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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Natureza maravilhou Diogo Morgado

O ator viajou até às Flores no culminar de um périplo por várias ilhas. Na ilha mais ocidental dos Açores encontrou a Natureza em estado puro. Objetivo do percurso insular: escolher cenários para um novo filme.

Das ilhas açorianas, Diogo Morgado conhecia apenas São Miguel. Até que recentemente empreendeu um percurso por várias ilhas dos Açores, de oriente para ocidente, em busca de paisagens naturais de beleza impressionante e em estado quase selvagem. Um dos pontos altos da viagem esteve na passagem pelas Flores, ilha de cenários naturais deslumbrantes, de vegetação frondosa pontuada por lagoas e cascatas, e de riqueza geológica imensa (observe-se a Rocha dos Bordões). Nesse percurso de descoberta, Diogo Morgado encontrou a natureza no seu estado mais puro. E confirmou as expetativas. "Do que conheço do mundo, os Açores são um dos lugares mais incríveis e característicos", afirma.

A estadia nas Flores foi o culminar de um périplo por cinco ilhas, percorridas em outros tantos dias, que passou também por São Miguel, Terceira, Faial e Pico – e que o surpreenderam pela diversidade. "É impressionante como ilhas tão próximas umas das outras conseguem ser tão diferentes." Por vezes debaixo de intempéries, o ator embrenhou-se no contacto com a natureza, deslumbrando-se perante o exotismo da paisagem. Afastando-se dos aglomerados urbanos, Diogo Morgado trilhou caminhos por entre a vegetação, observou o cenário desértico do vulcão dos Capelinhos, atravessou o canal entre o Faial e o Pico. Mas recusa dizer que locais considerou mais marcantes. "Seria injusto, quando todos têm um valor incrível."

Contudo, a jornada insular teve mais do que um intuito contemplativo. Diogo Morgado procurava cenários para uma longa-metragem, um thriller de ação passado numa ilha remota, em que co-assinará o argumento. Dos locais a filmar, nas Flores e nas outras ilhas visitadas, prefere manter reserva. Apenas tem uma certeza: "Queremos ter os Açores como cenário e mostrar como é bonito o nosso país. Não temos noção do país que temos." O arquipélago será mais uma personagem, composta por um pouco de cada ilha – que Diogo Morgado faz questão de mostrar ao exterior. "Queremos divulgar como é especial e único."


Crónica publicada na revista de bordo da SATA «My Plan» #7.
Saudações florentinas!!

domingo, 8 de maio de 2016

«Todos ilhéus», por Nuno Costa Santos

Ao me saberem açoriano, diversos continentais perguntam: "Nunca te fez confusão viver numa ilha?". Mesmo muitos dos que se encantam com as paisagens e o acolhimento, contam-me de um ocasional sentimento de claustrofobia, confessam que por vezes se sentem agoniados por estarem rodeados de mar, por não poderem atravessar fronteiras terrestres, fugir para outra banda, dar uma volta de carro até ao país do lado.

Respondo que não. Que nunca tive esse sentimento quando vivia a tempo inteiro na ilha de São Miguel, nem o tenho sempre que regresso a casa e por lá fico, em trabalho ou em férias. Que nunca pensei: "Vivo numa ilha, estou tramado". Revelo até um escândalo: durante o meu crescimento nunca pensei que vivia numa ilha. Nunca reflecti sobre o assunto, muito menos acompanhado de bibliografia.

Nunca passei um minuto a matutar nas questões do "mar por todos os lados", do "isolamento", da "solidão", da "limitação". Estava demasiado preenchido. A ilha era a minha terra, onde tinha vivências contraditórias, umas alegres, outras não, como acontece em qualquer lugar do mundo.

Nem na fase das inquietudes habituais quis levantar voo para território distante. Na adolescência nunca senti o desejo urgente de me ir embora. Viajar para o continente e aí viver era apenas o percurso normal de quem havia terminado o liceu e queria prosseguir os estudos. Não passei tardes no quarto a fantasiar com a vida lisboeta e não fui para cima de uma rocha como um poeta romântico a imaginar os mundos "cosmopolitas" para lá do horizonte. Era feliz onde estava - tanto quanto pode ser feliz um adolescente. Com a sorte de ter uma família, um grupo de amigos, namoradas, uma vida cultural feita de muitos discos, livros e filmes que nos chegavam de fora com a velocidade certa, de beber fininhos bem tirados em cervejarias onde se falava, se debatia e se asneirava. A ilha nunca teve qualquer dramatismo, esse tipo de dramatismo de quem a vê de fora, mesmo quando está dentro.

A ideia de que o ilhéu é um ser prisioneiro entre vagas e de que quer sempre ir mais além do que o espaço que habita é um cliché que convém mais a uma poesia gasta da vivência insular do que à realidade quotidiana. Claro que não me refiro ao sonho emigrante que muitos açorianos tiveram em alturas de dificuldades extremas. Penso naqueles que têm condições materiais mínimas e alcançaram à sua maneira uma posição de conforto e de pertença a uma comunidade com virtudes e naturais defeitos. Muitos deles, claro, associados ao desporto federado de comentar a vida dos outros.

É curioso perceber que muitos dos visitantes que partilham este sentimento repentino de estarem encerrados no meio do Atlântico, quando voltam ao ninho, pouco saem dos seus circuitos habituais. Pouco saem do seu roteiro, seja pessoal ou profissional. Não visitam bairros alheios. Não conhecem os nomes das avenidas, das ruas, das freguesias da sua cidade. Vivem em ilhas ainda mais pequenas que as ilhas onde por instantes se sentiram prisioneiros. Vai-se a ver e somos todos ilhéus. Pensem nisso.


Crónica do escritor Nuno Costa Santos, publicada originalmente na revista «Azorean Spirit - SATA Magazine», número 72.
Saudações florentinas!!

domingo, 24 de janeiro de 2016

A morte do jornal «O Monchique»

Foi com muita tristeza que recebi a notícia do fecho do jornal «O Monchique», da ilha das Flores. Dezoito anos foi a sua longa vida, muito jovem para ser de utilidade pública. São muitas as vozes que se calam, para uma ilha que fica tão longe e tão isolada. Só nos resta olhar em frente para o ponto mais ocidental da Europa, que é o ilhéu do Monchique. Já em 2010, no seu editorial, se alertava: "Tudo tem um princípio, tudo tem um fim". O financiamento já se tornava insuportável, por parte dos assinantes que não pagavam as suas quotas, ou por falta de publicidade, mas tudo leva a crer que os fundos estruturais que recebia por parte do Governo Regional, referentes à publicidade institucional, por vezes não passavam dos 55 euros. Só podia dar em doença "oncológica prolongada" para chegar rapidamente à sua morte. Ficou a ilha das Flores sem voz, sem um registo público, mas talvez foi o desejo desses que pensam ser donos dos açorianos, nomeadamente desta ilha da coesão, mas que está cada dia mais isolada... Vou transcrever algumas palavras e o último desabafo editorial do jornal «O Monchique»: "Um dia alguém recordará que O Monchique, para além de ser o ponto mais ocidental da Europa, também foi título de jornal e deixou impressa alguma da nossa história coletiva que ocorreu nos últimos dezoito anos!".

Um bem-haja José António, diretor do jornal «O Monchique».


Opinião de João Ventura, publicada no jornal «Diário Insular».
Saudações florentinas!!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

E tendo visto o que vi não vi nada assim

A primeira vez que aterrei nos Açores era Inverno, com nevoeiro. Lembro-me da data, fim de Janeiro de 1995, porque me apaixonara na noite anterior. Em directa, apanhei o primeiro voo de Lisboa para Ponta Delgada.

Trabalhava então na rádio (ia fazer um programa sobre baleias) e o colega micaelense que me esperava, e que não conhecia, é meu amigo até hoje. Esses dias em São Miguel pareceram-me o outro lado do espelho, ou o tecto do mundo, talvez porque fez sempre nevoeiro, talvez por eu estar apaixonada. Mas quando comecei a voltar aos Açores a sensação voltou sempre. Não era o nevoeiro, nem a paixão, é aquele meio do mar, o que fiz dos Açores ou os Açores fizeram de mim.

Um dia escrevo (mais) sobre São Miguel. Alguns anos depois, a minha aterragem na ilha das Flores foi o contrário, eu não estava apaixonada e era Verão. Tinha planeado passar as férias a trabalhar num livro, isolada numa casa de família no Norte de Portugal que afinal na véspera ficou cheia. Então da noite para a manhã comprei um bilhete para o Faial, de onde voei para as Flores. Um dia escrevo (mais) sobre o Faial.

Aterrei na ilha das Flores sem fazer ideia para onde ir. Não planeara nada, achava que vinha para escrever. Apanhei a minha mala no tapete e fui ao balcão da SATA pedir uma sugestão. O homem ao balcão chamava-se António Francisco, era chefe de escala, era um encanto, e tinha uma sugestão: a irmã acabava de abrir uma espécie de turismo rural na outra ponta da ilha. Além disso calhava que a sobrinha viera a Santa Cruz e me podia dar boleia. Assim fácil, como se diz no Brasil.

Lá fomos as duas entre as hortênsias, subindo até ao planalto, depois descendo ao longo daquela encosta verde de onde se despenham cascatas, e o oceano não tem mais fim até à América. E era Agosto: como assim um lugar assim em Agosto, como assim um lugar assim?

A estrada abriu um desvio para a esquerda, entrámos, apareceram as primeiras ruínas. Eu já tinha estado na América, já vira os açorianos espalhados pelo mundo, mas nunca tinha parado para pensar nos vestígios disso nos Açores. Uma aldeia inteira abandonada: chamava-se Cuada.

Teotónia, a anfitriã, trabalhara anos na SATA, tal como o irmão. Carlos, o anfitrião, andara anos na baleia, tal como o cunhado. Ela florentina, ele picoense, já com uma filha adulta (a que me trouxera), largaram uma vida certa para irem comprando ruínas, uma a uma, mantendo a estrutura original da aldeia, caminhos, pastagens, muros. Algumas eram antigas casas de dois pisos, outras apenas palheiros. Coube-me uma de dois pisos, porque era das poucas que já estava pronta. Acho que ainda tentei escrever, qualquer coisa que não era para ser. Ao segundo dia já saía pelos atalhos, descia à Fajãzinha, à Fajã Grande, à Ponta da Fajã, a mergulhar no mar, nas cascatas.

