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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Saudade e Poesia #11

Coitada da Lagoa Funda

A Funda tem água suja
Da Ribeira do Cabouco;
Que algum mau e rabuja
A sujou de pouco a pouco.

Diz-se que alguém das Lajes
Chamou investigadores;
P'ra desvendar os ultrajes
Feito por desbravadores...

Alguém meteu-se em casa
Depois da tamanha asneira;
Vejam se a Lagoa Rasa
Está da mesma maneira?

Fica suja quando chove,
Levando a terra mexida
Tal pecado; até comove
Quem já partiu desta vida...

Se não fizessem favores
A amigos ou alguém...
Hoje a Funda tinha as cores
Que a Lagoa Rasa tem!

Ao ver isto até me dói
É triste, mas é real:
Quem governa até destrói
A BELEZA NATURAL!

Não foram para lá tropas
Nem aviões nem navio;
Alguém está metido em copas
Cala-se e não dá um pio...


Denis Correia Almeida

domingo, 20 de novembro de 2011

«Miscelânea da Saudade» #15

Voltando ao tempo da Guerra

Não entramos em guerra; mas antes tivéssemos. Quando rebentou a Guerra em 1939, Salazar para fugir com o "rabo à seringa" declarou-se neutro a Hitler, mas foi um neutro falso. Sim, um farsante fingido, porque ele abriu a base militar da Terceira e de Santa Maria para abastecimento dos inimigos de Adolf Hitler. Como quem diz: "não entro na guerra mas vocês que se sirvam..."

No mar das Lajes das Flores, mais propriamente no calhau da Dura, como chamávamos, lugar mais do meu conhecimento e perto de casa, encontravam-se alguns 'fardos de borracha virgem', assim designados. Cheguei a ver dois; e por sinal bem perto de mim. Como rapaz que era, não tive acesso a nenhum. Mesmo que tivesse, seria inútil porque não saberia o que havia de fazer com eles. Jangadas com sobreviventes de barcos afundados ainda por submarinos nazis, fui testemunho duns poucos. Nas Lajes, à revelia do mar e a favor dos sinistrados, apareciam jangadas de noruegueses, ingleses e outras nacionalidades.

Todos estes náufragos eram ainda resultado dos submarinos alemães, que mesmo a saberem que a "sua Alemanha" já estava entregue à bicharada retinham-se debaixo de água e iam fazendo das suas... Em Ponta Delgada (São Miguel) isso também se deu e a Guerra já havia terminado e Adolf Hitler estava morto.

Quando estas jangadas arribavam aos calhaus ou ao porto das Lajes, por vezes com 7, 8 ou mais náufragos, algumas famílias mais abastadas acolhiam-nos nas suas casas. Lembro-me de em casa de António Garcia Vieira (o senhor Garcia), assim conhecido, ficavam lá de dois a quatro naufragados. Como eramos religiosos, eles viram-se obrigados a seguir os seus acolhedores para a missa do domingo, notando-se mesmo que estavam a fazer a vontade de quem lhes dava de comer. Já na igreja, roíam as unhas e a pele queimada do sol nos dedos, devido a dias a fio terem andado expostos nas jangadas que, se o mar embravecia revirava-as, tendo elas abastecimento de sobrevivência dos dois lados; neste caso, eram pastilhas feitas à base de leite ou uns cakes de outros nutrientes que se encontravam dentro de cada lado da jangada.

As comunicações para o seu retorno, eram enviadas através da rádio transmissor, ou seja, a Rádio Naval das Lajes. Não muito a partir daí, apareciam barcos de guerra provenientes das suas nações, que os recolhiam em mar alto fora do Porto das Lajes.

-- continua --

Denis Correia Almeida

sábado, 22 de outubro de 2011

«Miscelânea da Saudade» #14

Aqui por estas comunidades portuguesas, em volta dos grandes lagos do Ontário, a democracia destas pessoas é parecida à crise da classe trabalhadora da superfície externa de Portugal continental, que se encontra espalhada por ilhas como por exemplo os Açores, que só fala nos jornais e na televisão, porque à noite os bares andam cheios desses que se queixam durante o dia.

Eu cá não vejo, mas ouço de alguns que vão aos Açores e voltam dizendo: "qual crise! as tabernas e cafés estão sempre cheias". Outros dizem um pouco diferente: "oh homem! eles têm que beber para esquecer as complicações da vida". Segundo o que leio nos jornais dos Açores, quem se queixa mais são os empresários de hotéis, que dizem que este foi um ano mau por causa da crise. Bom, deixemos isso. O que me fez esgatanhar estas linhas foi a minha estória sem história.

Há três dias, quando noticiaram que o líbio Muammar Al Khadafi foi morto, lembrou-me Adolf Hitler quando teve o "seu Natal" anunciado. Esse bípede de dimensões variáveis, porque não era verdadeiramente mau p'ra todos, era um protegido ou vice-versa do professor do Vimieiro, do concelho de Santa Comba Dão, que preferiu deixar-nos às escuras, a comer pão feito de farinha amarela e cheia de gorgulho, do que negar tudo isso e ter que marchar com a mochila às costas.

Mesmo cobardemente, fazia-o. No meu tempo de rapazote, com 9 anos, os meus neurónios eram mais do que alguns gravadores modernos. Tudo o que entrava pelos olhos e ouvidos, ficava dentro desta bola que ainda se encontra agarrada a este pedaço de tronco que já foi gente.

Havia uma família do Continente hospedada temporariamente em casa das senhoras Nunes. Era o senhor Pinheiro, sua esposa, dois rapazotes e uma moça de 17 anos, qual nome ainda me lembro, Estela. Ele era faroleiro na Rádio Naval. Eu e os filhos, um pouco mais velhos do que eu, andávamos sempre na brincadeira; ora em casa deles, ora no farol com o pai.

A Guerra de 1939 por essa altura estava a terminar. Do Continente português para a Rádio Naval chegara umas revistas a preto-e-branco, anunciando a morte de Hitler. Na capa da revista trazia a foto do féretro de Adolf Hitler. Caixão aberto e cara branca cor de cal; teso como um balhau, mas bigode sempre preto. Fiquei com uma revista em casa. Não aqueceu lugar. O senhor Pinheiro muito agoniado pediu-me a revista p'ra tràs. Salazar deu ordens para recolher o envio de todas as revistas da guerra, principalmente as que anunciavam a morte do tirano...

-- seguimento no próximo número --

Denis Correia Almeida

sábado, 20 de agosto de 2011

Saudade e Poesia #10

Se tivessem asas seria pior

Olho e vejo bando de gaivotas no espaço,
Em círculos, todas juntas quando voam;
Passam rente uma à outra, não se magoam,
Dá-me inveja quando em caos eu não o faço...

Mas os homens deviam sentir embaraço,
Colidir, e zangarem-se em vozes q'ecoam,
Com blasfema e palavrões que alto soam,
Estando o caminho já marcado a legal traço.

Se o humano seguisse o exemplo dos animais,
Que não colidem no seu voo, mesmo de enxame
Mas o homem quando coduz pensa ter asas;

Percorre o caminho dividido, e com sinais,
Se dantes caducou, passa agora no exame,
Sai qual touro, entra no carro, esborralha casas...


