD acusa o PS. Na Madeira, o PS acusa o PSD. Nos Açores, o PSD acusa o PS...

Resultado: PS e PSD, asfixiados que estão, asfixiam-se mutuamente. Mutuamente, estão a ser os 2 principais responsáveis pela asfixia do País.

Apneia eleitoral

O PS promete, o PSD não descompromete. Quando um arrisca o outro vacila. No dia seguinte, invertem-se os papéis. Entretanto, de um lado e doutro, as oposições internas vão amolando facas...
No essencial, (independentemente das “causas fracturantes”, que perante a crise e quando comparados com o que verdadeiramente atola Portugal, não passam de “fait divers”), ambos estão reféns das clientelas que alimentam. Nenhum deles assume diferenças estruturais, com clareza. Nenhum deles convida a discutir opções políticas, a sério.

Resultado: A campanha eleitoral reduz-se a comentários estridentes das gaffes e dos incidentes do outro. O debate é, acima de tudo, um espectáculo mediático. Ganha quem tem mais truques. Os apoiantes são, cada vez mais, figurantes arrebanhados para buzinar e agitar bandeiras à hora dos “prime times” das TV´s. As “Jotas”, por exemplo, contentam-se em contentar “os seniores”, com a boa organização das suas “claques”.

As(fictícia) institucional

Como se tudo isto não fosse bastante, a Presidência da República, garante do regular funcionamento das instituições, e reserva moral do Estado, acrescente-se, vê-se envolvida num “Watergate” à portuguesa. Se a desconfiança já abalava gravemente a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais, a “nuvem negra” alastrou-se. Agora, também impende sobre Belém...
E falamos “apenas” de Órgãos de Soberania. Por ora...

Resultado: O clima de suspeição que inunda o Estado é uma vaga que não deixa pedra sobre pedra. Tudo faz ruir. Em cascata. Como um “castelo de cartas”. Quando a vulnerabilidade do Estado fica ao nível de um “castelo de cartas”, o Poder “cai na rua”. Quando o Poder “cai na rua”, é “o fim da picada”.


Mais 3 notas, em pé de página:

- Não se pense que os tumores malignos que afectam as mais altas instituições do Estado são coisas “... de lá longe, que dizem respeito a uns quantos Senhores apenas, e que nada importam à vida de cada um”. Antes pelo contrário. As repercussões, para o bem e para o mal, costumam fazer sentir-se imediatamente, ao nível local. Ou não fossem os pequenos/grandes poderes locais os mais próximos das populações, com quem os cidadãos têm que “dialogar” todos os dias;

- No próximo domingo, feito o escrutínio, vai ser “interessante” verificar o resultado da soma dos votos dos dois maiores partidos, e compará-lo com operação idêntica nas anteriores eleições legislativas, desde 1976;

- Nas últimas eleições, para o Parlamento Europeu, o número de votos em branco ficou logo atrás do número de votos expressos no PSD, PS, CDU, BE e CDS/PP. Houve, pois, mais votos brancos que em qualquer um dos outros partidos, à excepção destes.
Há-de ser, portanto, também “interessante” verificar os valores alcançados pelos votos em branco nestas Legislativas/09.

Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

domingo, 20 de setembro de 2009

«Preto no Branco» #34

Cidade-Polícia

Ponta Delgada - campeã do mimetismo regional, que até já fala, imagine-se, em “pulmão verde” - está a criar a sua Polícia Municipal. Nos grandes centros, justifica-se. Mas numa cidadezinha insular e açoriana?
Mais. Berta Cabral pertence a um partido que no seu programa eleitoral para as Legislativas/2009 vem defender (e bem!) a necessidade de reorganização das forças de segurança, designadamente a fusão entre PSP, GNR e outras.
Imaginem agora se a “moda de Berta” pega e começa a reproduzir-se, com a criação de outras forças de segurança municipal, “ilhas acima”?
Pensem agora nos “bons ofícios operacionais”, especialmente “ao serviço” de certos caciques... livra!

Cidade-Feliz
Segundo foi apurado junto dos cidadãos, no âmbito de um estudo realizado em todo o País, Angra do Heroísmo ficou classificada entre as cidades onde as pessoas se declaram mais satisfeitas com a qualidade de vida oferecida pelo local onde vivem e trabalham.
O que é que Angra (“baiana”) tem? É feliz. O ego dos Angrenses está “em cima”. Ora, é disto que os Açores precisam. Parabéns à nossa Cidade Património Mundial.

