terça-feira, 27 de abril de 2010

«Brumas e Escarpas» #5

O Fio: parte II - A recolha e tosquia das ovelhas

Ao chegar junto do “curral” das ovelhas, as mulheres poisavam os cestos e os cabazes sobre a relva demarcando o território necessário à colocação de utensílios e gado. As mais lestas corriam para apanhar as áreas melhores e mais próximas do “curral”, enquanto as outras escolhiam os sítios mais abrigados. A relva perdia o verde e transformava-se num tapete multicolor, salpicado de pessoas, de toalhas, de cestos e de cabazes.
Os grupos de homens que haviam caminhado de manhã, regressavam agora juntos, com o rebanho, enquanto outros formavam uma espécie de cordão com o fim de impedir a fuga dos ovinos. Uma enorme algazarra, misturada com o latir dos cães, começava a ouvir-se. Os grupos haviam-se juntado, no cimo da ladeira da Burrinha e conduziam um enorme rebanho do Rochão do Junco ao Rochão Tamujo, onde ficava o “curral”. De repente, este enchia-se e transformava-se num espesso e denso manto negro e branco. Um dos Cabeças fechava o portal e dava ordens para que todos saíssem.
Os homens esfomeados, a arfar cansaço e com as roupas encharcadas de suor e humidade procuravam familiares e comida. Todas as famílias se sentavam ao redor dos seus cestos e cabazes petiscando as diversas vitualhas que até ali tinham sido transportadas.
Depois de retemperadas as forças com a primeira refeição, homens, mulheres e crianças chegavam-se para a orla do “curral”. Uma vez dada a autorização, cada qual entrava e procurava os animais que tinham assinalado nas orelhas o sinal denunciador de lhes pertencer: “Na direita, forcada e troncha com três mossas. Na esquerda, troncha fendida com mossa”. Repetia vezes sem conta meu pai a meus irmãos mais velhos a fim de que não pegassem em ovelhas que não nos pertencessem.
É que cada família da freguesia, possuidora de ovelhas bravas no baldio, tinha, por tradição hereditária, um sinal constituído por um conjunto de marcas diversificadas nas orelhas dos animais, que os identificavam como sua pertença. Assim os homens e os rapazes desciam ao “curral” e procuravam o seu sinal nas orelhas de quantos ovinos lhes passavam pelas mãos, até encontrar os que lhes pertenciam. Depois, amarravam-lhes pés e mãos e entregavam-nos a um familiar que os ia, sucessivamente, aconchegando, no sítio que inicialmente havia sido demarcado e onde sobravam os restos da comida, enquanto o “curral” se ia esvaziando lentamente. Por fim ficavam apenas os cordeirinhos e uma pequena quantidade de carneiros e ovelhas, que haviam escapado às recolhas anteriores.
Em seguida, os homens, regressando aos seus locais, munidos de tesouras bem amoladas, iniciavam a tosquia, enquanto as mulheres enchiam a lã em cestos e sacos.
Uma vez tosquiada, cada ovelha era testada: se não desse leite, libertava-se na direcção do baldio, caso contrário era sinal de que tinha cria a qual, muito provavelmente, estaria no “curral”. Era necessário procurá-la e só a mãe a poderia identificar. Por isso os donos amarravam aos pescoços das presumíveis progenitoras lenços ou panos de cores diversas e facilmente identificáveis pelos donos, atiravam-nas de novo para “o curral” e colocavam os mais pequenos à espreita. O vigia nunca podia perder de vista a sua ovelha a fim de identificar a cria logo que mamasse na mãe. O dono saltava para o curral e apanhava ovelha e cria, desenhando nas orelhas desta as marcas que a identificariam como sua pertença. No próximo Fio, já feita carneiro ou ovelha, seria facilmente identificado pelo proprietário.
Por vezes era necessário a intervenção dos cabeças para julgar os “batoteiros” que se apoderavam de crias que não lhes mamavam nas ovelhas, negando-lhes, assim, o direito às que de facto não lhes pertenciam. Os carneiros e ovelhas sem sinal, bem como os cordeirinhos que sobravam sem mãe eram arrematados pelos cabeças.
Tosquiadas todas as ovelhas, e despejado o curral, homens e mulheres voltavam a sentar-se na relva amachucada por pessoas e gado para novo repasto. Depois, carregando sacos e cestos de lã e um ou outro carneiro para abate, iniciavam o regresso a casa, calcorreando atalhos e veredas, até ao cimo da rocha. Finalmente a descida, enquanto o Sol amarelecido e avermelhado se ia escondendo no horizonte até o dia escurecer por completo.
Dentro em breve chegariam as noites longas de Inverno e os serões, durante os quais se cardava e fiava a lã. Enquanto os homens batiam a sueca, algumas mulheres, puxando as cardas, transformavam a lã em fofas pastas, enquanto outras, rodopiando o fuso com destreza, transformavam as pastas em fios que, depois de dobados, ou entravam na “urdideira” e mais tarde no tear para se tecerem mantas e cobertores ou eram tricotados por mãos mágicas transformando-se em casacos, “sueras” e peúgas.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado [5, 6] no «Pico da Vigia».

6 comentários:

DR.PARDAL disse...

Agora já não se faz roupa, nem colchas, nem cobertores, nem agasalhos e até já não se recebe as barricas com roupa da América.

Agora é tudo dos chineses.

Qualquer dia a bandeira da China está no Monte das Cruzes.

Já teve mais longe...

Anónimo disse...

Hardlink
--já pensei nisso tudo.
E muito mais. Isto faz parte do glorioso 25 de Abril. Liberdade!

Quando a liberdade é demasiada, tudo passa a ser válido, até os homosexuais se casam.

Depois veio a UE e o dinheiro todo da mesma cor. Um só valor em toda a Europa. Os chineses é um tal saltar p'ra dentro...

Para eles, toda a quinquilharia
é importada da China, (por isso eles abrem muitos negócios.

Os chineses, muito pachorrentos, fazem tudo de perna encruzada e ganham centavos à hora.

Até por cá, neste país onde há de tudo e, -muito disso tudo- vem da China e doutros países asiáticos.

E o alho ?!.da familia 'tubérculo'
a que agora os chineses resolveram
já vir descascado, limpinho, que se mete no frigorifico sem precisar descascar alhos..

Não me admiro nada, de na grande ilha de S. Miguel,eles importam quase tudo.Já ninguém quer trabalhar. Agora pergunto eu: Porque será que chineses,e outras
nacionalidades da Ásia estão a invadir os Açores? Eu não sei; mas deixo esta pergunta para quem souber explicar.

As nações têm pactos umas com as outras. Mas, qual será o pacto que Portugal se compremeteu para todo o [bicho do buraco]entrar pelos Açores dentro?
Não sei!
Alguém saberá qual a razão?!..

DCA

Anónimo disse...

Os comerciantes das Flores que vendiam roupas e sapatos ou enriqueceram ou entam já não enriquecem porque os chineses vão dar cabo deles todos e para lá vamos porque eles tem de tudo como é que eles recebem tanto em todas as viagens é que eu não sei aonde metem tanto.

Anónimo disse...

senhor presidente da camara das lajes quero-lhe pedir um favor. mande plentar arvores ao pé daqueles bancos naquele novo jardim ao lado dos correios.assina o sempre atento para o melhor do concelho das lajes.

Anónimo disse...

Na minha opinião, os jardins das Lajes, estão muito bonitos tais quais como são.

Anónimo disse...

quando o partido socialista entrar para a camara de certeza que o presidente vai mandar plantar umas arvores.