Denis Correia Almeida

quinta-feira, 28 de julho de 2011

«Miscelânea da Saudade» #13

Depois de uma longa pausa, por razões de saúde, paulatinamente volto a escrever para o «Fórum ilha das Flores». Também cessei de colaborar com outras publicações que costumava fazê-lo pelo menos uma vez por mês. Com excepção de ler jornais de toda a espécie, como alguns sites da internet, como notícias, ou até o Facebook, que lá vou muitas vezes sem interesses; isto no sector da leitura.

Por falar em notícias, muitas das vezes, antes não as ler. Quando tomamos conhecimento das desgraças que há por este Mundo, ficamos deprimidos e, claro, a pessoa deprimida fica desencorajada de muitas coisas. A fome e a desgraça que ultimamente tem grassado a Somália. Crianças a morrer de fome, ou com doenças venéreas, porque realmente não as podem evitar por falta de conhecimentos, medicamento, alimento e higiene, sendo um povo que na maioria nasceu e cresceu deseducado. Mesmo que haja alguns com mais conhecimentos, estes desaparecem do meio dos que nada sabem, deixando-os atrás, como algum sem consciência, que criou um cão, mas este envelheceu e o dono para não se chatear, nem lhe deu uma morte digna, deixando-o atrás para morrer sobre si mesmo.

Se lermos ou ouvirmos notícias de criminologia, como a carnificina do criminoso da Noruega, que chacinou tantas vidas inocentes, sem ter razão para o fazer, faz-nos
lembrar um cantinho de paz, como por exemplo os Açores, que por enquanto é um lugar onde sentimos que apalpamos a natureza. Por falar nos Açores, lembrou-me da Festa do Emigrante que, como todos os anos acontece na terceira semana de Julho, penso. Se algum dia for às Flores, quero ir na primeira semana de Maio como sempre fiz, com excepção da última vez que estive na Festa do Emigrante e gostei mas, não me excita muito. Prefiro a calma e a natureza das coisas.

Termino este curto texto, pensando que no próximo futuro terei mais para dizer.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

segunda-feira, 31 de maio de 2010

«Miscelânea da Saudade» #12

Um romeiro apaixonado

Consta a estória verbal que, em tempos muito antigos, quando os romeiros faziam o percurso duma semana de sacrifício a pé, como hoje, muitos deles iam descalços, ou então com alpercatas feitas de borracha de rodas usadas de viaturas, ou sandálias feitas de corda de espadana conhecido por 'tabúa'* nas freguesias nortenhas da ilha de São Miguel. Depois desta dolorosa penitência, ao regressarem a casa, alguns ficariam sob tratamento de remédios caseiros e sem poderem trabalhar por alguns dias.

É preciso não esquecer que a "guerra ao pé descalço nos Açores", principalmente em Ponta Delgada, deu-se por volta do começo de 1950 do século passado. Em São Miguel, dentro da cidade, eu ainda cheguei a ver alguns mestres irem para o trabalho descalços. Na mesma cidade, fui testemunha de quando se iniciou a guerra ao pé descalço, assim denominada pela sapataria Ele e Ela, em Ponta Delgada. Esta campanha foi seguida por vários estabelecimentos do mesmo género.

Gradualmente, mas com certa ligeireza, o preço do calçado passou a ser tão acessível que poucos foram os que ficaram sem comprar sapatos; 'tudo' passou a ter sapatos. Viam-se alguns caminhantes com os sapatos dependurados aos ombros, um p'rá frente e o outro p'ra trás das costas. Isto, derivado ao esfolamento dos pés. Sabemos que o pé que anda descalço, geralmente é muito mais largo do que o que anda calçado, fazendo com que os calcanhares e o dedo mindinho do pé sofram pelo aperto.

Lembro-me de ouvir que muitos compraram sapatos e continuaram a andar descalços. O estreador dos sapatos, se andasse com eles conforme a qualidade do pé do freguês, mais lhe valia andar descalço do que andar no outro dia com os dedos dos pés empanados. Eu vi alguns estreadores de sapatos que no fim do dia regressavam a casa como quem vinha duma procissão com os sapatos à tira-cola e a manquejar. Também fui um dos tais que comprei um par de sapatos para ir à primeira Festa do Santo Cristo. Isto em Maio de 1951, tinha eu 14 anos e havia chegado das Flores há um mês. Também voltei das festas com os sapatos às costas e a manquejar. Eram sapatos de pelica muito dura que deixava muitos aleijados. Os melhores sapatos eram os de lona, também reles, mas melhores do que andar de pés no chão.

Vamos agora ao couro da vaca-fria, o dito caso dos romeiros: como já devem saber, a pernoitada dos irmãos romeiros nas freguesias supostas, inicia-se com o tocar da campainha do mestre dos romeiros, solicitando aos residentes da terra, acomodação para os irmãos. Nunca fui romeiro, mas sei disso. Uns, acomodavam um romeiro; outros, dois; e por vezes, três; e assim sucessivamente.

Em certa casa entrou apenas um romeiro, porque a família e a casa eram pequenas. O romeiro, um tal moçetão descalço, solteiro e forte, de 24 anos. Era muito vaidoso da sua força. A filha do casal, com 22 anos, muito linda, solteira, viva e fresca, tinha um desembaraço de admirar. Pois tinha sido ela mesmo quem o resgatou do rancho dos romeiros ao ouvir a campainha. Já dentro de casa, seguiu-se a introdução dos pais ao penitente romeiro. Nessa tardinha de recepção acolhedora, foi ela a anfitriã do hóspede religioso, enquanto os pais lhe preparavam a cama, ela foi p'rá cozinha.

À chamada dela, o rapazão entra na cozinha. Já o caldo de couves se encontrava a fumegar sobre a mesa. Enquanto ele saboreava o quentinho caldo, a jovem trouxe-lhe uma selha com água bem quente para ele ir adoçando os pés, enquanto comia as couves. O nosso romeiro, apaixonadíssimo pela donzela e, talvez, ela por ele; quem sabe?. De repente, mete os pés na água bem quente, enquanto ela grita: "não! não!... espera; eu esqueci de por água fria. Trago-a já para destemperar essa que estava já quase a ferver!", disse ela. "Deixa lá mulher; eu sou forte; quanto mais quente melhor". "Então, a água não estava bastante quente?", pergunta ela. "Sim, estava quente, mas como sou rijo, gosto da água bem quente!", dizendo isto para impressionar a moça, quando ela já trazia de novo a chaleira de ferro com a água aos pulos a ferver. Avisa ela: "desvie os pés, olhe que esta agora está mesmo aos pulos!. "Não faz mal! Deite a água quente p'ra cima dos pés; eu aguento tudo isso e muito mais!". "Credo Pai do Céu!!! Que homem forte é este!", exclamou ela ao despejar a chaleira de água a ferver sobre os pés dele. Nesta altura que a água a ferver lhe cai sobre os pés, respinga-lhe duas lágrimas dos olhos, para acompanhar a agonia disfarçada num sorriso forçado que ele mostrou à rapariga. Os olhares encontraram-se. Se nessa altura, alguém entrasse na cozinha e visse tal cenário, diria que ele estava a desfazer-se em lágrimas de amor por ela.