Entre voltas pelo mundo, voltei e voltei, uma das vezes até escrevi quase um livro inteiro lá. E tendo visto o que vi não vi nada assim. É como aquele atum no forno da Teotónia que ainda não aprendi a fazer. Se não for este ano é para o próximo.


Crónica da jornalista Alexandra Lucas Coelho, publicada originalmente na revista «Azorean Spirit - SATA Magazine», número 62.
Saudações florentinas!!

sábado, 17 de outubro de 2015

Ilha das Flores à mercê do tempo (III)

O que aparece agora, ao fundo, é mesmo a ilha das Flores - e o recorte dos seus pontos mais altos apresenta-se muito mais nítido do que nos dias anteriores. Será hoje, finalmente, que vamos pôr a vista em cima das lagoas?

Na lagoa da Lomba, pelo menos. Apesar das nuvens, está completamente visível. Tem uma forma mais ou menos circular e está enquadrada por criptomérias e, claro, por belíssimas sebes de hortênsias. De momento não está cá mais ninguém. Ouvem-se os pássaros e o vento e agora o Sol espreita por momentos, bate-lhe e torna as suas águas mais claras.

Embalados pela sorte vamos em busca das lagoas que nos faltam no currículo. Correm as nuvens e corremos nós, a cruzar os dedos. Nada na Comprida, nada na Negra. Mudamos de lugar, sempre atrás dos prejuízos desta neblina que nos troca as voltas. Estamos há minutos à espera de poder ver uma nesga da lagoa Funda. Primeiro perdemo-la, por dez segundos. Pacientes, esperamos, que aqui aprendemos a esperar. E entretanto ela surge, uns metros apenas, que se escondem logo às mãos destas nuvens com vontade própria.

Estamos dentro de um jogo de paciência, que agora nos oferece um centímetro da lagoa Negra e um centímetro da Comprida. Andamos para trás e para a frente, ao sabor dos blocos de nevoeiro. De vez em quando, um ameaço de Sol doura os campos molhados e renasce a nossa esperança. Marco Melo, porém, conhece melhor do que ninguém estas "terras metidas nos vulcões" e chama-nos à realidade: por mais que esperemos hoje, não as veremos na plenitude que merecem. Resignemo-nos, então, a voltar para o Continente com esta lacuna por preencher.

A não ser que... A não ser que ainda não sejam 8 horas da manhã do último dia e que o telemóvel nos arranque do mundo dos sonhos - para nos levar para o mundo dos sonhos. "É o Marco. Está um dia magnífico. Se quiserem fazer um passeio antes do voo, é pegar ou largar."

Pegámos, como é óbvio. Fomos subindo em direcção às lagoas debaixo de uma luz como nunca tínhamos visto a esta altitude. Já não era toldada, como nos outros dias, mas muito mais límpida - talvez a "poeira dourada" de que fala Raul Brandão. Ignoramos a entrada para a lagoa da Lomba, que ontem já tínhamos visto, e dirigimo-nos sem outras paragens para a lagoa Comprida. Uma súbita neblina ainda nos faz temer o pior, mas de repente fechamos os olhos e quando os abrimos lá está ela, completamente despida para nós.

O silêncio é enorme, deixamo-nos ficar num exercício de contemplação. Estamos a viver um momento quase solene, que interrompemos para avançar poucos metros a fim de conhecermos a vizinha lagoa Negra. É uma circunferência quase perfeita, rodeada de espécies endémicas por todos os lados: cedro do mato, louro, queiró. Tem mais de 100 metros de profundidade que, no entanto, não assustam devido à magia do cenário. Mais mágico do que isto só mesmo o que vemos em seguida, no varandim de um segundo miradouro. As duas lagoas, a Comprida e a Negra, praticamente lado a lado - ou, se preferirmos, de costas voltadas, numa sintonia descasada quase dramática. O Sol incide sobre a lagoa Negra e deixa-nos ver-lhe melhor a tonalidade das águas. O momento é solene, já tínhamos dito - este canto da ilha das Flores é belíssimo, acrescentamos agora, sem receio de exageros.

Entramos no jipe com a alma cheia. E quando, em simultâneo, alcançamos com o olhar as lagoas Funda e Rasa, damos muito mais valor ao que está a acontecer. Era justificada a angústia dos últimos dias: não podíamos deixar a ilha das Flores sem levarmos connosco estas imagens de assombro e rendição. A lagoa Funda é de uma beleza extrema, quase trágica de tão verde. Por um rasgão nas nuvens, vê-se o mar lá ao fundo. Mas o impacto é muito maior, realmente, quando estão ambas no mesmo plano de visão.

Estamos absolutamente esmagados. Isto é imenso e misterioso, pena não termos mais tempo para fruir do instante. A contragosto, voltamos as costas a este reino encantado e vamos descer. De bónus, ainda levamos a visão longínqua da lagoa Branca. E finalmente o céu abre-se para nos mostrar a imponência da Rocha dos Bordões. Talvez hoje pudéssemos subir ao Pico da Sé e fazer a caminhada até ao Poço da Alagoinha.

A ilha, percebemos agora, é uma mulher prudente: não se mostra à primeira, gosta que lhe façam a corte sem pressas. Nós tivemos alguma pressa, reconhecemos. Mas havemos de voltar, ilha das Flores.


Notícia: suplemento «Fugas» do jornal «Público».
Saudações florentinas!!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ilha das Flores à mercê do tempo (II)

A primeira coisa que se faz nos Açores ao acordar é correr para a janela e fazer figas para que o tempo esteja de feição. Ao segundo dia na ilha das Flores, abrimos as cortinas, espreitámos para cima e vimos a caminhada pelo maciço rochoso do Pico da Sé por um canudo.

Não somos malta de desistir facilmente e lá entrámos no jipe da WestCanyon à espera de um milagre. Raul Brandão, mais uma vez: "Esta paisagem molhada e verde é como um sonho: entreabre-se, fecha-se, sorri e adormece..." Não tivemos sorte porém: pelo menos a esta altitude, a ilha das Flores não se abriu para nós, manteve-se naquele estado em que "água, ar e bruma intimamente se casam". Ao volante, Marco Melo explica-nos que o trilho que estava previsto para esta manhã (convém que seja guiado, uma vez que não está marcado na sua totalidade) começaria na Fazenda de Santa Cruz e terminaria no Pico da Sé. "As vistas lá de cima são de cortar a respiração", afiança. Não duvidamos, mas praticamente não vemos um palmo à frente do nariz. Chegamos de jipe à zona dos Piquinhos e, além dos musgos na beira da estrada de terra batida, dos coelhos (tantos!) que saltam à nossa frente e das omnipresentes hortênsias, só esta bruma que nos dá cabo dos planos.

Parece-nos que na ilha das Flores todos os caminhos vão dar ao nevoeiro - e dizemos isto em voz alta. Inconformado, Marco dispõe-se a provar-nos o contrário. Quem não tem cão, caça com gato: em poucos minutos entramos na Estrada do Galo, que dá acesso à Fajã de Lopo Vaz, perto das Lajes. Voltámos para a costa e o Sol brilha agora com alguma intensidade. Olhamos para baixo e percebemos onde vamos ter de chegar a pé. Às 11h15 começamos a cumprir o trilho da fajã.

Vamos descendo, com o vento a assobiar na vegetação (canas, conteiras) e o mar a rugir lá em baixo. É bonita a paisagem, mas há-de melhorar não tarda. Vamos escutando os melros pretos e os tentilhões, observando as faias da terra (espécie endémica) empoleiradas na encosta rochosa e sentindo o cheiro a urze, que aqui se chama queiró. Em 15 minutos chegamos a uns degraus de pedra e deste ponto a vista para o mar pode ser vertiginosa para olhos mais sensíveis. E é daqui que vemos, lá em baixo, duas casas brancas - não, três, não, quatro, são quatro pontinhos brancos que sobressaem do negro basáltico das pedras que são o chão da fajã.

Continuamos a andar, ainda não passou meia hora, mas assusta olhar para cima e perceber que há este caminho pela rocha para subir de volta. Marco sossega-nos, habituado que está a palmilhar todos os caminhos da ilha das Flores, e diz que "é muito pior descer". A ver vamos. Por enquanto vemos a árvore da groselha e o araçazeiro - dá umas bagas muito utilizadas para fazer doce de araçá, que haveremos de provar e aprovar um destes dias. O vento amainou e o Sol está agora muito mais aberto.

Passaram 45 minutos desde que começámos a descer e já temos a fajã debaixo dos pés. A primeira casa, que lá de cima era um pontinho minúsculo, ergue-se, branca, à nossa frente. Deixa ver alguns sinais de degradação, mas ainda assim percebe-se que cá esteve gente há pouco tempo, pelos vestígios de uma fogueira recente. A propósito, Marco explica que o acesso às casinhas plantadas na Fajã de Lopo Vaz é mesmo o que acabámos de cumprir, não há outro caminho - a não ser para quem chega pelo mar.

É para o mar, precisamente, que vamos agora. As ondas rebentam junto à areia e pedras negras, mas o azul, iluminado por um Sol agora forte, enfeitiça. Não temos roupa para o mergulho, afundamos apenas as mãos na água para lhe confirmar a temperatura amigável. Olhamos em redor e vemos apenas dois turistas que também aqui chegaram a pé. De resto, somos nós, o céu e o mar azul, a areia negra e grossa e uma ou outra gaivota para garantir banda sonora. Rede de telemóvel não há e damos connosco a pensar, mais uma vez em voz alta, que isto deve ser o cúmulo do isolamento. Marco corrige-nos e garante que não.

A subida custa mais ou menos o mesmo que a descida - com a diferença que agora praticamente não falamos. Está calor, sentimos sede a cada passo e de repente estamos a beber água que escorre da rocha através de uma folha da qual improvisamos um copo. No último lanço de escadas, já conseguimos avistar o jipe, o que dá motivação extra para os metros finais. Estamos cansados, transpirados, esfomeados - há muito que uma simples sande de fiambre não nos sabia tão bem.