Cidade-Mar
É impressionante como o património edificado da Horta está devoluto. Os faialenses abandonaram a Cidade. Do Largo do Infante à Praça da República são repetidos os exemplos de degradação urbana. Simbolicamente, a Residencial do Infante e o antigo Grémio Literário ilustram este postal, e de como não se faz cidade.
Com prédios a cair e sem pessoas, a nossa Cidade-Mar está a cair num marasmo que lhe retira graciosidade, alma e doçura, e relega a ilha do Faial para um plano secundário, muitos “furos abaixo” daquele em que deveria estar.
Basta subir a Espalamaca e de lá observar com atenção. Os prédios antigos caem. Entretanto, promovem-se construções novas, de gosto duvidoso, que só descaracterizam a harmonia do anfiteatro urbano e entristecem a nossa Cidade-Mar.

Mais cidades
Vila Franca do Campo e Lagoa querem passar a cidade e disputam agora os critérios legais para justificar o preenchimento dos requisitos que permitam elevar-se.
É óbvio que, no fundo, a questão é de natureza política. Não é por acaso que quando uma (de uma “cor”) reivindicou tal estatuto, a outra (de “cor” contrária) foi lesta e logo veio requerer igualdade de tratamento.
Justifica-se? Depende...
Se sim, também a Madalena há-de ficar mais legitimada para “aproveitar a boleia”. Mas aí, está-se mesmo a ver. Uma vez “contornada” a Lei nos casos de Vila Franca e Lagoa, depois, quem decide politicamente irá, então, invocar as previsões legais em vigor para sustentar as impossibilidades de “mais conceder”...
Resultado: já que a decisão final é sempre política, já que o processo legislativo também é sempre político, e já que a verificação do “preenchimento dos requisitos” acaba por ser fruto de uma “estratégia negociada”, melhor seria que se alterasse a Lei!
É que, caso a ideia seja “pejar” os Açores de cidades, com 4 no Grupo Oriental e 3 ou 4 no Grupo Central... pois então... também há-de ser legítimo reclamar uma para o Grupo Ocidental. A bem do bendito “desenvolvimento harmonioso dos Açores”.
Preto no Branco!

Ricardo Alves Gomes

domingo, 13 de setembro de 2009

«Preto no Branco» #33

Fazenda: a pressão e as águas

Umas semanas sem chover nas Flores e é logo “um período de seca”.
Em Maio passado, que foi muito soalheiro, por altura do Espírito Santo, a água na Fazenda foi tanta que fez rebentar empanques, torneiras e esquentadores. Literalmente. Houve casas inundadas e outras em que certos equipamentos desprenderam violentamente das paredes. Para além dos estragos, alguns moradores apanharam uns sustos valentes.
A Autarquia prontamente mobilizou o seu arsenal e, segundo a voz do povo - pois não houve uma única informação ou esclarecimento à população - o que veio a ser apurado foi que numa das manobras de regulação dos níveis de água nos reservatórios a aselhice foi tanta que “abriram o tanque a toda a força”. Ora, encostas abaixo, a pressão da água na rede atingiu um ponto tal que por onde passava quebrava.
Até aqui, enfim... um erro humano pode acontecer... no contexto da incompetência que já se tornou normalidade. O que já não pode acontecer - e aconteceu - foi a Autarquia, que levou tempo demais para resolver o problema, não ter assumido as suas responsabilidades publicamente. Não. Ficou à espera que os munícipes, pela porta do cavalo e à socapa, fossem minguar um jeitinho aqui ou um favorzinho acolá, para que os danos fossem reparados.