Pronto! Ceia terminada; pés escaldados, assim partiu o romeiro p'rá cama. Ela não queria acreditar no que os seus olhos haviam visto. Ao pegar na selha para despejar a água, com uma mão abafou um grito, por ver algo no fundo da selha. De olhos muito arregalados, encontra as dez unhas dos pés do convidado rapazão.
Mas ele era um moço forte; lá isso era.


* - as sandálias de corda de tabúa usavam-se nos tempos muito antigos.

Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá
hardlink@aol.ca

quarta-feira, 5 de maio de 2010

«Miscelânea da Saudade» #11

Análises, recordações e Saudade

Desde que me lembro até há trinta anos atrás, sempre fui devoto do Senhor Santo Cristo dos Milagres e do Divino Espírito Santo. Aliás, ainda continuo a ser, com parte evaporada...

Cá, nas minhas muito próprias palavras e expressões, por esta altura do ano confesso que ainda sou um fervoroso das Festas do Senhor Santo Cristo. Penso que o meu maior sentimento é a saudade, respeito e, talvez, um traço de profanidade de me querer juntar à festa.
No decorrer de mais de três décadas, a minha fé e veemência calorosa dissipou quase por completo, sobrevivendo apenas o que está muito além do alcance da ciência. A existência dum ser infinito, determinado quiçá, pela obscuridade do meu subconsciente, que também me é desconhecido, mas penso existir algures. Poderia ajustar melhor a minha perplexidade, e atribuir tudo ao agnosticismo que envolve as minhas dúvidas a maioria das vezes. No entanto, afasto-me já, deixando (hope) para quando calhar concluir.

O Senhor Santo Cristo dos Milagres, muito próximo estará nos corações dos devotos do Seu culto que mais uma vez os visitará e, nem só na ilha de São Miguel, porque também temos réplicas do Senhor Santo Cristo por este Canadá todo. A Sua ‘santa imagem’ encontra-se distribuída por quase todas as comunidades da diáspora. Apesar de não ser crédulo, de uma candura extrema, também sou possuidor d’alguma ingenuidade, porque todos os anos por esta data, me dá saudade das Festas do Senhor Santo Cristo e as do Divino Espírito Santo.

Por haver falado nas Festas do Espírito Santo, padroeiro dos nossos Açores, Ele está já a dobrar a ‘esquina da rua’ para confirmar a fé dos seus devotos, alegrar corações e entrar em muitas casas, mesmo com festas pomposas, religiosas ou profanas. Era por esta altura do ano, quando eu percorria a ilha de São Miguel, ora a cantar pelas folias, ora na distribuição de pensões pelas portas, tendo por companheiro o já falecido e saudoso cantador: João Plácido, da Lombinha.

Desde a Pedreira do Nordeste a todas as Lombas da vila da Povoação, deixaram bem vincadas profundas recordações dentro de mim.
Em memória do meu falecido companheiro João Plácido, quero reavivar a alguns que ainda [devem] ser vivos, uma passagem que se deu em 1964, um ano antes de vir p’ró Canadá, pelas festas de São Pedro, no alto da Lomba do Cavaleiro. Estando eu e João Plácido dentro do autocarro, para uma cantoria na Lomba do Cavaleiro, pelas Festas de São Pedro, o condutor (ou alguém) se apercebeu de nós, e o autocarro parou; o condutor levanta-se e diz ao microfone: senhoras e senhores, temos dentro deste autocarro dois improvisadores que vêm cantar à Lomba do Cavaleiro: o sr. João Plácido, da Lombinha e o sr. Denis Correia, dos Arrifes. Pedirei por favor a cada um deles que improvise uma quadra à nossa linda Povoação:

João Plácido: As terras da Povoação / É mesmo uma maravilha / Daqui é que sai o pão / P’rá maior parte da ilha.

Denis Correia: Uma Vila e sete Lombas / Para mim não são estranhas / Parecem ser sete pombas / A voar pelas montanhas.

Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Diário dos Açores».

sexta-feira, 23 de abril de 2010

«Miscelânea da Saudade» #10

Lembranças sem Saudades
(passagem verídica com reticências)

Pela semana do Natal de 2009, fez pelo menos 42 anos que esta inédita e verídica estória se passou na cidade de Toronto, Ontário, Canadá. Isto nos meados da década dos anos 60 do século passado.

Havia eu chegado a Toronto, no último trimestre de 1965. Por esta altura, foi a época em que chegaram centenas de visitantes portugueses, homens sem suas famílias, como também algumas mulheres [sozinhas e aventureiras] poucas; mas vieram. De todo o lugar onde o português era falado, veio um consistente dilúvio de pessoas, mais propriamente dos Açores e Continente português. Eles chegavam ao aeroporto de Toronto, como viessem definitivamente para o Canadá, porque a entrada no Canadá era facílima.
Do Brasil vieram muitos. Quase tantos como de Portugal. Quando digo Portugal, é de lembrar que a maioria veio dos Açores. Eles registavam-se na entrada, no departamento de emigração, como vindo visitar familiares, mas a maioria nem parentesco cá tinham.

Como a maioria destes visitantes não sabia falar inglês, precisavam de alojamento e comida. Convinha-lhes um lugar onde se juntassem todos perto uns dos outros, com acomodação de cama e restaurante perto, se possível fosse. Tentavam ir para áreas de portugueses com tasca sua e de de baixo preço para refeições ligeiras. Uns ficariam alojados em quartos de casas particulares adjacentes a restaurantes; outros, no segundo piso dos próprios estabelecimentos.

Para abreviar a estória, entro imediatamente no cerne dela, sendo esta a razão principal deste texto, não deixando indícios que possam expor os seus personagens à superfície, tendo a certeza que não há vestígios que os possam identificar.
Na altura do acontecido, houve algumas línguas más que estigmatizaram outras bocas ruins e fizeram entristecer familiares como também amigos que mantiveram segredo, mas claro com 'derrames'... Todavia este incidente embaraçoso e doloroso que irei narrar, tentarei obscurecer o mais possível, entrecalando-o com nomes fictícios, usando aspas e reticências para despistar atribuições erradas... Contudo isto, as coisas poderiam ter-se agravado muito mais, mas felizmente ninguém morreu do acontecido. Não houve fatalidades.
Para dar procedência à narrativa, usarei despistes muito desviado do epicentro. Termos de expressão e sinais gráficos serão empregados para dissimulação e "coação de resíduos verbais" de alguma crítica antiga, dos artistas da multiplicação infamadora, que nada absolveu mas que acha justo criticar e fazer notório, cochichando acontecimentos infelizes... Filtrarei apenas o mais aproveitável, fazendo transparecer o suficiente do acontecido, vendo-se bem pelo "entreaberto" sem escancarar a porta...

O restaurante do Sr. Chaves andava sempre à cunha de novos [emigrantes] chegados. Ora para refeições, cafés bate-papo, ora para pesquisar pousada, quiçá as duas coisas.
Um Sr. Jerónimo, dono duma casa nas redondezas, havia alugado um quarto a um recém-chegado no segundo andar da moradia. No mesmo piso já havia outros dois inquilinos que também eram portadores de "passaporte de visitas". Todos eram amigos e viviam em harmonia com a família da casa. A casa era muito antiga, com apenas uma casa de banho completa no segundo andar, onde estavam os inquilinos. A outra casa de "banho", pela infelicidade da sua estrutura, estava por acabar na (cela) cave da casa, mas sem banheira, que serviria temporariamente o suficiente para acomodar os donos.
No princípio era mesmo assim, vida dura. Trabalhar de dia e noite e arrendar parte da casa que lhes fazia falta, em ordem de superar as grandes despesas, por via dos flácidos salários.