Com estas e com outras, já se passou a manhã. Porque somos persistentes, ainda jogamos, mais uma vez, o jogo do gato e do rato com as lagoas. Quase já sabemos de cor os caminhos que nos conduzem a elas. "Por vezes um fio de Sol doira a névoa a medo", dizia Raul Brandão, mas ainda não foi desta - as nuvens continuam a montar guarda às lagoas, como se de um tesouro valioso se tratasse. Já não temos muito tempo, mas entretanto já aprendemos que é preciso saber esperar. Esperemos, então.


Notícia: suplemento «Fugas» do jornal «Público».
Saudações florentinas!!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Ilha das Flores à mercê do tempo (I)

Foi, antes de mais, um jogo do gato e do rato com as nuvens. Tínhamos muita vontade de ver as lagoas que são dos principais ex-líbris das duas ilhas do grupo ocidental mas precisámos de paciência e persistência.

Pelo meio percebemos que há mais vida para além das lagoas e encontrámos lugares belíssimos, onde a vida corre devagar - e que pedem, por isso, estadias a condizer. Sem pressas, com tempo para aprender a ver.

E mais um cliché, que o povo nunca se engana: quem espera sempre alcança. Nós esperámos, por vezes desesperámos, mas ao quarto dia a ilha das Flores colaborou e mostrou-se aos nossos olhos de principiantes. Já tínhamos a vista cheia de pastos verdes, de hortênsias azuis e rosadas, de fajãs dramáticas a cair para o mar, de montes a recortar o céu carregado - mas faltava-nos a (quase) fantasmagoria das lagoas para compor o cenário perfeito. Como num passe de magia, a escassas horas de levantarmos voo, a névoa levantou-se também e deixou-nos entrar no reino encantado da lagoa Funda e da Rasa, da Negra e da Comprida, da Lomba e da Branca.

Aterramos na ilha das Flores debaixo de chuva, mas é de calor quase tropical esta manhã de Agosto em Santa Cruz. Quem se estreia num lugar tem o péssimo hábito de querer abarcar tudo ao primeiro olhar, mas percebemos logo que aqui as regras são outras. É preciso saber esperar e é isso que vamos aprender nos próximos dias.

Por enquanto vamo-nos familiarizando com Santa Cruz das Flores, a vila primeiro, o concelho depois (3789 habitantes, contaram os Censos 2011). Na Avenida dos Baleeiros, o Buena Vista Caffé, com vista de mar privilegiada, está com pouca freguesia. Contamos apenas duas mesas ocupadas - numa delas, duas mulheres francesas, mãe e filha, talvez, estão a ler e dir-se-iam indiferentes ao contexto. Daqui a nada, porém, é vê-las descer as escadinhas que levam às piscinas naturais de Santa Cruz e entrar na água tépida que se abriga entre as rochas. Devidamente equipadas com óculos de mergulho, vão passar vários minutos a nadar com os peixes - e a fazer inveja a quem as vê de cima. As piscinas, não temos dúvidas, serão um dos principais cartões-de-visita da vila onde vivem 1724 florentinos.

Que, no entanto, parecem estar todos sabe-se lá onde. Percorrendo as ruas de Santa Cruz em redor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fechada aquando da nossa visita, para obras de recuperação do interior), não nos cruzamos com muitos locais. Há mais turistas - ainda assim poucos e a esta hora, perto da uma da tarde, concentrados na esplanada da Praça Marquês de Pombal. São sobretudo espanhóis - sabemo-lo porque falam alto e riem-se com vontade, praticamente indiferentes à chuva que recomeçou a cair. Com a igreja em obras e o Convento de São Boaventura, que alberga actualmente o Museu das Flores, fechado (pelo menos a esta hora), não temos muito mais para fazer além de ver a vila acontecer. De tão pacata, Santa Cruz é um daqueles lugares onde se pode andar no meio da rua ou até deixar o carro aberto enquanto se vai ao café. Já não será tanto assim, mas de repente lembramo-nos de Raul Brandão - e mais tarde consultamos «As Ilhas Desconhecidas», que trouxemos na bagagem: "Vejo às janelas, por dentro das vidraças, fisionomias tristes de velhos que estão desde que se conhecem à espera de quem passa - e não passa ninguém."

Uma voltinha à vila há-de ficar completa com paragem no Centro de Interpretação Ambiental do Boqueirão, construído nos tanques onde se armazenava o óleo que era derretido na Fábrica da Baleia. Foi inaugurado em Novembro de 2009 e, convidando a um mergulho pelos mares dos Açores, pode ser uma boa ideia para ocupar os miúdos em dias que desaconselhem grandes jornadas ao ar livre. O espaço não é muito grande, mas tem informação detalhada sobre a fauna e flora do arquipélago, mais concretamente da ilha das Flores.

E é a ela que nos vamos fazer agora - mesmo que as nuvens que vemos lá em cima não augurem nada de bom. Arriscamos, ainda assim, e já subimos em direcção ao Pico da Casinha. Estamos a mais ou menos 400 metros de altitude, informa Marco Melo, da empresa de turismo de aventura WestCanyon, que nos acompanha nesta viagem pela ilha das Flores, e começamos a sentir na pele (literalmente) o cliché que dá conta que nos Açores é possível ter as quatro estações num dia. Saímos do Verão de Santa Cruz e agora estamos praticamente no Inverno - e isto ainda é Santa Cruz.

Queremos acreditar que deste Pico da Casinha há realmente vistas fantásticas sobre o vale da Fazenda de Santa Cruz, mas esta névoa que nos persegue à medida que subimos deixa ver pouco para além do que temos imediatamente à frente dos olhos: muros forrados a hortênsias a delimitar os terrenos verdinhos, mais vacas do que pessoas e um silêncio quase fantasmagórico. Há outro miradouro ao virar da esquina - Arcos da Ribeira da Cruz, nas proximidades da qual se terão fixado os primeiros povoadores da ilha no século XV - mas parar aqui serviria de pouco. "As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária", diz Raul Brandão no livro que nos acompanhará ao longo de toda esta jornada açoriana - e não podíamos estar mais de acordo.

Já percebemos que daqui não levamos nada, nem por sombras conseguiremos avistar as sete lagoas que são uma das imagens de marca da ilha das Flores. Descemos, portanto, e vamos fixar-nos mais perto do mar, onde as nuvens não parecem ter tanta vida. Antes, porém, paragem no miradouro do Portal: a Fajãzinha é uma manta de retalhos de campos verdes molhados de orvalho e tem a Aldeia da Cuada por cima; a cascata da Alagoinha, talvez o maior spot da ilha das Flores, hoje não dá mais a ver do que uns risquinhos esbranquiçados na rocha de vegetação compacta; lá ao fundo, a Fajã Grande e o ilhéu de Monchique, perdido no Atlântico.

É para lá que vamos agora, para a Fajã Grande, já nas Lajes das Flores, que exibe com orgulho o título de concelho mais ocidental da Europa. Foram-se as nuvens e voltamos a entrar no Verão. Junto ao mar, a Fajã Grande mais não é do que uma evocação da geografia. É na ilha das Flores que acaba a Europa e começa a América e isto, só por si, vale muito. Quem não gosta de dizer aos amigos que já esteve no ponto mais ocidental da Europa? Que tecnicamente é, no entanto, o ilhéu de Monchique, um rochedo isolado no mar.

É também na Fajã Grande que tem morada o Poço do Bacalhau, uma cascata que desagua na lagoa com o mesmo nome e que no Verão funciona como complemento ao mar. Nós, porém, não trocamos as águas azul-turquesa por nada deste mundo e deixamo-nos ficar por aqui. Mesmo que apenas deitados em cima do muro a ouvir o barulho das ondas. Não se está nada mal, neste ponto mais ocidental.


Notícia: suplemento «Fugas» do jornal «Público».
Saudações florentinas!!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Uma tecedeira de cantigas chamada Maria Antónia Esteves

Numa altura em que praticamente ninguém se interessa pelo cancioneiro açoriano (e os poucos que o fazem, através do «Cancioneiro Geral dos Açores» de Armando Côrtes-Rodrigues, andam a lavrar regos já lavrados), é de saudar a insistência e a persistência de Maria Antónia Esteves, que, numa linha de contínua e continuada investigação, vai recolhendo, registando, gravando e cantando a música tradicional dos Açores e suas incidências com a música vinda do continente português, da Europa, das Américas, do Brasil e de África.

Muito haveria a dizer sobre esta cantora e etno-musicóloga, que tem talento, sensibilidade e bom gosto. Porque não é impunemente que se é herdeira de uma tradição musical e poética com raízes fundas e profundas nos cantares de gesta medievais e na melhor poesia trovadoresca. Porque não é impunemente que se é trisneta de baleeiros que balearam até ao Oceano Ártico. E porque não é impunemente que se é sobrinha do grande folclorista açoriano padre José Luís de Fraga, e se cresceu no seio de outros familiares para quem a música constituiu sempre um compromisso de paixão.

Depois de «Açores» (1981), «Manjericão da Serra» (1984), «Canto do Prisioneiro» (1988) e «Com o Rosto a Este Vento» (2005), temos agora «Entre França e Aragão» (2014) como título do mais recente álbum de Maria Antónia Esteves e que, a meu ver, constitui uma das mais porfiadas experiências musicais dos últimos anos em solo pátrio, sendo que, nos Açores, não há precedentes de um disco com esta temática. Um disco com boa apresentação gráfica e com um booklet que nos dá informação muito precisa sobre a origem, a história e outras incidências dos temas recolhidos.

Com a sua voz telúrica, bem timbrada, límpida e expressiva, superiormente acompanhada à viola de arame (ou viola da terra) por Miguel Pimentel, que é também autor dos eficazes e eficientes arranjos para viola, Maria Antónia Esteves canta sentimentos, emoções e estados de alma. Com expressão lírica e grande serenidade.