Ora, depois da pressão na água da rede, veio a pressão, mais ou menos descarada, própria do nepotismo esclarecido regente, passada à boca pequena, “... bom, o esquentador fica prometido... mas ainda temos que ver mais umas coisas...”.
Como se já não houvesse água pela barba, passado pouco tempo, a maquinaria foi mandada outra vez acima. Desta feita, para iniciar o “saneamento básico” (designação que a Edilidade pomposamente aprendeu a dar à construção de fossas sépticas colectivas para meia dúzia de casas – que precisam, de facto). Vai daí, e foi um tal escavacar a estrada municipal, iniciando-se a empreitada mesmo em frente da Igreja (na Rua Dr. José de Freitas Pimentel, se a toponímia ainda for a mesma) talvez para que toda a gente pudesse ver o que é o poder de “Um Concelho em Progresso”, com muita acção.
Resultado: É vergonhoso, para não chamar outra coisa.
Os danos causados pela hiper-pressão da água nas casas vão sendo reparados às pinguinhas – agora, as pressões são outras...
O “saneamento”, esse, também “é para se ir fazendo”, esperando-se ocasião oportuna para repor a via e asfaltar com “tapete novo”. De encher os olhos. Antes de um tal Domingo. Talvez dê direito ainda a inauguração, com mais sopas e foguetes.
As pressões, nestas águas mais escuras que as primeiras, agora também são outras… tiradas a papel químico de umas cartilhas antigas, que alguns ainda sabem de cor.
Quanto à oposição, tem tantas culpas no cartório como a regência. Cai na tolice de ir ao caldeirão, engasga-se, e fica sem poder abrir a boca.
O que vale, é que ainda há fazendenses que percebem tudo isto com uma limpeza que consola a ver. E vão sorrindo...
Até ao dia em que, num acto solitário, secreto, individual e livre decidirem rebentar com essa maldita pressão, filha da água e do saneamento. Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

«Preto no Branco» #32

É crime na Ribeira da Cruz!

São notórios os benefícios dos investimentos que têm vindo a ser feitos em obras de recuperação e melhoramento das estradas regionais das Flores. Acontece que, se até há bem pouco tempo a rede viária estava bem pior a todos os níveis, o certo é que casos há em que o perigo é iminente e algumas zonas apresentam elevados riscos, designadamente no troço Santa Cruz – Lajes. O que se passa na pedreira da Ribeira da Cruz é um escândalo e é duplamente criminoso.

É criminoso do ponto de vista ambiental. Como é que o mesmo Estado (a administração regional, entenda-se) que ordena que sejam levantados autos de contra-ordenação quando é arrancado um pé de urze (queiró) tem a desfaçatez e o descaramento para autorizar e assistir ao desfalque daquela formação rochosa de cima abaixo, incluindo a expropriação da flora e fauna ali existentes, num esquartejar que desfigura completamente a beleza do vale?

Como é que o mesmo Estado permite ainda que seja instalado, uns metros mais adiante, um parque industrial improvisado, com todo o tipo de tralha e bagunça nas redondezas, que mais faz lembrar um filme do tempo da Revolução Industrial ou um campo de refugiados?

É criminoso do ponto de vista da segurança rodoviária. Quem ali passa arrisca-se. E muito. O outro dia, falava com um amigo que frequenta a Praia da Maria Luísa e, a propósito da derrocada fatal ali ocorrida, dizia-lhe: “... mas havia lá uma placa a indicar perigo de queda...”. Ele, e bem, respondeu-me: “... isso da placa não vale nada. Das duas uma. Ou há condições para a praia ser frequentada ou não há. E se não é possível garantir a segurança o Estado só tem que fazer uma coisa: ordenar a interdição da Praia!” Lembrei-me imediatamente da Ribeira da Cruz. É tal qual.

Será que só depois de haver um acidente grave na Ribeira da Cruz é que o Estado vai ordenar a abertura de um inquérito, concluindo pelo encerramento da pedreira?

E já agora. Será que o Estado está em condições de assegurar que as pontes da Ilha estão vistoriadas e preparadas para suportar a circulação constante de veículos pesados, com quantidades de carga, na ordem das muitas dezenas de toneladas?

Será que esses veículos estão a cumprir as disposições que se lhes aplicam, de modo a minimizar o risco inerente à sua circulação?

Não há ninguém que tome uma atitude, de uma vez por todas?

É isso mesmo... durmam descansados e depois gritem que alguém há-de acudir. Responsabilidades? Qual quê? Nada. A culpa nunca é de ninguém.

Se ao menos as indemnizações saíssem do bolso dos próprios, Preto no Branco...

Ricardo Alves Gomes

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

«Preto no Branco» #31

A bem classificada e os mal classificados

Quando há uma estratégia definida, tal como os países, também as regiões, as ilhas e os municípios, em especial aqueles de dimensão mais reduzida e localização mais periférica, adoptam os seus planos de desenvolvimento em função dos vectores que os podem diferenciar pela positiva (as ideias âncora, como agora se diz) e apostam nos seus mais elevados títulos, os designados “brands”.