O dono da casa o Jerónimo, muitas vezes, para conveniência sua, subia o piso de cima e tomava banho na única banheira que na casa havia. Já com o Natal a "virar a esquina da rua" nesse dia, pelas 6 da manhã, com todos ainda dormir e o Jerónimo na cama, com a sua cara metade, a Joana disse-lhe que, antes de ir pró trabalho, iria subir as escadas e tomar um "banhinho" na banheira do segundo andar. Dito e feito; mas, antes de ir p'ra cima, primeiro dirigiu-se à cozinha para fazer um café. Como já se fazia tarde para o banho, o cujo decidiu ir p'ró trabalho sem tomar o "banhinho" saindo imediatamente em silêncio e sem bater com portas.
Uma hora depois, a Joana, sua esposa, ouviu as torneiras a correr e estranhou que o marido ainda estivesse a tomar banho. Um tanto arreliada começou a matutar que não tivesse ele deixado as torneiras abertas... Como o pensar sem acções pouco vale, a Joana levantou-se e subiu as escadas com uma subtileza de admirar, estilo exclusivo das mulheres, para não acordar ninguém. Chegando a cima, decidiu surpreender o marido, como também inquirir qual a razão da demora, por se tornar tarde para ele ir para o trabalho ou, talvez se esquecesse das torneiras abertas. Quem sabe?
Ao ver a porta da casa de banho um pouco entreaberta e algum vapor da água quente a sair pela abertura, a Joana muito subtil, entrou sem ele se aperceber e, como todos os "gatos são iguais ao escuro, pelo menos por detrás", com muito cuidado aproximou-se enquanto "ele" estava nu debruçado a lavar a banheira. Como acima foi dito, o quarto estava cheio de vaporização da água quente - coitada da senhora. Nisto, ela mete uma mão no meio da "privacidade" dele, para lhe pregar uma surpresa, ao mesmo tempo que diz: "jingle ó bell - jingle ó bell". O homem do banheiro que era o novo rendeiro, dá um salto, grita qual-berro, enquanto a pobre senhora põe as mãos à cabeça apavorada gritando: "ai mei Deus!.. ai mei Deus!.. que desgraça é esta!", atirando-se pelas escadas abaixo, acordando os restantes que ainda dormiam.

Toda a gente acordou. A ambulância chegou, levando a Joana para o hospital com um braço partido em dois lugares e não sei quantas costelas fracturadas.

Denis Correia Almeida

Hamilton, Ontário, Canadá
hardlink@aol.com


Nota: eu estava ainda de pouco tempo em Toronto, quando um vizinho desta família sinistrada me contou o sucedido. Há coisas que nem o diabo se lembraria de as tecer.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

«Miscelânea da Saudade» #9

Desacordo do Acordo Ortográfico

Desde há muito tempo, os intelectuais, docentes e peritos das nações de língua portuguesa têm feito reuniões, para da nossa língua formarem uma só língua (escrita) porque falada é e (soa) sempre igual em toda a parte onde vivem portugueses. Pensam eles que, o português escrito com remendos novos será uma língua universal dentro do mundo onde o português é falado. Confesso e conheço que, comparado a essas pessoas, considero-me um inculto, quase analfabeto, sem preparação alguma para que possa criticar os académicos e comentar em assuntos que estão muito altos e fora do meu alcance. No entanto sinto-me frustrado se não escrever algo sobre isso.

Li, por aqui, em edição electrónica de jornais portugueses dos States, que chegaram à área de Boston no estado de Massachusetts, um grupo de estudantes universitários dirigido pela Dra. Graça B. Castanho, da Universidade dos Açores. Isto já acabou. Chegaram ao acordo!

Todavia, eles vieram dar as novidades da introdução da nova língua escrita, que vai sofrer alterações, ou já sofreu, para entrar em acção, a toda a força no próximo mês de Janeiro de 2010. Segundo a docente universitária: “quanto mais uniforme a ortografia, mais irá facilitar a promoção da língua portuguesa”. Digo como o outro dizia: Tá bonito, tá!.

Para o que abaixo irei dizer, desejo advertir que nada tenho contra o Brasil, Angola, Moçambique, ou qualquer das outras nações onde a nossa língua é falada. No entanto, estas promoções e despromoções de tirar e pôr, aumentar e diminuir torna-se ridículo, trocando acentos agudos por circunflexos, como é o caso da palavra (crónica) que será (crônica) estilo brasileiro. O acento agudo nalgumas palavras, será removido para o circunflexo entrar. Outras palavras como: acto e facto, passarão a ser (ato) e (fato) sem a letra (c) que se confunde com o substantivo fato de vestirmos; e a outra futura palavra passará a ser ato, em vez de acto. Um dia alguém escreverá: (não faz mal; eu ato o fato tudo junto) porque afinal a palavra ato, é relativa ao verbo atar, e não actuar. Parece impossível, gente extremamente instruída e armar uma (barraca) destas!

Os meses e os dias da semana, começarão com letra minúscula em vez de maiúscula. Os pontos cardiais e outras coisas mais, todos começarão com letra minúscla. Tudo isto irá mexer com o juizo a muita gente, excepto com o meu, por já me encontrar velho e inútil para remendos. Quem remenda calças velhas com remendos, no fim fica sem calças...Ou seja: a língua vai-se mas fica o vestígio dela.
A estas mudanças todas, podemos chamar: (cozinhado à brasileira) tendo todas as características dos nossos compatrícios do Sul. Não porque eu tenha algo contra eles mas, como se sabe: “a parte maior mata a menor” e é isto que se vê presentemente.

Por estas terras de Corte-Real, como mais ao Sul os nossos (porúguêzes) do tio-Sam e até nos Açores, (dizem) que, por causa dessas séries telenovelas, qual analogia linguística, a rapaziada nova e copiadora que nunca viveu no Brasil, mas assiste a esses dramas televisivos, os tais que deixam alguns maridos sem ceia, e o ferro de engomar a queimar a roupa, está invadindo o juízo de muita gente. Agora por cima, entra o desarranjo do acordo ortográfico. Qual (caldeirada de peixe) de todas as qualidades...

Fica-se de boca-aberta com esse Acordo Ortográfico, com o progenitor da Língua Portuguesa presente, aproximando-se dos outros, quanto estes é que deviam aproximar-se de nós. As alterações da nossa língua, com o põe e tira a favor dos interessados, deixa-nos sem originalidade. Esses, que durante anos, fizeram a língua portuguesa à sua maneira, adaptando novas formas mais fáceis de comunicarem, dá-nos a impressão que somos um pequeno restaurante que prepara o cozinhado ao gosto deles. A Língua portuguesa, já não era, desde há muito, e jamais será a Língua de Camões, porque os exímios, académicos e letrados portugueses, embrulham tudo. Valha-nos Deus! Na ditadura dizia-se: “óh marquês, desce cá abaixo — e eu digo: óh Camões não venhas cá, porque morrerás de novo indignado!.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá


O presente artigo de opinião foi publicado (originalmente) no «Portuguese Times» [o Jornal da Comunidade portuguesa dos Estados Unidos], edição de 23 de Dezembro passado e também no «Correio dos Açores», na sua edição de 31 de Dezembro último.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Saudade e Poesia #9

Eis de novo o Natal!

