segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

«Nem acredito em tudo o que já fiz»

Ex-professor, diácono, ex-autarca, ex-dirigente desportivo e cultural, cantador e tocador, Luís Alves, 61 anos, vive intensamente o quotidiano da ilha das Flores e em especial da freguesia de Ponta Delgada onde nasceu em tempos de extremo isolamento e pobreza: «Comecei a estudar com o dinheiro que ganhava na apanha do sargaço».

Luís Alves, professor na reforma, diácono, ex-presidente da Junta de freguesia e ex-presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores, tocador e cantador, vive em Ponta Delgada, uma autêntica varanda aplainada e verde sobre a ilha do Corvo.

Apesar de ter nascido numa das mais isoladas e pobres freguesias da ilha das Flores, nunca se resignou ao destino de grande pobreza. «Ui, eramos muito pobres», recorda Luís, que conheceu a electricidade com 19 anos graças à instalação na zona dos radares franceses. «Havia uma família em Ponta Delgada que inclusivamente vivia numa furna».

Em casa de Luís Alves viviam do que o pai, agricultor que trabalhava em terras de outros, ganhava. «Tínhamos um porco, plantávamos batata-doce, batata branca, milho, feijão, couves... A nossa ceia era sopas de leite com pão de milho e papas grossas de leite».

Não tinham pão de trigo. «De vez em quando alguém mais rico dava-nos um bocado. Para ter farinha, levávamos a “moenda” (o milho secado) até a um moinho de água que aqui havia».

Ainda em casa, faziam manteiga e nata para vender. «Não existia numerário naquele tempo. A nata e a manteiga era entregue ao senhor da loja (mercearia) que a vendia à fábrica de leite e trocávamo-las por géneros».

Para conseguir ganhar algum dinheiro, iam apanhar sargaço. «Apanhávamos no Sítio do Vento, aqui na freguesia, 202 degraus para baixo e 202 para cima. O meu pai vendia ao quilo. O melhor sargaço era o que vinha enxurrado, batido. Escolhíamos o melhor e sempre dava para suportar a casa».

Foi com o dinheiro que ganhou no sargaço que Luís Alves teimou em estudar. «Comecei por estudar sozinho porque não tinha estrada para ir até Santa Cruz. Depois ia até Santa Cruz e fazia três anos de cada vez. Fui ter com um senhor dos Correios e com um senhor meteorologista que me ensinaram Física e Matemática. A professora primária (ensino básico) que vinha aí é que me ensinou o inglês e o francês. Fui fazendo assim, candidatando-me como aluno externo, primeiro nas Flores e depois no Faial».

A chegada dos franceses e da sua base de radares para escrutinar os mísseis que atravessavam o Atlântico mexeu com a pequena freguesia rural de Ponta Delgada. «Tivemos electricidade em 1969, mais cedo do que noutras zonas da ilha. Muita gente trabalhou nas obras de instalação de valas e electricidade e a população beneficiou do apoio médico dado pelos franceses».

Na época em que os franceses se instalaram em Santa Cruz das Flores já Luís Alves cantava e tocava. «Eu, a minha esposa e o meu pai tocávamos e cantávamos música regional para os franceses, no Hotel que eles tinham em Santa Cruz. Normalmente, íamos lá quando chegava o avião de abastecimento deles, o Transal. Eu tocava viola ritmo, o meu pai tocava viola e a minha esposa cantava em dueto comigo». Os militares franceses iam buscá-los e levá-los. «Não tínhamos carro. Tive o meu primeiro carro em 1985».

Além de professor, autarca e diácono, Luís Alves foi jogador de futebol, dirigente desportivo, director da Casa do Povo local e ainda do Grupo de Folclore da Casa do Povo da Ponta Delgada das Flores. Ainda hoje, o reportório deste último, tem por base as recolhas feitas por Luís Alves.

«Andei pela freguesia a fazer recolha de temas juntos dos mais velhos», conta. «Alguns foram trazidos de fora da ilha, como o “Vira”. No fim do século XIX, esteve a construir aqui o Farol da Ponta de Albarnaz um tal de João Figueiredo, conhecido como o João “Algarvio”. A minha avó dizia que tinha deixado algumas músicas e o “vira” era uma delas».

Foi com essas músicas recolhidas em Ponta Delgada que Luís Alves partiu para os arranjos coreográficos do grupo de folclore. «Notam-se diferenças em relação a outros reportórios porque vivíamos muito isolados mas eu acho que é a diferença de ilha para ilha e de freguesia para freguesia que faz a riqueza do folclore».

Luís Alves envolveu-se em praticamente tudo o que era a vida quotidiana e especialmente cultural de Ponta Delgada. «Fomos os primeiros a apresentar marchas de São João com letras e música minhas, celebrávamos as Rondas dos Reis, a Passagem do Ano e o no Carnaval organizávamos danças de arco e espada, com um mestre e um contra-mestre vestidos à militar».