Foi assim, há uns anos, quando alguém (com a visão que hoje parece não haver rejuvenescido ou sequer regenerado) passou a invocar reiteradamente a mais-valia florentina sobre o que o mar das Flores representa e acrescenta à Zona Económica Exclusiva, no contexto económico da Região Autónoma dos Açores, ou quando se levou Sintra (Cabo da Roca) de vencida e conseguiu o reconhecimento político e institucional da ilha das Flores como Ponto mais Ocidental da Europa.

Pois bem.

Como todos sabem, (este «Fórum» e os media em geral deram destaque à notícia), em Maio passado, a UNESCO, graças ao interesse de vários, ao empenhamento de alguns e à sorte de outros, decidiu classificar as Flores como Reserva da Biosfera e incluir a Ilha entre (apenas) 517 outros locais no Mundo merecedores desse estatuto.

Ora, como o Corvo já fora distinguido, temos hoje todo o Grupo Ocidental dos Açores ao abrigo do “grant” da UNESCO, o que, para além de constituir uma enorme janela de oportunidades é também uma enorme responsabilidade, tal como logo tratou de vir dizer o Secretário Regional do Ambiente e do Mar - que lá há-de ter tido as suas razões para dar logo o “recado”.

Sem falar nas baboseiras que alguns partidos disseram sobre a candidatura, o que é mais espantoso é a reacção das autoridades locais e de alguns destacados dirigentes perante a notícia...

É triste, confrangedor e pesaroso ver o que os legítimos mandatários destas almas (oposições incluídas) vieram declarar, através de umas arengas da treta, balbuciadas e arrazoadas, como que a precisar terapia da fala!

Pois claro... não fazem a mínima ideia do significado da decisão da UNESCO, de quão difíceis são as negociações para “arrancar uma decisão deste calibre”, do grau de responsabilidade e de exigência que o novo estatuto implica ou sequer, ao menos, dos proveitos que se podem alcançar.

Na escala de prioridades e na ordem de grandeza dessas cabeças a classificação da UNESCO há-de equivaler, mais coisa menos coisa, à atribuição da Bandeira Azul para as zonas balneares - o que já não é (seria) pouco...

Mais. Podia argumentar-se: “... bom, isso é uma coisa que ultrapassa os foros da Ilha e até da Região, e as instâncias próprias, pela voz dos órgãos e titulares capacitados para tal, na altura certa vieram pronunciar-se... adequada, oportuna e convenientemente...”. Pois, pois... está-se mesmo a ver.

E as medidas locais subsequentes, então? Não vamos falar aqui das lixeiras, saneamento, estações de tratamento, recolha e exportação de resíduos, etc.

Apenas isto: Passaram as principais festas e a época de maior fluxo de turistas. Houve espectáculos, foguetórios, ilusionismo, raves, sopas e caldos para todos os gostos...

Mas, que diabo! Com tantos meios e recursos afectos, não restou capacidade nem interesse para, ao menos num gesto simbólico ou atitude pedagógica, colocar contentores de recolha selectiva de lixos, alargar a rede de “pilhões”, instalar uns cinzeiros de rua, distribuir uns panfletos com informação a sensibilizar os locais e visitantes para o assunto, colocar “outdoors” nos principais pontos da ilha, enfim... já que se estão marimbando para o assunto, talvez pudessem disfarçar com qualquer coisa... mas nem isso!
Devem estar à espera que qualquer dia venham “uns senhores de fora” tratar do assunto... faz lembrar a charada das plantas: “... A) Aqui estão as plantas que pediram. B) E quem é que as vem plantar?”.

Tudo isto era uma comédia engraçada se o assunto não fosse demasiado sério. Tão sério que a elevação da Ilha ao almejado estatuto - ser inscrita no catálogo das Reservas da Biosfera da UNESCO - depois do 25 de Abril, da consagração da Autonomia e da entrada de Portugal na CEE, será, porventura, a notícia mais importante, marcante e histórica que as Flores poderia receber.

Curiosamente, (salvaguardando desde já alguma outra eventual excepção, a que só por lapso não nos referimos), foi o Prof. Monteiro da Silva, num artigo publicado n' «O Monchique», quem mais e melhor atenção deu ao assunto, vendo de longe “o mosquito”, quando outros não enxergam “o boi”, mesmo à frente do nariz. Assim mesmo e Preto no Branco.