Neste Natal de Jesus,
Parece o Sol ter mais luz,
As estrelas mais brilhantes;
Cá temos mais um Natal,
Mesmo que pareça igual
São todos bem importantes.

Noite alta de vigília,
Onde em paz tod' família,
Num lar d' amor profundo;
Vão evocando orações,
Hosanas e petições
Ao Salvador do mundo.

E a lindas criancinhas,
Inocentes coitadinhas,
Alegres cheias de fé;
Logo pela manhã cedo,
Vão buscar o seu brinquedo
Que está junto à chaminé...

Até os brados dos sinos,
Nos seus toques matutinos,
Chamam assim os fiéis:
Glória a Deus nas alturas,
Paz na Terra às criaturas
Veio de novo o Rei dos Reis.



Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá
hardlink@aol.com

domingo, 20 de dezembro de 2009

«Miscelânea da Saudade» #8

Talvez [seja] por [eu] estar avançado nos anos, que seria mais fácil dizer "velho", como também mais prático do que arranjar desculpas.
Digo isto porque ando a engalinhar com certas coisas que vejo no televisor, acerca de religiões que frequentemente aparecem por cá aos fins-de-semana. Evangelistas! Assim são conhecidos. Com aquele monotelismo e táctica da autonomia deles, e frases suas quase intermitentes entre orações bíblicas, preenchidas no "meio" e a persuadir à sua moda com interpretações da forma que eles improvisam. Torna-se enfadonho e até é embirrante ouvi-los. O problema deve ser meu mas, oh meu Deus!, não há mesmo maneira deles lerem o versículo ou capítulo sem "moerem" no assunto e sem quebrarem a cabeça às pessoas? Eis uma sugestão para mim mesmo, antes que me a dêem, faço eu a receita cá de casa: se não gostas, muda de canal ou fecha o televisor.
Olhem, pronto!... Já o fiz. E como é domingo de manhã, agora passo à frente.

Naquele tempo em que eu andava por aí nas Flores, para melhor dizer, nas Lajes, os padres pareciam ser menos chatos. Isso era noutro tempo. Outra época. Já não vou à missa desde que assisti a uma por altura do funeral do meu único irmão, nos States em 1996.
Para não massacrar o juízo ao leitor, e por haver falado em missa, entro direito no assunto. Sou católico, com licença dos leitores, apenas no nome. Fui baptizado e casado pela Igreja Católica, o qual "não deu certo" e não atribuo faltas à Igreja. Esta, faz-me lembrar um cantador terceirense quando cantava à porta da igreja onde havia casado. Canta[va] ele: "Eu aqui me baptizei / Dizer-vos isto me atrevo / E também aqui casei / Ao padre favores devo". Responde o outro, que cantava ao lado dele: "Pelo padre te ter casado / Não te fez nenhum favor / Porque o padre é obrigado / A casar seja quem for".
Bem, isto não deve ser bem assim...

No meu tempo de rapazote, tempo esse em que os padres celebravam a missa com as costas voltadas para os fiéis; tempo em que se tomava a comunhão apenas com a língua, e não na palma da mão como hoje; tempo em que devíamos ser confessados para podermos comungar, mas com o estômago vazio. Tempo em que se comprava bulas, esse documento papal que permitia o católico comer carne às sextas-feiras, ou então, "comer o toucinho escondido debaixo das couves".
Tudo isto mudou! Até mesmo agora temos os apertos de mão, as felicitações a meio da missa, que será estorvo para alguns que estejam ao lado de quem não estão [bem] em termos de comunicação, têm que mudar de banco para não confraternizar ou irmanar com quem não gostam ou devem. Tudo muito bem. Agora mesmo me lembrei desta: imaginemos que um credor e o devedor ouvem missa perto um do outro. Nessa altura do aperto de mão, se os dois concordarem no cumprimento, o devedor poderia dizer ao credor: "a paz esteja connosco e está tudo pago". Gostaria de ouvir isto e ver a cara do credor, como também ouvir a resposta dele ao sair da igreja.

Ainda sobre coisas doutros tempos e religiosidade, se os patrícios lajenses, os mais antigos, imaginarem a ribeira das Lajes, na descida pela rampa, rente à Casa do Espírito Santo. A ribeira encontra-se mais abaixo, como sabem. O meu bom pai já viúvo, num sábado de manhã cedo, talvez humilhado com a triste vida e com dois [filhos] órfãos de mãe, que éramos nós, andou ribeira acima levando um cesto com roupa para lavar. Ainda era lusco-fusco, começando a lavar a roupa, ouviu umas fortes gargalhadas de escarnecimento. As gaitadas vieram de duas mulheres que se encontravam na porta do quintal "duma casa lá em cima", perto da velha Central eléctrica, recordam-se de quem era a casa? Pronto!... O homem, viúvo de poucos meses, esse meu bom pai, noutro dia, domingo, encontrou-se com o meu padrinho João Tavares Pacheco, conhecido por João Serrilha, ouvindo eu o seguinte diálogo: ó compadre; eu não vou mais à igreja, porque aquelas (.....) mulheres, essas que enfeitam a igreja todos os fins-de-semana, e estão lá todos os dias a tomarem comunhão, escarneceram de me verem lavar a minha roupa e a dos pequenos. Nunca mais vou à igreja!...

Até falecer em São Miguel, o meu pai nunca mais acreditou em tudo o que se fizesse nas igrejas. Todavia, isto não foi dissuasivo para mim, porque continuei por vários anos a frequentar a igreja e de repente, quando calhar, irei [regressar]. Também sei que isto não será dissuasão para os outros. O que mais o revoltou e dissuadiu, daquilo que dantes era, foi a atitude jocosa dessas beatas santas mulheres, sabendo-se que eram anjos efectivos da igreja e sabiam da vida complicada que tínhamos.

Com tudo isto, não faz com que eu não queira muito à minha ilha das Flores. Estando agora a duas semanas antes do Natal, para todos os florentinos e os que nas Flores vivem, desejo-vos um Santo e Feliz Natal com um Próspero Ano Novo de 2010.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá
Hardlink@aol.com

sábado, 5 de dezembro de 2009

Saudade e Poesia #8

À ilha das Flores e a todos os florentinos

Florentinos, estamos sós,
Na ilha que Deus nos deu;
Para poder sermos nós,
Porta do mundo europeu.

Sinto honra, tenho brilho
De pertencer aos Açores;
E 'inda por cima ser filho
Da linda ilha das Flores.

O Corvo; a ilha ao lado,
O único filho que tem;
Também deve ser tratado
Igualmente como a mãe.

Quem do Oeste galopa
Se quiser vir aos Açores;
Ou visitar a Europa,
Primeiro passa nas Flores.

O Governo, certamente,
Deve ter muita cautela;
E enfeitar bem a frente
Da casa, p'ra s'entrar nela.

Sendo tarde, "eles" vieram
Depois das "sete" primeiro;
Mas as últimas é que deram
Graça ao arquipélago inteiro.

Exuberante jardim
Tal posição Deus te deu;
És o princípio e o fim
De todo o mundo europeu.



Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

domingo, 15 de novembro de 2009

«Miscelânea da Saudade» #7 (parte 2)

Não sei quem é [... continuação]

No tempo da Última Guerra Mundial, os florentinos oriundos doutras ilhas, como era meu pai e meus avós maternos, sofríamos muito por não haver um palmo de terra que chamássemos nossa. Nesse tempo de crise, o da guerra, poucos lavradores vendiam milho. O que nos valia para o pão nosso de cada dia, eram umas nesgas de terras, "combradas" como [lhes] chamávamos, na rocha da "descida" e terras de "meias" que meu bom pai fazia, mas apenas para batata doce, e inhames do Vale de José de Freitas "Galinha". Para milho, era pedir uma maçaroca de porta em porta e quando tínhamos 20 ou 30 maçarocas, (lembro-me bem) debulhava-se e íamos para a Fazenda moer o milho.
Há coisas que nunca mais [se] esquecem. Os nativos florentinos de 4 ou 5 gerações, todos tinham casa sua e alguma terra; ou muita terra. Os oriundos doutras ilhas, como uma dúzia de famílias [de] que me lembro nas Lajes, tinham tanto ou pouco mais do que nós.

Ele, o Sr. Nuno Vieira, ainda fala na casa da Maria Teresa em frente à loja do sr. João Germano de Deus. A respeito da Maria Teresa, "Deus me perdoe" também lhe atirei algumas pedradas à janela para a fazer berrar, até se ouvir longe. Coitada da senhora! Hoje sinto remorso. Oh meu Deus!... Lembrou-me agora do mestre Chico sapateiro, do Outeiro Negro, que, ao sairmos da escola, levava algumas pedradas sobre a telha (eu era um dos bons de cabelo).
Também me lembro de dar uma pedrada num penico que a Anina, filha do saudoso tio João Ti'ana, levava na mão. Sobre este assunto, eu e a própria Anina falamos quando estive de visita em 1990. Rimos até chorar de riso.

Ainda sobre o José da Teresa, lembro-me de o ver e abraçar, aquando na mesma data fui às Flores. Encontrava-se juntamente com o filho da dita Vitória do Lombo, mulher do José d'América, aquela que também me fez fugir muitas vezes, depois de enviar 'pedrinhas' para as grades de ferro que ela tinha na janela. Chamavam-a a Vitória doida, coitadinha!... Quando me lembro dessas heresias, penso que ainda tenho muito que pagar...
Os dois estavam no Largo de Santo António. Introduzi-me, fazendo-os lembrar quem eu era. Abraçamo-nos; foi um momento feliz para mim.

Por essa altura, eu era assinante do extinto «Jornal do Ocidente», como também era seu colaborador. Tal jornal tinha por Director o meu saudoso amigo Sr. José de Freitas Silva. Uns tempos depois, não muito, li no mesmo jornal, já aqui no Canadá, um texto da D. Gabriela Silva, a dizer que o José da Teresa havia morrido. Segundo o relato dela, o enterro do José da Teresa não levou um acompanhante que fosse para a sua última morada. Isto doeu-me a alma.

Há muita coisa a dizer sobre recordações da nossa ilha. Mas, como já vou adiantado na escrita, o resto fica para outra ocasião.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

sábado, 14 de novembro de 2009

«Miscelânea da Saudade» #7 (parte 1)

Não sei quem é

Apenas sei que o conterrâneo florentino abaixo descrito, me fez sentir mais próximo das Flores. Da forma como escreve e descreve, talvez por serem coisas de que me lembro, nunca conseguirei dizer tanto e tão bem dito como ele diz. Não por não querer; mas por me faltar "aquilo" que ele tem...

Como gosto de ler jornais, alguns electrónicos e outros em versão impressa, em Setembro passado o [jornal] «Portuguese Times», de New Bedford, Massachusetts, do qual sou assinante, trouxe um artigo relacionado com a nossa ilha das Flores.
Mais do que o título da crónica «Notas de Rodapé», o subtítulo onde se lia "A MINHA ILHA É OUTRA ILHA" causou-me curiosidade. A entrada da leitura e a estética e forma de apresentação, tudo em letra maiúscula com diferentes dimensões na ortografia intercalada, foi o motivo que me levou a ler.
Admiro quem escreve bem; e como a forma da leitura é apresentada. Talvez por ser da ilha das Flores, prestei muita atenção ao ler as suas bonitas frases de elogio, que me faz pena de não ter aprendido para poder dizer assim, ou então, próximo do que ele diz. Ele enaltece a nossa ilha das Flores, nunca exagerando, mas valorizando e falando do muito que a ilha merece, desde as coisas mais banais à sua atractiva e natural beleza, como também o mérito que ele dá aos filhos das Flores, que fazem para que a ilha tenha progresso e acompanhe o resto do Mundo evoluído.

Todavia, o autor da crónica "A Minha Ilha é Outra Ilha", é o Sr. Nuno A. Vieira, um fazendense, da Fazenda das Lajes das Flores e, como acima digo: não sei quem é. Ele menciona lugares das Lajes e Fazenda, sim, porque dos lados de Santa Cruz, na idade que saí das Flores apenas havia ido lá duas vezes na companhia de quem me deu à luz, minha santa mãe. Se tivessem mudado o lugar da "loja do Rato" (como diziam, e eu conheci) para o Boqueirão, para mim não havia diferença porque pouco conheci de Santa Cruz. Naquele tempo, as estradas eram como atalhos tortos e pé descalço e com topadas na cabeça dos dedos.

O nosso conterrâneo, em sua crónica, falou na Ribeirinha da Fazenda das Lajes, local do seu nascimento e onde eu passava muitas vezes para ir ao moinho, que me lembro um pouco do nome dele, mas para não confundir com o da Ribeira Funda, deixo ficar assim. Outras vezes, eu ia à leitaria da ribeirinha, com o meu irmão José Maria, escanchados numa égua, para desnatar o leite das vacas de António Garcia Vieira, do lugar do Jogo da Bola. Mais à frente, lembro-me da Ribeira da Fazenda, na qual havia uma azenha a que se ia levar o saco de milho (se havia) para ser moído, a 'moenda' como lhe chamávamos.


[continua...]

Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

sábado, 3 de outubro de 2009

Saudade e Poesia #7

E assim se vão os anos

Subi ao alto da escada da vida,
Como a rapidez da planta em flor,
Que cresce matizada em linda cor,
Depois 'tomba' p'rá final descida.

Eu em criança queria que os anos
Me tirassem da flor da minha idade;
Choro hoje pela tenra mocidade,
Como a vida é cheia de enganos...

Na rua vejo as crianças brincando,
Olho p'ra elas e fico pensando
No lindo tempo que por mim passou;

Eu também ria e pulava outrora,
Já fui assim como elas são agora,
Quando crescerem eu já nada sou.



Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

domingo, 6 de setembro de 2009

Saudade e Poesia #6

Quadras Soltas

Quanto mais lenha no feixe
Mais depressa coze o bolo;
Quanto mais tolo mais peixe,
Quanto mais velho mais tolo.

Sem teres dom ou vocação,
Tiraste à força um curso;
P'ra não te chamarem cão,
Mas já te chamaram urso.

Quando tu passeios dás,
Muitos espelhos encontras,
Olhas p'ró lado e p'ra trás,
Para te veres nas montras.