Entre 1980 e 2000, organizou uma tuna com violões, viola da terra, bandolins e violino e mantem um grupo, o «Vozes do Norte», com mais cinco elementos.

Catequista durante 35 anos e membro do coro da Igreja de Ponta Delgada, Luís Alves cursou teologia durante cinco anos e é actualmente um dos três diáconos dos Açores. «Só não posso consagrar a hóstia nem perdoar os pecados uma vez que sou casado. Meu Deus, eu às vezes não acredito na quantidade de coisas que faço ou já fiz».


Crónica do jornalista Nuno Ferreira no portal «Café Portugal».
Saudações florentinas!!

28 comentários:

Anónimo disse...

Este é como eu para se ter e ser alguem temos que lutar trabalhar desde criança. Assim sabemos dar o valor a quem trabalha.

Anónimo disse...

bem, ex presidente de câmara nao é bem assim
è importante dizer que foi em substituçao

Anónimo disse...

Nenhuma comunidade tem futuro se não conhecer a sua história. São as liçoes do passado - erros e sucessos - que nos devem ajudar a planear o futuro.

As Flores não foram sempre o que se vê hoje.
Foi com tenacidade que se venceu um meio ambiente hostil, nos tempos do povoamento, foi com astucia que se eliminaram exploradores, do Faial, da Terceira e de Lisboa e foi com suor que se debelou a miséria e a pobreza.
A geração do Sr. Luis, honra lhe seja feita, conseguiu dar o salto que outras devido às circunstancias não conseguiram, para o conforto dos tempos modernos que hoje vivemos.
A vida do Sr. Luis testemunha isso mesmo. Da luta secular pela sobrevivencia, que tantas gerações motivou, ao debelar da pobreza, através da valorização pessoal pela formação.
Hoje, quando as nossas crianças pela manhã esperam a carreira para ir para a escola, nem sonham os degraus que se subiram até aqui nestes quinhentos anos.

Temos de ir com os tempos. E as exigencias de hoje são outras, não menos desafiadoras do que as do passado. É formar jovens, é fomentar o empreendedorismo, é criar trabalho e riqueza na nossa terra.

Anónimo disse...

Parabéns sr. Luís Alves! Oxalá que a sua história de vida seja uma referência para os florentinos, especialmente para os jovens e para aqueles que se sentem desanimados.

Anónimo disse...

O titulo do artigo é salvo erro "nem consigo acreditar em tudo o que já fiz" realmente é bem verdade algumas das coisas que o sr professor Luisinho Alves já fez nem dá para acreditar!!! embora no meio de tanta coisa tambem tem feito coisas de valor, embora todos os habitantes de Ponta delgada o saibam pela frente é o sr. Professor e por trás é un deus nos acudam .

Anónimo disse...

Um elevado coeficiente de inteligência, aliado a uma tenacidade sem limites,fizeram do senhor professor LUÍS ALVES um dos mais valorosos homens do nosso século, quiçá da historia da ilha das Flores. Um exemplo a seguir pelas gerações vindouras.

Anónimo disse...

O sr. da metrologia devia ser o Sr. Jose Noia . tambem andei lá nas explicaçoes . tinha uma sala grande cheia de mapas , lembro-me bem

Anónimo disse...

Sou um jovem e por acaso ate também estou desanimado com a actual conjuntura, mas este Sr. não me serve de referencia, por muito que tenha feito, não é perfeito nem um exemplo a seguir! tenho dito.

Anónimo disse...

Concordo com o anónimo das 23:19. De facto a perfeição não é o seu forte tendo sido sempre muito criticado aqui na freguesia por enredos e quezílias , é intrigante e rabugento por vezes e também acha por vezes que só ele sabe. Mas isto não é um juízo de valor é apenas a minha modesta opinião. Cada um é como é . Não podemos nem podíamos ser todos iguais . Exemplo para os que quiserem . Para mim não obrigado.

Anónimo disse...

Ponta Delgada das Flores, nunca teve e nunca terá um homem deste quilate.

Anónimo disse...

Em resposta ao anónimo de 21/02/2013 das 08:09:00 então Ponta Delgada das Flores nunca teve nem tem nada porque gente desta é aos pontapés

Anónimo disse...

Isto tem piada é visto desta forma . Homem que usa saias ....Se fizerem um referendo aqui na freguesia mais de metade da freguesia não gosta dele nem com molho de tomate , nem sequer pintado ou mascarado. Longe...

Anónimo disse...