Ela canta errâncias marinheiras e vivências baleeiras (“Um Marinheiro”, recolhida na ilha das Flores pelo padre José Luís de Fraga), evoca o amor e a dolência nostálgica da alma açoriana (“O Meu Bem”, por ela recolhido na ilha de São Jorge, ”Cabeçal onde me deito”, recolhida na ilha de São Miguel por Miguel Pimentel, e “Lindos Amores”, recolha de Manuel José Tavares Canário em São Miguel), havendo a destacar a relação que a cantora/recoletora estabelece entre melodias/danças do folclore açoriano e as suas congéneres do Sul do Brasil (Rio Grande do Sul e Santa Catarina), nomeadamente “Ratoeira” e “Terno de Reis”, temas que, sendo de origem açoriana porque levados para o Brasil por colonos açorianos no século XVIII, foram naquelas regiões recolhidos. E aqui muito haveria a dizer sobre as marcas da música criada nos Açores que a diferencia da matriz portuguesa, flamenga, americana, africana ou brasileira, ou seja, o fenómeno da adoção, adaptação, alteração e criação local de toadas populares açorianas – matéria sobre a qual me venho debruçando nas últimas três décadas.

Mas a cereja em cima do bolo deste disco é mesmo a faixa “A Donzela Guerreira”, versão recolhida na ilha de São Jorge, tratando-se de um dos romances tradicionais mais populares nos países do sul da Europa, e que dá conta da história de uma jovem que vai combater a guerra “entre França e Aragão” fazendo-se passar por homem.

E depois há essas duas preciosidades melódicas e harmónicas que são o “Fado Maria da Luz” (recolhido por Maria Antónia Esteves na ilha de São Jorge) e “Fado da Meia Noite” (recolhido por Miguel Pimentel em São Miguel). Por isso mesmo, o que escutamos neste disco não é folclore, mas música autêntica e profunda, toada intemporal e universal.

Em todas as cantigas do disco, a voz de Maria Antónia Esteves funde-se, em comunhão espiritual e em supremo diálogo, com o toque rasgado e puro da viola de Miguel Pimentel (filho de Manuel Moniz que foi igualmente notável tocador de viola), cuja excelente técnica e extraordinária capacidade solística estão bem patentes em outros três temas: “Pezinho”, “Chamarrita do Meio” e “Sapateia”. Aliás, este disco é também uma declaração de amor e de dignificação à nossa viola da terra, às suas sonoridades, capacidades e potencialidades. (De resto não é difícil tocar viola da terra, o que é difícil é tocá-la bem…).

De grande qualidade, este disco Entre França e Aragão (viagem musical e poética feita a partir dos Açores mas com rotas traçadas a pensar noutros espaços universais, ou seja, com música que parte da ilha para o mundo e que, do mundo, regressa à ilha) cumpre um verdadeiro serviço público. Por isso, mas não só por isso, deve merecer a nossa melhor audição.

Uma coisa é certa: na solidão comprazida de São Pedro do Nordestinho, na ilha de São Miguel, a trovadora Maria Antónia Esteves, sorriso radioso e sereno (calma por fora mas criativamente muito agitada por dentro), continuará a dar voz e expressão à alma de um povo. Porque é esse o seu destino. Porque é essa a sua missão. E porque é essa a sua forma de perseguir caminhos de sonho e felicidade.


Opinião de Victor Rui Dores, publicada no «Açoriano Oriental».
Saudações florentinas!!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Gastronomia florentina é ponto forte e deve ser mais valorizada turisticamente

A ilha das Flores é cada vez mais procurada pelos turistas e os florentinos esperam que essa tendência se mantenha. José António Corvelo, empresário da restauração, diz que a gastronomia é um ponto forte da oferta da ilha.

Segundo dados da Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo, o número de turistas que procuram as Flores, assim como o tempo médio de permanência na ilha, tem vindo a aumentar. Os efeitos dessa tendência são já percetíveis?

O turismo na ilha das Flores foi durante largos anos muito sazonal sendo mais visível a partir de meados de Junho a finais de Agosto. Nota-se que essa tendência alterou-se e de uma forma progressiva esse período foi-se alargando. Este ano em Maio eram já muitos os turistas que visitavam a ilha e agora em meados de Setembro ainda são muitos os que nos visitam. A par disso, a tendência de permanecer na ilha e em muitos casos a vontade de cá regressar é notória, tendo em conta algumas trocas de impressões que mantemos com alguns dos turistas que nos visitam. Este efeito acaba por refletir-se no comércio local, com efeitos imediatos no alojamento local e na restauração que também tem vindo a aumentar em termos de oferta.

Na sua opinião, o que é que distingue as Flores? O que procuram os turistas que passam férias nesta ilha?

Todas as nossas ilhas são bonitas, mas a ilha das Flores é diferente pela sua beleza paisagística. O verde da ilha, a sua água cristalina e as suas lagoas, a par do seu relevo único e das suas pequenas freguesias que mais parecem pequenos presépios perdidos no tempo, oferecem uma fotografia única que seduz quem nos visita. É essa beleza ainda num estado muito natural que toca o turista pela primeira vez e que os leva a querer regressar mais vezes. Entre fazer férias num local repleto de gente, muitos preferem ficar na ilha das Flores que tem pequenas unidades hoteleiras e sobretudo turismo de habitação, muitas delas localizadas nas várias freguesias da ilha. Os passeios a pé pelos nossos trilhos, as viagens de barco à volta da ilha, o mergulho e o canyoning, são algumas variantes que temos por cá e que cada vez mais são mais procuradas.

Nesse quadro, que papel ocupa a gastronomia da ilha? A gastronomia típica das Flores é apreciada pelos visitantes?

Quem nos visita quer conhecer a nossa gastronomia de uma forma geral. Há cada vez mais a vontade de conhecer a comida típica, pela curiosidade de experimentar pratos diferentes ou em muitos casos porque um amigo que já passou por cá o aconselhou a procurar este ou aquele prato típico em determinado restaurante. Neste caso penso que a gastronomia local é um ponto forte da ilha que deve ser aproveitada e valorizada pela nossa restauração.

Quais são as expectativas dos empresários do setor? De que forma pode o turismo evoluir nas Flores?

As expectativas julgo que são animadoras. A procura é cada vez maior e durante vários meses, o que leva a acreditar que a ilha das Flores vai ser cada vez mais procurada pelo turismo nacional e sobretudo estrangeiro. A pacatez e a beleza da ilha são pontos a nosso favor. Não podemos competir com Sol e praia de muitas paragens, mas temos ainda a beleza selvagem que toca o coração de quem nos visita.

Que mudanças entende serem necessárias para que essa evolução seja plena e positiva?

Temos de melhorar a rede de transportes para a ilha das Flores, para que o turista possa escolher sem problemas o período para nos visitar. Para além das viagens aéreas há que alargar as viagens de barco para as Flores. Na própria ilha é necessário apostar ainda mais nos nossos produtos locais que por vezes escasseiam e sobretudo valorizar tudo o que é nosso, desde a natureza, passando pela gastronomia, alojamento e lazer, preservando o que é nosso, porque se o fizermos, estamos a contribuir para o futuro da ilha de forma sustentada em termos turísticos. O resto virá por acréscimo. A ilha das Flores vai ser cada vez mais procurada pelo turismo nos próximos anos, estou certo disso.

Entrevista de José António Corvelo ao jornal «Diário Insular».
Saudações florentinas!!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Carlos Mendes: fotógrafo trotamundos

Fotógrafo açoriano adora ver a natureza do planeta de casa às costas. Carlos Mendes percorre mundo com as ilhas das Flores e do Corvo na alma e máquina fotográfica na mão.

Carlos Mendes tem pela fotografia, confessa, uma "paixão fortíssima que cada vez tem desafios mais fortes". Este fotógrafo açoriano, que trabalha e vive na ilha das Flores, disse (em entrevista ao semanário «Atlântico Expresso») que leva para todo o lado consigo "a minha companheira de viagem, uma câmara que muitas vezes se torna pesada para o tipo de viagens que às vezes integro, como é o caso da alta montanha". Mas Carlos Mendes confessa "prefiro deixar roupa em casa do que a minha registadora, pois é uma paixão que ultimamente já se mistura com a profissão". Partilhando o trabalho com um colega e grande amigo, Joel Santos, já percorreram a América do Sul, mais propriamente a Patagónia Sul, como guias e 'tour liders' de viagens fotográficas, com participantes nacionais apaixonados pela fotografia e interessados em aprender mais sobre a mesma. Também já criaram um roteiro fotográfico para as ilhas das Flores e do Corvo.

Entrevista do semanário «Atlântico Expresso» de 23 de Fevereiro.
Saudações florentinas!!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Uma viagem "fora de rota" pelo verde e pela(s) água(s) da ilha das Flores (3/3)

Gosta de percursos pedestres? Então vai adorar as Flores. A ilha é reconhecida como um paraíso para passeios pedestres. Se considerarmos que já teve cerca de três vezes mais habitantes que hoje, e pensarmos que para se deslocarem precisavam de desbravar caminhos, conseguimos perceber a imensa rede de trilhos que existem.

Nos tempos em que teve mais habitantes todos os recantos da ilha eram aproveitados para a agricultura - até nalguns dos ilhéus se chegou a criar gado e ainda hoje se vêm ruínas de muretes nos sítios mais recônditos, o que constitui testemunho do intensivo aproveitamento dos solos que as Flores já tiveram.

Muitos dos caminhos já foram ‘comidos’ pela vegetação, mas entre os mais velhos ainda há memória dessas veredas. Pierluigi Bragaglia, um italiano que reside na ilha das Flores desde 1990, tem um trabalho notável no mapeamento desses troços e desde sempre tem alertado as autoridades para a necessidade de reabilitá-los.

Neste momento existem quatro percursos oficiais, devidamente marcados, mas muitos mais poderão nascer se houver vontade política para tal. Até lá resta nos socorrermos do livro “Ilha das Flores - Açores: Roteiro Histórico e Pedestre” editado por Pierluigi Bragaglia, onde encontramos excelentes pistas sobre estes antigos caminhos. Neste capítulo pode ver o registo de dois dos percursos oficiais que tive o privilégio de fazer, e um outro que eu próprio descobri.


Miradouro das Lagoas-Poço do Bacalhau: lama, lagoas, precipício e por fim uma descida alucinante...

O planalto central das Flores é uma enorme cratera, semeada de outras mais pequenas. Com o passar do tempo e muita chuva as ‘craterinhas’ transformaram-se em lagoas. É aqui que nascem muitas das ribeiras da ilha, e as inúmeras linhas de água que cruzam a imensa cratera formam um dédalo que extravasa em muitos sítios, transformando o terreno num autêntico pantanal.