Ao entrar tiras as botas
P'ra não sujares o tapete;
Foi um treino - mas não notas,
Que te esqueceu o barrete...

Enquanto tiveste bens,
Viviam outros à míngua;
Gastaste; já nada tens,
Só te ficou foi a língua.

Não deve mandar nas Flores
Os candidatos de fora,
Qualquer ilha dos Açores;
Tem dos seus a toda a hora.

O moleiro tira a maquia,
Quando nos mói a moenda;
O camarário a "quantia"
Contributo da fazenda...

Esmola p'ra ser bem feita,
É dada sem ninguém ver;
Entregue co'a mão direita,
Sem a esquerda saber.

Muitas vezes o andante,
Vê mais que o cavaleiro;
E um esperto ajudante,
Dá ideias ao pedreiro...

Se ensinares teu filho,
Ensina como se faz;
Não vá ele sachar milho
E deixar a erva atrás.

Mastigar de boca aberta,
Só se for batatas quentes;
D'outra forma, é ver s'acerta
A comida entre os dentes.

As redondilhas que fiz,
Não tem meta dirigida;
Mas nalgumas delas diz,
Algo que tem nossa vida.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

domingo, 23 de agosto de 2009

Saudade e Poesia #5

Ao "jardineiro" da ilha das Flores

As Flores - quase sozinha continua,
É portuguesa; Portugal a descobriu;
Meteu bandeira; arrancou pés e fugiu,
Pouco lhe fez; mas afirma qu'ela é sua.

Solitária com um filhinho* lá flutua
Fim da Europa e Novo Mundo dividiu;
O descobridor marcou presença e saiu,
Faz lembrar a América na ida à Lua...

Neste Mundo já nada há de distante,
Desculpam-se a dizer: "ela está longe",
Como o clero fez outrora, com domínio.

Do Faial - é só voar mais adiante;
Tempo igual à ladaínha d'um monge,
Se tomar o "passarinho" de alumínio.


* Corvo

Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

hardlink@aol.com

sábado, 18 de julho de 2009

Saudade e Poesia #4

Esperança desfeita

Desfez-se um sonho que antes tivera,
Qual sonho; ficcional ou quimera,
Num túnel obscuro, falsa esperança;

Derramou reflexos na escuridão,
Embebido nas trevas duma ilusão,
Procurando um fim que não alcança.


Subi ao cume; desse alto monte,
Procurei ver à distância o horizonte,
Fascinou tal 'panorama' deslumbrante;

Eu vi subir a luz tão lentamente,
Depois, foi descendo para o poente,
E cada vez me ficava mais distante.


Certo dia tentei ver a nova luz;
Pachorrento; à sua espera me pus,
Julgando ver os jorros nascer igual;

Enganei-me; esse brilho jamais voltou,
Pesadas nuvens pretas a vedou,
Ameaçando violento temporal.


Refiro-me ao alto monte o coração,
O horizonte, o amor e a paixão,
Que o temporal destruiu tal tesouro;

Desfez-se a esperança que antes viveu,
Que depois de dissipada me pareceu,
Que no mundo nem tudo o que luz é ouro.



Denis Correia Almeida
Hamilton, Ontário, Canadá

domingo, 31 de maio de 2009

«Miscelânea da Saudade» #6 (2/2)

Observações sobre o voluntariado militar com reticências

No meu tempo de tropa, 'ditadura' "tempo de paz em Portugal" em 1955, aquando no quartel em que estava a Bateria de Costa, naquele lugar da Grotinha, nos Arrifes [ilha de São Miguel], com o pico da castanheira, o soldado ganhava um escudo por dia, que nem dava para o sabão de lavar a roupa. Recordo-me de quando enviavam aquelas 'embalagens' de 45 kilos a estrondar por cima de Ponta Delgada, que iam perfurar um alvo, "jangada improvisada" sobre 4 bidões, com vela feita de pontas de tábuas de forro, caiadas de branco e dependuradas em posição perpendicular, num arame que descia da ponta do mastro para cada lado, fingindo uma embarcação a reboco sob o comando dum medroso mas experiente sargento, que carecia de "fraldas" com o medo que tinha quando era enviado para o reboco da jangada; neste caso, fingindo navio de guerra, que se colocava entre as 8 a 12 milhas marítimas do Porto de Ponta Delgada. Neste tempo, o serviço militar era obrigatório. Lá dentro, encontrei-me com centenas de soldados e nunca ouvi um deles dizer que gostava de estar na tropa. No fim de semana, todos queriam ir para casa.

Voltando às "peças", o estrondo dessas manobras, por vezes, partia vidros pela área do Canto da Fontinha e Rua Tavares Resende. Na minha lista, e no quartel a que pertencia, somente conheci um soldado voluntário. Esse soldado, com aspirações militares, não possuía habilidades profissionais na vida civil. Com a idade de 18 anos resolveu procurar refúgio permanente na vida militar e, ao mesmo tempo, dedicar-se à Pátria; servir, lutar e morrer por ela. Este passou a ser o seu emprego permanente, sendo, ao fim dum ano, cabo; onde mais tarde viria a ser sargento, segundo ouvi. O homem teve razão naquilo que fez.

Nesse tempo, pelo menos designados por mim, havia cinco qualidades de empregos de servir o público e de lazer; sendo alguns patrocinados pelo "pai Governo", os quais eram: entrar [como] voluntário para a tropa, seguir a vida [militar] e, conforme o repouso da "tarimba" e apetite aberto p'ró rancho, prestar-se para manejar uma arma preservada com adiposidade; estudar instruções militares; ser obediente e 'bom rapazinho', com muita paciência, sem haver dependentes que requeressem a sua presença para suporte em casa, ficaria por ali e chegaria a qualquer coisa... Ao contrário, se nada desse na tropa, sentir-se-ia grato por ter "servido o rei" saindo mais disciplinado e ainda lhe sobraria tempo para sachar batatas, ou ordenhar vacas ou cabras.

Os outros empregos de "verga ao alto", e pasmados de mosca a poisar nos beiços, eram: trabalhar p'rá Câmara; ser guarda fiscal; taxista, vender cautelas; ou então, polícia "calmeiro", como lhes chamavam. Isto, claro, era no meu tempo. Hoje em dia, leio por aqui, no nosso «Correio dos Açores», e outros jornais, os queixumes de opinião dos meus honrados colegas escribas, que a polícia "trabalha muito" e que até não têm tempo para apanhar o ladrão ou o malfeitor, por se encontrarem a multar carros mal estacionados. Mais proveitoso lhes seria terem ido p'rá tropa e ficar por lá uns tempos. Hoje, ouço dizer que nem é preciso ter sido militar para ser agente da PSP. Vejo erro nisso, porque a tropa é que faz desenvolver o homem...

Actualmente, se não estou em erro, penso que em todos os países democráticos as tropas são voluntárias. Ora bem; quem se oferece voluntariamente para ser militar, tem que assinar um documento, papéis escritos com regulamentos obrigatórios. Enfim, "casar com a pátria" é como o padre que casa com a Igreja, e como o noivo que casa com a noiva. Mas esperem!... Nestes casamentos existem diferenças: o padre, a querer, pode deixar o sacerdócio, porque o Papa não o mete na cadeia. O casal, a não viver feliz, pode separar-se. Mas se o voluntário mudar de ideias, arrepender-se, renegar ou desertar do serviço militar, é considerado desertor, e até vai preso; não há dúvidas!... Conclusão, aqui fica a chave com pitada cómica: se o defunto "marcha" p'rá terra, o soldado marcha p'rá guerra. Ali não há arrependimentos.