Há um comentador malcriado, atrevido e, muito provavelmente, ressabiado, que não tem respeito pelas pessoas.
Perfeito foi Nosso Senhor, porque era a encarnação de Deus. Todos nós temos cantos rombos e estruturas mal paridas.
Quem atira pedras aos outros, como o tal comentador ressabiado faz, das duas uma: ou é tolo, e dos servos de Deus não reza a história, ou não se sabe enxergar.
O Sr. Luis tem defeitos? Pois é capaz de ter. Como eu tenho e como o comentador atoleimado tem.
A vida e a obra do Sr Luis tem valor?
Obviamente que tem. Porque está à vista de todos. Porque foi feita de forma séria. Porque suplanta, e em muito, as imperfeições da sua condição humana.

Anónimo disse...

Que conversa religiosa num instante .
Bem vi que isto metia padres e diáconos e nao vá o diabo tece-las e meter o tal bispo pedófilo. Credo , cruzes, Amen Sr. Bispo

Anónimo disse...

É bem triste a forma como algumas pessoas, não sei bem porquê, talvez pela sua pequenêz, falta de educação e de respeito pelo seu semelhante, vem para a praça pública desvalorizar e enxuvalhar pessoas que têm feito muito por si e pelos outros, dando contributos e exemplos importantes para a nossa sociedade. Merece todo o respeito Sr. Luis.

Anónimo disse...

È bem triste a forma como algumas pessoas , não sei porque classificam as outras pessoas talvez pensando ser superiores capazes de julgar os outros,pois não devem ter um espelho em casa e olhar para si próprios, o sr Professor numa balança as coisas de valor por um lado, que as tem, e as que não tem valor nenhum por outro lado , o prato da balança pende para o lado das que não tem valor nenhum, isto é publico não é trazer nada que não se saiba para a opinião pública ,por isto acho muito injusto quererem por a toda a força pessoas menos crediveis num pedestral a que não tem direito. Ainda falam em história a história neste caso não tem história nemhuma.

Anónimo disse...

Todos temos cantos rombos e estruturas mal paridas sim senhor.
Mas há um comentador por ai, malcriado e má lingua, que não tem estruturas mal paridas não. Ele foi todo mal parido.

Anónimo disse...

Antes de criticarmos os outros pela negativa, deveríamos pensar duas ou mais vezes, pois quando apontamos o dedo aos outros, três ficam a apontar para nós...

Parabéns Professor Luís por tudo o que tem feito em prol da ilha das Flores!

Anónimo disse...

Todos nós, sem excepção, quando chegar o nosso dia, apresentaremos contas ao Criador.

Anónimo disse...

há pessoas que quando as verdades vem há tona de água,vem por mil palavras tentar camuflar as mesmas,mas pode as camuflar ,apagar é que nunca,isto está mesmo muito mau...pior do que eu penssava...ó povo não vos deixais enganar por um espertalhote.

Anónimo disse...

Relativamente à igreja só tenho a dizer que ela está a transbordar de máfias ao serviço de Deus, sim porque se Deus existise como fazem querer aos pobres de espirito estes homens ao serviço de Deus já estavam todos mortos!
O vaticano e as leis da igreja são excelentes para um momento simpático e de alivio quando vou ao wc.

Anónimo disse...

A tua hora também vai chegar, quando gritares por Deus, oxalá seja a tempo.

César Manes disse...

Eu sou um assíduo visitante deste blog porque é obviamente uma forma de me manter informado sobre as notícias da minha ilha, todavia fico algo estarrecido ao ver que os responsáveis pelo blog aceitam comentários que roçam a estupidez porque comentam de forma leviana e sem conhecimento sobre uma pessoa de reverência como é o caso do Prof Luís! Ele merece sim ser referenciado pela pessoa e pelo que fez!

NUNO FERREIRA disse...

Fico muito contente e sensibilizado por publicarem aqui as minhas crónicas. Um grande abraço aos que as publicam e as lêem. Só não gosto que se comente sob a covardia do anonimato mas esse é um sinal dos tempos em que vivemos seja nas Flores seja onde for.
Obrigado

Anónimo disse...

O sr jornalista Nuno Ferreira não leve a mal o pessoal comentar em anónimo porque o 25 de abril já foi ,mas continua enraizado que nem o sr sonha e dai o anonimato, o seu personagem como todos nós tem virtudes e desvirtudes.

Anónimo disse...

Este tambem podia bem resignar como o papa.

Anónimo disse...

Já se a igreja anda nas bocas do mundo pela resignação do papa brevemente teremos um conclave gay desta instituição onde a pedofilia costuma ser misturada erradamente com a homosexualidade.
Espero que este novo papa permita que os padres gays assumem a sua homosexualidade e que expulse do seu rebanho todos os pedofilos existentes na igreja. Talvez assim haja menos gente frustrada ao serviço da igreja e do vaticano e se acabe de uma vez por todas com o tabu ser homossexualidade.

Anónimo disse...

Há que fazer um conquelave nas Flores e subsituir esta criatura . Para mim é personna non gratta .Se tivesse algum pingo de vergonha nem esta entrevista tinha dado . E tenho dito.