É neste cenário que se inicia este percurso pedestre PR3FLO. Abandono a cratera pela parede ocidental do grande vulcão, e lá em cima sou brindado com a visão do imenso mar a que não vejo o fim, mas que sei só acabar no continente americano. Ando mais um pouco, e acaba a terra plana. Estou à beira do precipício e parece-me impossível haver um caminho que me permita descer até lá abaixo, à Fajã Grande.

Mas há, e é um hino à engenharia popular, ao engenho dos colonizadores florentinos.

As terras no planalto são boas pastagens e não se podiam desprezar. As pessoas moravam todas cá em baixo e tinham de ir lá acima ver se o vitelo tinha nascido bem, ou se nenhuma vaca se tinha escapulido. Também tinham de trazer o gado condenado à panela cá para baixo, e raro era o dia em que não tinham de subir ou descer aquela falésia. E claro que um caminho cuidado, com sólidos degraus onde necessários, ajudava essa labuta.

Hoje em dia as vacas continuam a pastar lá no alto, os seus donos a cuidar delas diariamente, mas o velho percurso só é usado por caminhantes modernos que o fazem por gozo - e aqui fico a pensar no espanto que as pessoas que palmilhavam aquele caminho com grande esforço demonstrariam, se alguém lhes dissesse que no futuro haveria gente a fazer aquele troço por prazer.

Os vaqueiros modernos deslocam-se em pick ups 4X4, e quase dão a volta à ilha para fazer o percurso que antes tinha um vigésimo da distância. Mas é certo que se cansam menos - tal como as desgraçadas das vacas que também vão de carrinha... a caminho da panela.


Lajedo-Fajã Grande: pelas arribas da costa ocidental, por caminhos que a carroça do sal e do vinho fazia antigamente

O velhote do café/mercearia da Fajãzinha, o senhor José Baldes, perante as queixinhas fúteis das dificuldades da descida que tinha acabado de fazer, devolveu-me de imediato à razão:

“E você achou o caminho difícil? Imagine lá então o que era fazer chegar cá abaixo um carro puxado por uma junta de bois, carregado com sacos de sal para a carne da matança, e com ‘pinga’ do Pico? Eram homens à frente, e homens atrás, descalços, com cordas atadas à carroça para ela não embalar. Isso sim era difícil. Agora descer a pé, com essas varas modernas que vocês usam, é mais fácil que ir ali abaixo ao mar e voltar”.

Pois...

Este antigo acesso à Fajãzinha é o troço mais bonito desta caminhada. A meio da descida vemos ao longe a encosta ícone da ilha das Flores, por onde se despenham a ribeira Grande e as outras ribeiras que alimentam a Poça das Patas ou Alagoinha.

Logo depois temos uma vista privilegiada sobre a Fajã Grande e, no fim da descida, entramos na Fajãzinha. É uma localidade com um centro preservado, e que tem como umas das ‘atrações’ o estabelecimento comercial do senhor Baldes, onde se pode beber um cafézinho e dar dois dedos de conversa, numa pausa retemperadora para o resto da caminhada até à Fajã Grande.

Desde o Inverno de 2013, quando a ribeira Grande arrastou a ponte da Fajãzinha, que o troço final deste percurso teve de ser alterado. Dantes continuava-se nas arribas até à Fajã Grande, mas agora faz-se um desvio pela estrada que corre lá em cima junto à Poça das Patas.

O senhor Armando, motorista do autocarro dos transportes públicos da ilha, função que acumula com a de criador de vinte vacas, garantiu-me que conseguiria atravessar a ribeira a vau: “E na outra margem, depois dos destroços da ponte, tem o antigo caminho com as marcas do percurso ainda visíveis. Por ali chega mais depressa ao seu destino e vai sempre a ver o mar.”

Assim fiz. Passei a ribeira a vau, mas foi difícil e só o consegui mesmo junto ao mar, com água pela cintura. As marcas do percurso lá estavam, o caminho tinha algumas ervas altas mas consegui passar. Só que, abruptamente, a vereda terminou num precipício e percebo que parte do antigo caminho caiu ao mar.

Alternativas? Dar a volta por dentro e tentar reencontrar o percurso lá mais à frente, ou voltar para trás. Decido seguir em frente.

Salto um primeiro murete, salto um segundo, e antes do terceiro está um terreno com vegetação mais alta do que eu. Bastante arranhado mas inteiro, consigo chegar ao terceiro muro, salto para o outro lado, e vejo lá à frente um carreiro junto à falésia. Era novamente o caminho.

O senhor Armando esqueceu-se de me avisar da derrocada, mas assim até foi mais empolgante.


Planalto Central à foz da ribeira do Moinho (parte de carro, parte a pé): a costa norte tem o seu encanto. Tem o Farol do Albernaz, tem a ribeira do Moinho, e tem o Restaurante O Pescador

Ia de carro a caminho do Morro Alto, o cume da ilha das Flores com 914 metros, quando vi uma cortada à esquerda indicada no mapa como estrada sem saída. Avancei por ela.

Andei um ou dois quilómetros, parei para tirar fotografias, guiei mais outros tantos quilómetros, até que compreendi que segundo o mapa, e atendendo à distância já percorrida, há muito que teria chegado ao fim.

Afinal o mapa estava desatualizado e consegui percebê-lo no horizonte: distinguia perfeitamente o traçado da estrada a serpentear até ao Farol do Albernaz, no extremo noroeste da ilha.

O caminho a pique, paralelo ao vale da ribeira do Moinho é lindíssimo, e desde logo fiquei enfeitiçado por esta ribeira que dizem ser “a ribeira com o caudal mais constante da ilha, com trutas e tudo”.

Visto o farol ao perto, tomei a direção de Ponta Delgada até chegar à ponte que atravessa a ribeira do Moinho. Estaciono o carro e inicio aqui a caminhada do dia.

Em cima da ponte escuto o barulho inconfundível de uma queda de água, e adivinho-a atrás de um grande penedo que tapa a vista. Um senhor que passa, guiando cinco vitelinhos, aponta-me o caminho para chegar à cascata, e lá vou eu. Tenho de atravessar a ribeira para ver a queda de água de frente, mas vale a pena o esforço. É muito bonita e forma um grande lago em frente, ideal para uns mergulhos.

Tento seguir o curso da ribeira até à sua foz, que fica a uma centena de metros dali, mas não me arrisco naquelas pedras com limos escorregadios. Volto à estrada, e entro lá mais à frente, num prado grande que parece estender-se até à falésia. Chego à beira da ribeira, já junto ao mar, percebo que a água cai de uma altura considerável, mas não consigo ver o sítio onde se mistura com o mar.

Vejo sim, imediatamente antes da água se despenhar, uma encantadora lagoa, metade a céu aberto, metade debaixo de uma abobada de pedra, que parece uma daquelas piscinas de catálogo que acabam no vazio com um horizonte deslumbrante. Só que o vazio desta é o mar, a umas largas dezenas de metros lá em baixo.

Sozinho não me atrevo a nadar nas suas águas límpidas, mas ficou-me a pena que só será levantada quando da próxima viagem à ilha das Flores.

Terminei o dia no único restaurante que menciono nesta viagem, por ser o único onde comi muito bem: O Pescador, em Ponta Delgada, abastecido de peixe e marisco pelo dono, o senhor José Meireles, um dos dois pescadores profissionais que restam neste extremo norte da ilha.

A cozinheira, Ana Maria, mulher do senhor José, tem mão para cozer o cavaco, grelhar as lapas, e fritar o congro e a moreia. Petiscos, que quando voltar à ilha das Flores para nadar na lagoa da foz da ribeira do Moinho, hei-de voltar a saborear.


E para concluir a história...

Resta-me dizer que o velho sonho de conhecer a ilha das Flores superou as expectativas e que fico à espera que as tarifas aéreas baixem - anuncia-se para breve a abertura do espaço aéreo açoriano a companhias low cost - para poder lá voltar.

Só desejo ter novamente a sorte que tive desta vez com o estado do tempo. No último dia da estadia, alguém me dizia: “Você foi um sortudo. Apanhou a primeira semana de Verão aqui nas Flores.” Isto nos primeiros dias de Outono...


Reportagem do «Expresso Diário» e do semanário «Expresso».
Saudações florentinas!!

domingo, 24 de maio de 2015

Apenas seis viagens à ilha das Flores

O transporte marítimo de passageiros e viaturas para a ilha das Flores este ano fica reduzido a seis viagens: uma em Junho, uma em Julho e quatro em Agosto.

Já em 2009, num artigo da minha autoria, com o título "Sete viagens às Flores", mencionava que estava bem "escarrapachado" no Jornal Diário a realização de "cruzeiros semanais para as Flores", onde o vice-presidente do Governo Regional explicava, e passo a citar, que "os horários do Santorini foram elaborados para que os passageiros das várias ilhas possam convergir para as Flores nesta viagem de cruzeiro semanal que se prolongará até 30 de Setembro".

Passados estes anos, esses horários nunca foram cumpridos, a não ser como este ano com quatro viagens em Agosto e uma em cada mês anterior, terminando a convergência de passageiros que se encerra em seis viagens à ilha das Flores.

Fez-me um pouco de confusão quando li no «Diário Insular» que os autarcas das Flores pouco ou nada querem falar no assunto e o que fala ainda desvaloriza, dizendo que a "procura é menor do que a oferta", que do "Faial para as Flores a viagem leva 10 horas e é um canal difícil, mesmo no Verão". O autarca de Santa Cruz está a puxar a brasa à sua sardinha, porque tem a pista ao pé da porta, mas "com o andar da carroça, já se adivinha o que vem lá dentro". Com as lowcost para São Miguel e algumas para a Terceira e com o afundamento da SATA, qualquer dia começam a reduzir viagens, como acontece com o transporte marítimo de passageiros! No que diz respeito às 10 horas do canal Horta/Flores, todos os anos passo nesse canal e, normalmente, levo oito horas e, por vezes, ainda menos. Mas a pior viagem que tive nesse canal foi, há mais de 30 anos, no navio Ponta Delgada, em que as malas andavam de um lado para o outro, e, mesmo assim, não levavamos 10 horas.