Abaixo, encontra-se uma narrativa dum curto episódio do tempo "carmonista" que muita gente conheceu esta curta e humorística estória. A razão de eu a trazer à baila, é apenas uma lição comparativa ao alerta, para nos acautelar da beira do precipício que mais tarde pode causar empurrões...

Diziam que Óscar Carmona (1869-1951) quando visitou os Açores, lembro-me, 1940/42 salvo erro, o cais de uma das ilhas encontrava-se aglomerado de povo até à beira. Desta feita, com o aperto do pessoal, um garoto de 10 anos caiu à água, ao mesmo tempo que cai um homem barrigudo. Com a agonia de se salvarem, aquilo foi um tal bater braços na água, começando toda a gente aos gritos. Já nessa altura da agonia, o barrigudo encontrava-se agarrado ao rapazote, ao mesmo tempo que duas pessoas se atiraram à água, trazendo os dois para o cais. Nesse caos houve muitas palmas para o barrigudo, por se ter agarrado ao rapaz, salvando-lhe a vida.

No cais encontrava-se qualquer pessoa notável que louvou a coragem do barrigudo, prometendo-lhe uma medalha de mérito, dizendo mais ou menos assim: "o senhor cometeu um acto de bravura, salvando este rapazinho, e merece uma medalha"; diz o barrigudo: "ei Sinhô!... p'lamô Dês, ei qué lá medála ninnuma!... ei é c'me agarrei ao rapá pra nã morrê porq ei nã sei nadá, aqueles f... das p...ts é c'me impurrarã pá água, ei nã qué medala ninnuma!".
Nota: este também se voluntariou; pondo-se à beira e empurraram-no. Se p'ra lá não fosse, não caía na água. O mal foi ir p'rá beira do cais. capiche?..., como dizem os italianos.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Canadá

hardlink@aol.com

Artigo de opinião publicado (originalmente) no «Correio dos Açores», edição do dia 12 de Março último.

sábado, 30 de maio de 2009

«Miscelânea da Saudade» #6 (1/2)

Observações sobre o voluntariado militar com reticências

Primeiramente, antes de algumas observações minhas, como outras, "música d'ouvido" que sem a mínima intenção de ofensa, comentam, perguntam, sobre o voluntariado militar, sem se referir a [nenhuma] específica nação, mas sim, a todas as tropas que daqui ou dali se voluntariam.

Porque será que nos dias d'hoje não falta gente que se voluntaria para o serviço militar?... Parece ter sido ontem que nem havia 2 por cento dos homens novos que escolhessem o serviço militar em vez da vida civil.

Há muitos anos, talvez um quarto de século atrás, ou menos, o serviço militar era obrigatório. Excepto por estes lados, mas sim, em países da Europa. Pediam a Deus para não passarem na inspecção física. Até metiam "cunhas, padrinhos" para interferir nos exames físicos. Estes eram alguns meninos da elite, ou então, lavradores mais prestigiados e com influência no predomínio da burocracia.

Ir para o serviço militar era "estragar" a vida. Eis algumas das razões porque muitos esperançavam ficar excluídos: necessidade de ajudar os pais; apartar-se da namorada; querer casar mais cedo; juntar dinheiro para o casamento; perder o presente emprego; e o receio de (se houvesse uma guerra) ter de ir em frente e, quem sabe?, não voltar mais.

Estes eram os apegos e factores que muitos aspiravam, inclusivamente seus pais. Desde que me lembro, guerras sempre as houve. As nações aliadas à ONU, quase todas, ou mesmo todas, havendo uma guerra, como por exemplo: a do Iraque e do Afeganistão, requerendo colaboração dos aliados, todas [as nações aliadas] têm de entrar com um certo número de soldados, conforme a dimensão do País e volume de tropas. Hoje em dia, faz-nos pensar na bravura dos voluntários...

Se recuarmos mais, vamos lá: ao tempo da segunda Guerra Mundial, ouviu-se dizer que alguns até cortavam o dedo indicador, o do gatilho, para não passar na inspecção [militar]. Pais e filhos ficavam aterrorizados quando se atingia a idade dos vinte anos.

As suspensas perguntas, e sem resposta, que ouço, já "enxertadas" de trás, não sei de onde, aparecem por aqui e por ali, como curiosidade de saber a explicação da aventureira audácia soldadesca, que, sem ofensa ou malícia, muito cautelosamente perguntam: será que, na época actual, os soldados ganham mais; será altruísmo, aquilo que faltava na tropa, como no nosso tempo, ou então, intenções filantrópicas pelo bem estar dos outros; vestir um uniforme; ter boa reforma quando a velho chegar; e, finalmente a pergunta de franzir a testa, será diligência ou "..?.dade". Oxalá que não seja esta reticenciada... Aliás, é preferível ser militar, graduado ou não, do que viver sem ocupação ou andar polindo calçada. De qualquer forma, admira-se o arrojo das tropas modernas...

Neste Canadá, e ali mais ao Sul, o tio Sam, derivado à "fartura de voluntários" as leis de entrada tornam-se biqueiras. Com a abundância, eles recebem mais [pessoas a alistarem-se] do que aquilo que precisam. Convém lembrar que a entrada é sempre agradável. Vê-se no dia a dia, quando eles servem um determinado tempo [na tropa], e depois regressam [à vida civil], a disciplina fê-los homens formados, aquilo que talvez não conseguissem na vida civil. Todavia, suponho que, como os de cá fazem, quem a casa regressa fica adstrito ao serviço militar [na reserva] para entrar a qualquer altura que seja chamado [outra vez]. Este dever militar, e obrigatório, permanecerá até determinada idade, isto é, dependendo da condição de saúde física e mental em que o indivíduo se encontrar no futuro. Não tenho por cá estatutos; mas penso ser assim...

Em muitos casos, em vez de alistarem os inactivos e dedicados voluntários, gente boa, deveriam ingressar na disciplina [militar], os vadios, esses que praticam o mal, andam pelas ruas e casas a roubar cidadãos, que são traficantes de drogas e nem sei mais o quê. Esses, deveriam ser obrigados ao [cumprimento do] serviço militar, e a não regressarem mais, não deixariam saudades. Afinal, quem sou eu para sugerir ou opinar?...

Por exemplo: pela área de Massachusetts, há coisa de quatro anos, um soldado, depois de haver servido dois anos no Iraque, regressou à vida civil, comprou um negócio e estabeleceu-se por contra própria, casou, foi pai dum filho. Ainda não havia [passado] um ano quando foi chamado de novo, desta feita, para o Afeganistão. Lastimou-se, pediu por vias legais mas foi forçado a abandonar o negócio, a nova esposa e um filho. Afinal, quando o mandaram para casa, havia sido com licença condicional, como fazem a todos, para reentrar [no exército] se forem [de novo] convocados.


Denis Correia Almeida
Hamilton, Canadá

hardlink@aol.com

Artigo de opinião publicado (originalmente) no «Correio dos Açores», edição do dia 12 de Março último.