Ricardo Alves Gomes

quinta-feira, 16 de julho de 2009

«Preto no Branco» #30 ::parte 4 de 4::

7. Existe quem, muitas vezes, a coberto do anonimato e de forma aleivosa, ofende o bom nome e a dignidade de pessoas e/ou entidades, propagandeando a mentira, a insídia, o insulto gratuito, a mais vil estupidez e a devassa da vida privada?

Pois, esse é o grande problema.

E se há alguém que se poderia queixar seria o próprio autor destas linhas.

Com efeito, já algumas medidas foram tomadas para filtrar determinado tipo de linguagem e comentários repugnantes a todos os níveis. Neste momento, já foi introduzida a “moderação” que, na altura, tantas resistências levantaram por parte de alguns. Sempre fui a favor da existência da moderação. Talvez possam ainda aperfeiçoar-se mecanismos para que se torne mais eficaz.

Agora, há que clarificar o seguinte:

Não se pode confundir as peças publicadas e assinadas com certos comentários que se lhes seguem. Essa confusão à partida desvirtua completamente qualquer discussão, que possa e deva ser feita com inteira propriedade. Por outro lado, não se pode tomar “a árvore pela floresta” – isso seria malbaratar o trabalho e a salutar acção cívica de muitos.

Por isso, das duas, uma:

Ou se fechavam os blogues todos – o que é manifestamente impossível – ou se faz um esforço colectivo no sentido de maximizar as suas virtudes e minorar os seus efeitos perversos.

Alguém acha que sem blogues ou antes destes não existiam anonimatos, aleivosias, ofensas ao bom nome e à dignidade de pessoas e/ou entidades, propagação de mentiras, insídias, insultos gratuitos, vis estupidezes e devassas da vida privada? Essa batalha é da comunidade inteira, passa pelos blogues, mais é muitíssimo mais vasta. Aplica-se a tudo e a todos, em qualquer lado e por todas as formas.


Relativamente à questão da “reputação”, reiteramos as nossas palavras do primeiro «Preto no Branco», de 22 de Fevereiro de 2007:

“... Procurará ser um olhar crítico e responsável. Independente e justo. Que não visa o sujeito, antes agarra o seu predicado e visa sugerir adequado complemento directo...”
.

Ora, se em vez disto, a “reputação” equivaler ao silêncio dos manhosos e à negação em assumirmos as nossas posições, contrariando-nos, então, melhor será dispensá-la, pois, desse modo, ela há-de valer bem pouco!

Passadas 30 publicações e após um hiato nos últimos tempos, o «Preto no Branco» prossegue “dentro de momentos”...


Ricardo Alves Gomes

«Preto no Branco» #30 ::parte 3 de 4::

4. O blogue, em geral, tem vindo a ganhar ou a perder qualidade e força de expressão?

Tem vindo a ganhar qualidade e força de expressão.

A qualidade é sempre discutível e, portanto, subjectiva. Sobretudo, se dissociarmos “qualidade” de índices de visitas.

Pessoalmente, acho que a diferença qualitativa para melhor do «Rocha dos Bordões» para o «Fórum ilha das Flores» é notória e que o próprio «Fórum» tem vindo a melhorar aos poucos.

Relativamente à “força de expressão”, a evolução dos números de visitas diárias e mensais falam por si. Não é sequer discutível. É pura estatística.

5. A linha editorial do blogue e as matérias seleccionadas para publicação vão de encontro às convicções e posições do autor do «Preto no Branco»?

Umas vezes, sim. Outras, nem tanto.

Todavia, a maioria das matérias seleccionadas para publicação têm pertinência. Veja-se a importância dada às questões ambientais, por exemplo.

Não nos esqueçamos que o blogue não é feito por profissionais – o que significa dizer que depende, em exclusivo, da boa vontade dos seus colaboradores e que estes, a troco de nada, perdem muito do seu tempo a recolher e a preparar matérias que, de outro modo, seriam completamente esquecidas.

Também é bom que se diga que independentemente da minha concordância com esta ou aquela posição publicada, o certo é que essas peças são assinadas e, quando o não são, ficam à responsabilidade da administração.

Agora, há uma coisa que é sagrada – nunca, mas nunca, senti qualquer tipo de reserva, entrave ou censura a qualquer das rubricas que subscrevi! E esse é um valor absoluto que este blogue observa – o pluralismo e a liberdade de expressão.

6. O autor destas linhas entende a sua participação como maléfica e perniciosa para a comunidade, reunida on-line através do blogue?

Claro que não.

Se assim fosse não participaria, como é óbvio.


Ricardo Alves Gomes