Também ouvi na comunicação social o autarca do meu concelho, as Lajes, a convidar todos os açorianos a ir à Festa do Emigrante. Fez muito bem. Só que não se preocupou com os horários do navio, pelo menos com a chegada na sexta-feira e saída ao domingo, como normalmente acontece. Era mais um dia de São Vapor para quem quisesse disfrutar das belezas naturais e sempre dava mais alguma economia à ilha e ao concelho, que também necessita.

Gostava de lembrar ao secretário regional do Turismo e Transportes que as ilhas mais ocidentais dos Açores ainda estão no mesmo lugar, quase tão isoladas como na altura em que o senhor secretário nasceu. Também deveria conhecer bem o isolamento em que essas duas ilhas ficam com Invernos muito rigorosos e longos e os Verões mais pequenos. Por isso, no que diz respeito ao transporte marítimo de passageiros e viaturas, tem que haver escalas e horários muito bem planeados.

Fazer uma viagem em Junho, uma em Julho e quatro em Agosto é desrespeitar os florentinos. Está-se a excluir essas duas ilhas, com viagens a menos. Será que o Verão na ilha das Flores é só de três meses? Será que no mês de Setembro as Flores não têm os mesmos direitos que as restantes ilhas dos Açores? Também nas Flores há festas e muitas belezas naturais que devem ser visitadas por todos os açorianos! A desigualdade é tão grande em comparação às outras ilhas. Só em termos geográficos é que se assemelham. Por exemplo: em Santa Maria só em Julho há cerca de 12 viagens programadas, enquanto para as Flores há apenas uma!

Para o novo presidente da AtlânticoLine, deixo-lhe uma sugestão, já que reduziram nos meses com meia dúzia de viagens, façam o seguinte: duas viagens em Junho, duas em Julho, duas em Agosto e uma a meados de Setembro... Com os ferries novos, que vão custar 80 e tal milhões de euros, vai ser num "abrir e fechar de olhos" para se chegar a todas as ilhas. Espero que as do grupo ocidental não fiquem, mais uma vez, excluídas.

Já que o Dia da Região este ano vai ser comemorado na ilha das Flores espero que não seja só para marcar calendário e que, por fim, as ilhas do grupo ocidental fiquem no esquecimento. Um "batalhão" de personalidades serão agraciadas com insígnias honoríficas, baseado na maioria no espírito partidário. Faço votos para que o Espírito Santo deixe raiar os seus dons nas cabeças desses iluminados governamentais para terem o dever de zelar pelos Açores, mas em todas as ilhas.


Artigo de opinião de João Ventura, originalmente publicado na edição de 15 de Maio do jornal «Diário Insular».
Saudações florentinas!!

sábado, 21 de março de 2015

Uma viagem "fora de rota" pelo verde e pela(s) água(s) da ilha das Flores (2/3)

Quem vem de fora fica encantado com a ilha. E quem vive lá em permanência? A beleza natural basta-lhe? Não se sente isolado? Não se sente abandonado por uma Lisboa tão distante? Será fácil viver numa ilha perdida no meio do oceano?

Amigos dos piratas? Que remédio... A densidade populacional da ilha das Flores é hoje muito inferior à média açoriana.

Desde o povoamento, em meados do século XV, que há registos de queixas da população desta ilha em relação ao isolamento a que está sujeita. Os barcos que a abasteciam não tinham data certa para chegar, quer pela instabilidade do tempo quer pela ausência de um porto seguro para aportar, e desde os primeiros tempos que os florentinos se habituaram a desenrascar.

Às vezes até com uma ajudinha dos piratas, habituais frequentadores destas latitudes. Em certas ocasiões levaram à letra a velha máxima de "se não podes vencê-los, junta-te a eles" e em troca de água doce e mantimentos sempre conseguiam alguns produtos que não existiam na ilha. E certamente que sem meios suficientes para se defenderem esta era uma opção bem mais inteligente do que deixarem-se saquear.


Há o Jet Set açoriano, e há as Flores e o Corvo

Se pensarmos que só em 1992, com a inauguração do porto das Lajes a ilha ganhou um ancoradouro seguro, e que há apenas três décadas quase não existiam estradas dignas desse nome, percebemos o sentimento de abandono desta gente.

Os florentinos e os corvinos talvez tenham razão quando afirmam que se sentem excluídos do jet set - as outras sete ilhas do arquipélago - e que vivem no far west da Europa.

Até a rede de telemóveis só foi uma realidade na ilha das Flores no início deste século, aquando de uma visita do Presidente da República, Jorge Sampaio. Na altura instalaram uma antena provisória para servir a comitiva presidencial e só os muitos pedidos da população sensibilizaram o Presidente a ‘mexer os cordelinhos’ para tornar a antena definitiva.

Mesmo nos dias de hoje a operadora NOS não tem rede na ilha. Soube-o quando aterrei em Santa Cruz e liguei o telemóvel. Ainda pensei que a ausência de sinal fosse consequência do sítio onde me encontrava mas, quando perguntei a um local, fiquei a saber que era uma realidade em toda a ilha. Valeu-me uma loja da Meo perto do aeroporto onde pude comprar um cartão pré-pago, que me permitiu manter o contacto com o Mundo na semana em que permaneci na ilha.


Por aqui o medo não é que a terra trema mas sim que deslize

No grupo ocidental - Corvo e Flores - não há registos de sismos nem de atividade vulcânica desde a ocupação humana. São as únicas ilhas açorianas que estão sobre a placa tectónica americana o que explica a sua estabilidade. O resto do arquipélago encontra-se implantado sobre a junção das placas americana, africana, e euro-asiática, que estão constantemente em movimento, havendo registos de tremores de terra quase diários.

Nesta ilha o medo das pessoas não é que a terra trema mas sim que desmorone. Os solos estão saturados de água e os deslizamentos de terras são frequentes. Em 1987, uma derrocada na Ponta da Fajã destruiu algumas construções, o que levou as autoridades a classificar aquela zona como de alto risco. Tentaram mesmo obrigar os habitantes a abandonar aquele local, mas tal intento nunca foi conseguido e hoje várias pessoas habitam ali em permanência.


Reportagem do «Expresso Diário» e do semanário «Expresso».
Saudações florentinas!!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma viagem "fora de rota" pelo verde e pela(s) água(s) da ilha das Flores (1/3)

Esta é a história de um enamoramento que começou com a paisagem que esta fotografia documenta, vista vezes sem conta na internet, e que se concretizou numa inesquecível viagem de uma semana ao ponto mais ocidental do território nacional.

O que mais impressiona na ilha das Flores é a abundância de água doce. São inúmeros os cursos de água que serpenteiam o território e as cascatas, o verdadeiro ex-libris da ilha, são as mais bonitas de Portugal. 362 ribeiras numa ilha com 1,7 vezes a área do concelho de Lisboa, é obra!

Mas existe muito mais água para além da que salta à vista. Comprovei-o numa caminhada em que o chão estava forrado por um musgo espesso. Ao parar uns segundos para fotografar fiquei boquiaberto quando percebi que sob a ação do meu peso a "maré tinha subido", e as minhas botas começaram a ficar submersas. E foi nesta altura que me ocorreu o título deste trabalho «Flores, a ilha esponja»: aquele musgo funciona como uma autêntica esponja que armazena a água da chuva.

Já em 1645, Diogo das Chagas, frade santacruzense descrevia no livro “Espelho Cristalino em Jardim de várias Flores”:

“Toda ela (a ilha das Flores), assim no centro como na costa do mar é um chafariz perene de água, porquanto se não andam vinte passos assim pela costa, como pelo sertão, que não deem em ribeiras, regatos, e fontes de água; e assim que a água que a natureza nega a muitas das outras ilhas superabunda nesta porque, dizem ter dentro de si 362 ribeiras... e há ribeira a que se ajuntam mais de 30, e rara é a que não se ajunta com outras tantas, que as que entram no mar, que não são só ribeiras, mas algumas delas rios caudalosos; mas as que tem seus nomes particulares são 41, por mim bem contadas...”

Mas nesta ilha a beleza resume-se só à água em abundância? Claro que não.

Logo à chegada fiquei impressionado com a linha de costa, com as falésias a pique sobre o mar, entrecortadas por profundos sulcos cavados pelos inúmeros cursos de água.

É um espetáculo a não perder circundar a ilha de barco e descobrir as muitas cascatas que se despenham diretamente no mar, ao mesmo tempo que nos deslumbramos com as estranhas formas dos ilhéus vistos de perto.

No interior da ilha um planalto central acima dos 400 metros alberga sete lagoas, algumas manchas florestais, e extensos prados pintalgados de pachorrentas vacas. É uma área não habitada, muito bela e, para além de alguns pastores (raros), só se veem alguns turistas (poucos, felizmente) que circulam por aqui nos seus carros alugados, ou em caminhadas, apoiados nos seus cajados telescópicos.

E o reino animal também está bem representado - para além das vacas? Não é muito variado. Em terra firme coelhos (uma autêntica praga) e aves dominam. E é fácil fotografá-los? Nem por isso.

Ao verem-nos os coelhos são tão rápidos a fugir que quando empunhamos a máquina fotográfica já eles estão fora do alcance da objetiva. Já andava frustrado com esta situação quando, finalmente, consegui enquadrar um mais temerário que aguentou 10 segundos parado.

E o mesmo acontece com os melros e restante passarada. Saltitam constantemente de ramo em ramo e só um estado de prontidão permanente me permitiu meia dúzia de fotografias decentes.

Já debaixo de água a história é outra. Um breve mergulho na costa de Santa Cruz mostrou-me um mundo subaquático riquíssimo, onde os muitos peixes ignoraram a minha presença e continuaram impávidos no seu afã.

E o Homem não estragou este paraíso? Não. O ambiente que se respira na ilha ainda é genuíno.

As pessoas são simpáticas, prestáveis, e pareceram-me gente feliz na pacatez das suas vidas. Construíram as suas casas nas fajãs, terrenos planos que confinam com o mar, e que resultam quer do desmoronamento das arribas, quer dos antigos deltas lávicos. E neste caso a ação do homem até trouxe a estes sítios uma beleza acrescida: a geometria dos muros de pedra vulcânica que delimitam os campos agrícolas encanta qualquer um.

