sexta-feira, 7 de junho de 2013

«Janela de Guilhotina» #2

Azoricas

Quando os navegadores avistaram ao longe as ilhas atlânticas, terão sentido a vontade compreensível de as visitar, não só pela curiosidade natural do descobridor, como também para obter água e mantimentos frescos, e já agora para delas se apossar em nome de El-Rei e para glória de todos. Abrigados os pequenos barcos nas poucas angras viáveis, ei-los que desembarcam num território que até então só pertencia às aves e à vegetação – e pouco mais.

Nas zonas mais baixas, encontraram as plantas de costa, tão densas em alguns locais que até o nome deram à ilha em questão; é o caso das Flores, que terá sido deste modo chamada por se encontrar literalmente coberta de cubres amarelos (solidago sempervirens) na orla costeira, e decerto não das exóticas hortênsias azuis, como sucede hoje, mas que parecem ter achado nessa ilha, como um pouco por todo o arquipélago dos Açores, o seu verdadeiro lugar ao sol. Sol suavizado, é certo, no caso da mais ocidental das ilhas, pela humidade constante, chuvas abundantes e vento fresco, pois poderia ter sido Flores também chamada a ilha das brumas eternas, ou aquela que dá de beber ao mar, segundo um poeta... com igual propriedade.

Nas zonas mais altas, geralmente acima dos 500 metros nos grupos central e oriental - no ocidental, a menos do que isso - observaram, aflitos (como é que se vai arrotear isto?) a floresta a que hoje nos referimos quase postumamente como laurissilva, ou floresta de louro e cedro, pois dela agora pouco resta, a não ser nos locais menos acessíveis das ilhas (*), como por exemplo a daqui bem próxima serra da Tronqueira [na ilha de São Miguel]. Árvores centenárias, algumas de preciosa madeira, arbustos e vegetação rasteira, (quase) tudo acabou por ser minuciosamente derrubado, desbravado e desmontado, numa actividade a princípio lenta e penosa, tornando-se mais rápida e descuidada com o melhoramento dos utensílios e o advento da perniciosa mania de que o que vem de fora é que é bom, e que levaria à introdução de muitas espécies alienígenas e agressivas para a flora local. Desta, onde estão agora os cedros do mato - em alguns locais conhecidos por zimbreiros ou zimbros – os loureiros, vinháticos, paus-brancos (ou paus-branqueiros), sanguinhos, azevinhos, tamujos e folhados, e quem os conhece hoje? A queiró (ou urze, nalgumas ilhas) lá se foi aguentando e é das poucas relíquias da laurissilva que pertence ao nosso quotidiano; a faia da terra também, até certo ponto, e devido talvez à sua utilização como abrigo para plantas fruteiras.

Muitas destas espécies são endémicas, ou seja nossas e só nossas; a algumas foi-lhes dado até o nome que entre todas as plantas deste mundo as distinguirá: Laurus Azorica, o loureiro açoriano; Erica Azorica, a nossa urze ou queiró; Picconia Azorica, o pau-branqueiro de nobre madeira; Frangula Azorica, o sanguinho de flor vermelha, etc.

O olhar do passante recai na mesma, nos dias de hoje, sobre o verde profundo das árvores, mas praticamente só distinguirá as exóticas Cryptomeria Japonica de crescimento rápido, sob as quais pouco ou nada consegue sobreviver, alguns Eucalyptus Globulus e abundantes incensos, Pittosporum Undulatum, também ao que parece introduzidos inicialmente para abrigo de pomares. Verá também outras colonizadoras eficientes, como as canas, Arundo Donax, a ornamental e competitiva Hydrangea Macrophylla, mais conhecida decerto por hortênsia ou novelão, de que atrás já se falou, e as atraentes conteiras (em algumas ilhas, roca-da-velha ou cana-roca), Hedychium Gardneranum, que lá por serem bonitas não deixam de ser também uma boa peste de erva, e a pior das ameaças para a pobre e açoriana laurissilva.

Fui buscar boa parte destes nomes, científicos e sonoros, já se vê, a um pequeno e muito útil livrinho, pois a única coisa aqui que é da minha especialidade é a verificação diária da (quase) geral indiferença pública e privada pelo desaparecimento das “azoricas”, quer sejam vegetais quer não. Entretanto, dois aspectos me chamaram a atenção logo à partida no dito livro. Em primeiro lugar, o facto do seu autor ser um estrangeiro - o sueco Erik Sjögren; e em segundo, uma das frases com que inicia o seu precioso trabalho: este livro foi elaborado para turistas que se encontrem no arquipélago dos Açores ou planeiem visitá-lo...