As povoações são harmoniosas, os carros a circular são poucos, o peixe que se come é do melhor e claro, a carne, o leite, a manteiga e o queijo das vacas locais têm um sabor único - com tantos pastos o gado só se alimenta de erva tenra dispensando as rações.


Reportagem do «Expresso Diário» e do semanário «Expresso».
Saudações florentinas!!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Iluminação pública: andamos às escuras

A Direção regional da Energia diz que o Governo decidiu, em 2011, reduzir em 40% os gastos com a iluminação pública. Foi criado um grupo de trabalho donde saiu uma nova metodologia na fixação do horário da iluminação pública, tendo sido, em Janeiro de 2012, implementado esse novo horário, depois de ouvidas as Câmaras Municipais. Basicamente, a iluminação está ligada a um relógio astronómico que tem em conta a latitude e longitude de cada local, bem como a rotação da Terra. Encurtando razões, o relógio deve estar avariado, pois de manhã, ainda escuro como breu, já as luzes estão apagadas e, à tarde, já escureceu e as luzes ainda não estão ligadas. Desta nova metodologia terá resultado uma poupança de 20% e não os ambicionados 40%. Como, pelos vistos, o povo não se manifesta contra, razão forte para não se mudar. Não quer dizer que esteja certo - note-se - mas como não há protestos, não se muda e o povo vai-se amanhando. O pior é que esta metodologia do "faça-se e logo se vê" está a pegar moda em muito sectores da administração e como o povo é pacífico e vai engolindo a crise goela abaixo, assim legitima essas decisões.

É louvável o espírito de poupança por parte do Governo Regional, que seja à custa de nos pôr às escuras já é mais criticável. Que aqui e ali poderia haver exagero na iluminação e que a remoção de alguns postes não punha em causa o essencial, achamos que pode e deve ser feito. Mas não temos dado conta que outras medidas tenham sido tomadas para lá de desligar poste sim, poste não. Investimento, por exemplo, em tecnologia led que tem como retorno poupança elevada no consumo, não temos notado que Governo Regional ou autarquias estejam a fazer, dando sinal de que é possível poupar sem prejuízo das horas de iluminação. É verdade que a nova tecnologia ainda é cara (mas é verdade que a cotação está a baixar todos os dias) e não é preciso substitui-la toda de uma só vez. É uma questão de fazer contas. Manter desligado o interruptor é mais fácil, dá menos trabalho e a conta ao fim do mês é obviamente mais baixa.

Em tempo de crise, todos temos de apertar o cinto, reduzir gorduras, colaborar para que a despesa pública seja menor. Mas mesmo que não haja dinheiro para substituir tecnologia, se calhar em conjugação com as autarquias seria possível, localidade a localidade, definir a iluminação mínima, ainda que tecnicamente seja difícil dizer que postes se devem manter iluminados. Mas, como o povo não se queixa, é capaz de estar bem como está.


Editorial do jornal «Diário Insular», edição de 9 de Janeiro.
Saudações florentinas!!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Luís Maciel (CMLF): "República tem retirado poder vital aos municípios"

«Diário Insular»: É ou não possível manter no Plano e Orçamento do seu município para 2015 os montantes do ano anterior e porquê? E que fontes de financiamento crescem ou descem em montantes mais significativos e porquê?

O orçamento do Município de Lajes das Flores teve em 2014 um défice de 1,5 milhões de euros (cerca de 25%) e tem previsto para o ano de 2015 um défice na ordem dos 800 mil euros (cerca de 20%). A fonte de financiamento que mais varia tem a ver com as transferências do ProConvergência, que tem uma descida na ordem dos 2 milhões de euros, uma vez que no corrente ano foi efetuado um grande volume de pagamentos finais deste Quadro Comunitário que terminou em 2014. Resumindo, apesar de uma diminuição das receitas provenientes do ProConvergência, isso exige menos também das receitas próprias do orçamento municipal, ao deixar de exigir o pagamento dos 15% de responsabilidade da autarquia.

Quais os grandes investimentos de raiz municipal que estão previstos para o próximo ano e que razões os justificam?

Não estão previstos grandes investimentos no próximo ano devido à difícil situação financeira do Município. As receitas previstas são insuficientes para as despesas básicas de funcionamento e para o pagamento dos compromissos já assumidos, como referido na questão anterior. Foram definidas áreas muito criteriosas de investimento, nomeadamente no emprego, áreas sociais e apoio aos setores estratégicos de desenvolvimento económico do concelho.

Que estratégias tem a sua autarquia desenvolvido para fazer face aos problemas gerais de financiamento do poder local provocados pela crise e a eventuais problemas que sejam específicos do seu concelho?

Tendo em conta o desequilíbrio das contas que se tem verificado, que teve como consequência a retenção de verbas do Fundo de Equilíbrio Financeiro dos municípios, devido ao excesso de endividamento, o Município das Lajes tem vindo a efetuar um esforço de redução da despesa e maximização de receita de forma a diminuir o excesso de endividamento. Neste sentido a despesa de investimento foi reduzida ao mínimo, bem como o Município procurou alienar algum património não considerado essencial ao regular funcionamento da autarquia, para aumentar a receita.

Concorda ou não com a regionalização da tutela do poder local açoriano, tendo por objetivo, entre outros, harmonizar as áreas de intervenção com o poder regional autónomo?

A procura de modelos de organização política que aproximem os centros de decisão dos cidadãos através de uma descentralização política e administrativa traz normalmente vantagens aos cidadãos, desde que essa descentralização seja acompanhada das respetivas transferências de meios financeiros e de autonomia política e administrativa. Infelizmente temos tido uma evolução negativa nos últimos anos, em que o Governo da República tem vindo a retirar autonomia política e administrativa às autarquias e a reduzir as transferências financeiras, o que tem vindo a diminuir a capacidade de resposta das autarquias aos cidadãos em áreas essenciais como o emprego, o apoio social ou o apoio à economia local.

Entrevista de Luís Maciel (presidente da Câmara Municipal das Lajes) ao jornal «Diário Insular» (edição de 14 de Novembro).
Saudações florentinas!!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

José Carlos Mendes (CMSCF): "Poder local deve ter tutela regional nos Açores"

«Diário Insular»: É ou não possível manter no Plano e Orçamento do seu município para 2015 os montantes do ano anterior?

Não é possível, em primeiro lugar porque ainda não entrou em funcionamento o novo Quadro Comunitário e no que se refere ao Município de Santa Cruz das Flores a única forma possível de manter o nível de investimentos do ano anterior é com o apoio dos programas comunitários, quer através daqueles que são direcionados para as autarquias (em que é atribuído um plafond a cada município), quer através dos programas do Governo Regional (como são exemplos ProRural, Sider, Competir +, entre outros), porque as transferências do Orçamento do Estado são quase exclusivamente para fazer face às despesas correntes.
Em segundo lugar, porque as medidas injustas e sem qualquer nexo que este Governo da República continua a aplicar aos municípios nos impedem de planear, organizar, decidir e dirigir, quer seja a curto, médio ou a longo prazo. A título de exemplo: temos a Lei dos Compromissos, do endividamento ou da contratação de pessoal, para já não falar dos sucessivos cortes que têm sido aplicados ao Fundo de Equilíbrio Financeiro dos municípios ou mais recentemente a criação do Fundo de Apoio Municipal.
À excepção dos fundos comunitários, outras fontes de financiamento são as receitas próprias da Câmara, que se mantêm estáveis, porque a autarquia de Santa Cruz faz orçamentos realistas, sem empolamento de receitas e adoptando uma política de apoio às pessoas, às famílias e às empresas, aplicando sempre as taxas mínimas legalmente previstas, como seja o IRS a 4% e o IMI a 0,3%. No que se refere à prestação de serviços da Câmara à população, na maioria dos casos aplicamos tarifas simbólicas ou gratuitas, como o fornecimento de água (tarifa fixa de 3,50 euros por trimestre), recolha gratuita de resíduos sólidos urbanos, funcionamento gratuito de ATLs, arrendamento de tapadas (2,50 euros por alqueire) e transportes escolares gratuitos.


Quais os grandes investimentos de raiz municipal que estão previstos para o próximo ano e que razões os justificam?

Os grandes investimentos para o próximo ano são a substituição de toda a tubagem de adução e distribuição do abastecimento de água às freguesias da Caveira, Cedros e lugar da Ponta Ruiva, muito antigas e ainda em fibrocimento, a construção de novos reservatórios com maior capacidade, bem como a pavimentação betuminosa de todas as estradas dentro do núcleo urbano destas localidades, num investimento de cerca de 2 milhões de euros. Prevemos também a conclusão da abertura da estrada Curral das Ovelhas/Cancelas Velhas e a construção de uma casa mortuária em Ponta Delgada, a construção de um parque de campismo e lazer em Santa Cruz, a reabilitação do moinho de água da Ribeira do Pomar, a reabilitação do edifício do antigo Tribunal no centro da Vila, a reabilitação urbanística do Largo 25 de Abril e a construção de uma ETAR compacta no Porto Velho, em Santa Cruz.

Que estratégias tem desenvolvido face aos problemas de abastecimento financeiro do poder local?

Adoptamos uma estratégia de grande contenção e rigor, selecionando e priorizando as áreas de investimento e dedicando especial atenção ao emprego, ao apoio social às famílias e à fixação de pessoas, especialmente jovens qualificados.

Concorda com a regionalização da tutela do poder local nos Açores?

Concordo, porque sendo o objetivo, entre outros, harmonizar as áreas de intervenção, o conhecimento e proximidade que o Governo Regional tem de todos os problemas regionais e das necessidades e particularidades de cada ilha, concelho e freguesia, estando os municípios açorianos sob a tutela do Governo Regional seria certamente muito mais fácil, disso temos a certeza, que com os mesmos recursos se faria muito mais e melhor e não se extinguiriam freguesias e municípios a régua e esquadro.

Entrevista de José Carlos Mendes (presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz) ao «Diário Insular» (edição de 18 de Novembro).
Saudações florentinas!!

domingo, 9 de novembro de 2014

Reabilitação da derrocada na Fajãzinha

Está quase a fazer quatro anos que houve um grande deslizamento de terras na Fajãzinha, que arrasou parcialmente o centro da freguesia. Não houve vítimas a lamentar, mas sim a destruição de casas, estradas e caminhos. Para além dos danos materiais, ficam sempre os psicológicos. Pior ainda é, no dia-a-dia e ao longo de vários anos, "esbarrarmos" com a destruição feita pela mão do homem, que naquela altura foi necessária.