Para turistas. E ainda há quem negue que quem está de fora vê melhor, e rapidamente se apercebe daquilo que a casa gasta. Depressa terá constatado Erik Sjögren que os açorianos não se ralam excessivamente com as azoricas.


Maria Antónia Fraga

(*) E, nas Flores, junto das casas, praticamente ao nível do mar. Há mesmo, nessa ilha, quem tenha o seu zimbreiro no pátio... estas linhas foram escritas na ilha de São Miguel, onde infelizmente os restos da laurissilva só se conseguem encontrar em altitudes elevadas.

Este artigo foi (originalmente) publicado no blogue «Janela de Guilhotina» e também no jornal «Correio do Norte».

10 comentários:

Anónimo disse...

Desci no ano passado a Serra do Topo a caminho da Fajã de Santo Cristo.
A forma estratificada como os endemismos se distribuem é bem marcada.
A partir de certa altitude, começa a aparecer faia do norte, cana-roca e hortênsias, criando outro tipo de ecossistemas.
Ambos tem a sua beleza.
É preciso é que o introduzido não ocupe por completo o lugar do nativo, que há mais de oito milhões de anos aqui nos Açores se desenvolve.
Os açorianos, ao contrario do que Erik Sjögren supôs, ralam-se cada vez mais com as suas azoricas.
O facto da maioria serem jovens, constitui um bom pronuncio.

Anónimo disse...

Mais uma vez chamo atenção dos responsaveis que mandaram plantar aquelas arvores na Maralha alta no Porto das Lajes para o perigo das raízes rebentarem com a muralha. Com esta é a terceira vez que aviso e será a ùltima, e depois do mal acontecer não digam que ninguem avisou.

Anónimo disse...

Quando as raízes rebentarem com a muralha, o diligente anónimo das 14:29 já anda no outro mundo!
O lema é este: quem vier a seguir que se amole. Nas Lajes, na falida Calheta de S. Jorge e por este país fora.
É por isso que a prosperidade de duas gerações pós-abrilinas despeja agora miséria pela nossa cabeça abaixo!

Anónimo disse...

Algumas destas plantas endémicas em Ilhas como as Flores nunca mais serão extintas nem incomodam outras podiam ser extintas já tipo queiró que andam a proteger sabe-se lá porque pois a unica coisa que serve hoje em dia é para fazer um bom churrasco.Outras há que chamam de invasoras tipo a cana roca que quando estão floridas são belas e deixam um aroma no ar muito agradável, e são nos invernos rigorosos como este um alimento para o gado bovino e quase toda a gente com alguma rseponsabilidade mas sem responsabilidade nemhuma quer extinguir ,mas vai ser muito dificil ainda bem

Anónimo disse...

Eu tenho conhecimento daquelas árvores que se encontram na muralha alta no porto Comercial das Flores,e sabendo que suas raízes se alargam rápidamente e detroi-em tude à sua volta em poucos anos.Sei de algumas Ilhas em que foi plantada as ditas árvores e acabaram por cortalas estava a destruir os passeios e a própria estrada.

Anónimo disse...

AS árvores tem nome metrozidos

Periquito Faial disse...

Metrosideros são arvores belas, frondosas, de porte elegante e soberbo, mas realmente as suas profusas raizes, ao fim de uns anos começam a vir à superficie rebentando com tudo à sua volta...

Anónimo disse...

Eu não estou a viver nas Flores e gostaria de saber quem mandou plantar aquelas árvores em cima da moralha.

Anónimo disse...

eu estou triste por saber sobre aquelas arvores que se encontram em cima da muralha no porto das Lajes.o que mais triste ainda é saber que meu avô trabalhou muito nos anos 40 na sua construção e ele quando era vivo me contava estoria sobre o grande trabalho que ali está feito e de onde tinha vindo a pedra e ficarei ainda mais triste que daqui alguns anos se ainda estiver vivo ver aquela moralha toda rebentada pelos raizes.

Anónimo disse...

Estão a fazer uma tempestade num copo de água ,deixem as árvores dar uma sombrinha durante o verão que quando chegar o inverno moto-serra para a sepa e acaba-se o problema que não é problema tão simples de resolver