Na urgência do acesso à freguesia foi aberto um troço de estrada no antigo caminho de calçada, com o nome de Caminho da Cruzinha. Foi entrar por terra adentro, com todo o tipo de máquinas a arrasar tudo o que se encontrava à frente. Nos cerrados que noutros tempos eram de cultivo para sustento de muitas famílias arrasaram paredes que os nossos antepassados construíram com muito sacrifício para defesa dos seus bens e também para ornamentação mais harmoniosa e embelezamento da sua freguesia.

O declive desta estrada ficou tão acentuado que quando descemos atingimos a "velocidade do som". No sentido inverso, só se for com todos os santos e mais um. Que a Senhora dos Remédios nos ajude!

Ao entrarmos na Rua da Falca, está triste e abandonada. É o desalento total! Buracos e pedras na estrada, paredes e entulho empurrados para os cerrados sem qualquer "pudor". Como já referi, há quatro anos foi urgente e necessário, mas, passados estes anos, nada justifica tal abandono!

Por conhecimento em causa própria, não houve qualquer restrição por parte dos proprietários, nem exigiram qualquer recompensa monetária, mas sim o levantamento das respetivas paredes e a limpeza dos terrenos em que houve intervenções.

A freguesia é um presépio vivo vista do Miradouro do Portal, com as suas cascatas, ribeiras com águas tão cristalinas, fazendo parte da Reserva da Biosfera da ilha das Flores, mas ao entrarmos no ramal da Fajãzinha vemos que está em condições degradantes, não é atrativo e em nada condiz com o bom piso das estradas das Flores, desde Santa Cruz, Lajes até à Fajã Grande, para não falar na marginal toda "empernicada" e resplandecente que termina num canto do calhau com pedra bem batida...

Quando houve a derrocada, o ramal da Fajãzinha ficou parcialmente coberto com lamas. Na zona do Espigão há mais de dois anos foi feita a limpeza da estrada, mas o ramal continua interditado (muito embora passe quem quiser, por sua conta e com alguns riscos), não por causa da derrocada, mas pela falta de entendimento ou falta de bom senso por parte das entidades. Atiram de um lado para o outro, mas quem padece são os moradores desta freguesia. Sentem-se todos à mesma mesa, deixem as politiquices de lado, vão para o terreno, ponham mãos à obra, porque a Natureza já fez o seu traçado geológico.

Recentemente, quando choveu 124 litros por metro quadrado, na manhã seguinte passei no ramal para ver se algo de anormal tinha acontecido. Para meu espanto, não aconteceu nada de novo. Se não fosse a monda com mais de meio metro de altura, não se notava que tinha caído tanta chuva.

Querem um conselho? Não façam aquela bacia de retenção na passagem que estava planeada, porque podem ir buscar as lamas e mais água à Boca do Engenho. Façam sim regos de escoamento das águas, desde bem debaixo da rocha para o lado do tanque da água. Aí tem que ter um escoamento que passe por debaixo da estrada, nos aquedutos que lá estão, mas cheios de entulho.

Quando era pequeno, eu e alguns colegas da minha idade passávamos de um lado para o outro só para ter a adrenalina de sentir passar os poucos camiões por cima de nós, mas as águas desaguavam livremente numa pequena grota, que antigamente era o rego de passagem, mas que andava sempre limpo.

Com poucos gastos e muita boa vontade, ponham esse ramal a funcionar. Se é preciso tirar mais uma curva ou entrar mais nuns cerrados, com certeza não vai ser o fim do mundo. Do outro lado, na Rua da Falca e acesso à freguesia, é só levantar as paredes, regularizar o piso, minimizar alguns perigos bem evidentes pela má conceção e, já agora, embelezar um pouco mais os arruamentos. Ficaríamos com mais um acesso livre, que serviria de escapatória a um eventual imprevisto.


Artigo de opinião de João Ventura, originalmente publicado na edição de 6 de Novembro do jornal «Diário Insular».
Saudações florentinas!!

domingo, 15 de junho de 2014

O futuro depende de nós

A beleza das ilhas traz consigo uma população simples, humilde, honesta, rural e simpática. Enquanto que em outras partes do Mundo os turistas não têm grande relevância para as pessoas residentes, neste arquipélago são tratados de forma quase familiar. Os gestos de simpatia da população pacata incentivam-nos a voltar, daí ser uma ferramenta importante para o turismo.

O arquipélago dos Açores contém nove ilhas lindíssimas, ricas em fauna e flora. Os Açores têm vivido uma época de grande prosperidade no turismo, que muito possivelmente será o seu futuro mais promissor e que traz um desenvolvimento significativo nas áreas de hotelaria, restauração e atividades de lazer.

Como estas ilhas são autênticos paraísos para quem as visita, é necessário apostar e inovar nesta atividade. Para começar seria fundamental baixar os preços das viagens aéreas para atrair mais visitantes, inclusive aqueles com menos possibilidades económicas e também para facilitar as deslocações entre ilhas.

Seguidamente seria de grande importância reabilitar espaços degradados e trilhos pedestres que se danificaram com a passagem dos anos e com as derrocadas provocadas pelo mau tempo. Os locais antigos, como casas desocupadas e moinhos abandonados, devem aliar o conforto com a tradição para se adequar às necessidades e exigências dos turistas sem perder o património que também se vê ameaçado pela sua degradação.

Outra forma de mostrar que o arquipélago é verdadeiramente único a nível marítimo seria criar e implementar em todas as ilhas novas atividades neste meio. As viagens marítimas entre ilhas, observação e natação com cetáceos, mergulho, expedições em torno das ilhas, entre outras atividades já são praticadas, no entanto pode-se sempre inovar e cativar mais turistas.

A beleza das ilhas traz consigo uma população simples, humilde, honesta, rural e simpática. Enquanto que em outras partes do Mundo os turistas não têm grande relevância para as pessoas residentes, neste arquipélago são tratados de forma quase familiar. Os gestos de simpatia da população pacata incentivam-nos a voltar, daí ser uma ferramenta importante para o turismo.

No entanto para quem vive neste ambiente de ruralidade, a agricultura é, sem sombra de dúvida, o seu futuro. Com terras férteis e um longo historial nesta atividade, a agricultura é essencial para a autossuficiência das famílias açorianas. A cultura da vinha, dos vegetais e leguminosas, do alimento para o gado, da criação para consumo de gado, de suínos e de galinhas, entre outras atividades têm sido o seu sustento e continuarão a ser, pois a ilhas têm de se manter de certa forma rurais para que a sua beleza não seja destruída pela grande indústria.

A gastronomia é mais uma forma de abonar o futuro. A forte presença das tradições nas comidas açorianas, que são raras noutros pontos do Mundo, dão-lhes um caráter exclusivo. O cozido das Furnas, linguiça com inhames, lapas, peixe, erva “patinha”, sopas do Espírito Santo, torresmos, filhós/malassadas, queijadas da Graciosa, queijo de São Jorge, entre muitos outros pratos confecionados com as diversas partes dos animais ou com a biodiversidade presente no mar em redor das ilhas ou com a matéria prima cultivada são exemplos de pratos procurados por quem nos visita e que são cada vez mais procurados.

A falta de emprego tem feito os jovens emigrar. É necessário combater essa tendência, pois os jovens são o futuro das ilhas. É imprescindível criar emprego e mantê-los no local para que alguém possa tomar a iniciativa e desenvolver mais e mais as ilhas.

Concluindo, o turismo e a agricultura são as principais áreas promissoras para garantir um futuro de êxito no arquipélago dos Açores. É também essencial manter os jovens neste local para garantir esse futuro. Depende de todos nós que o destino dos açorianos seja sorridente.


Goreti Jorge
Estudante, Santa Cruz das Flores

Artigo de opinião de Goreti Jorge, integrante da edição de 30 de Maio do mensário «Mundo Açoriano», contendo caderno temático sobre o futuro dos Açores visto por 19 jovens de todas as nove ilhas.
Saudações florentinas!!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Impõe-se passar da palavra à acção

É necessário apostar no turismo durante todo o ano e não apenas na escassa temporada de Verão. Facto é que o nosso clima dificulta o acesso à ilha, mas não o impossibilita, de todo. Há outras atividades que podem constituir fatores de atração turística, como é o exemplo da agricultura biológica.

O arquipélago dos Açores é especial, por natureza e pela natureza. É um destino turístico cada vez mais procurado e, neste contexto, realço o potencial da ilha das Flores, de onde sou natural e onde escolhi residir, embora consciente do desafio que é cogitar o seu futuro.

A ilha das Flores é Reserva da Biosfera, denominação da UNESCO, facilmente percetível. Existem cerca de vinte e cinco percursos destinados à prática de canyoning, quatro percursos pedestres homologados, seis geosítios, onde estão incluídas, por exemplo, seis das sete lagoas existentes, bem como a Rocha dos Bordões e, por último, sete locais privilegiados para a observação de aves. São inúmeras as baías, locais propícios para o mergulho recreativo, ilhéus, cascatas e ainda temos para oferecer a possibilidade de praticar pesca desportiva, observar cetáceos e acampar em plena natureza.

Para além da hotelaria tradicional, tem sido aposta de alguns empresários locais o turismo rural, como é o caso da Aldeia da Cuada, inclusivamente reconhecida como um dos cinquenta hotéis mais românticos do Mundo (pela revista «Travel+Leisure») e, recentemente, como uma das dez aldeias mais pitorescas de Portugal (conforme publicação da «3 vilas»). O empreendimento de ecoturismo Sítio da Assumada, que contempla o aluguer de casas de madeira, auto sustentáveis, é o mais recente exemplo dessa aposta.

Apesar de todas estas oportunidades, penso que é necessária a criação de condições de desenvolvimento. A mais óbvia é a adequação do preço das passagens aéreas, uma luta antiga. No entanto, há muito para fazer noutros domínios, de forma prioritária. É necessário apostar no turismo durante todo o ano e não apenas na escassa temporada de Verão. Facto é que o nosso clima dificulta o acesso à ilha, mas não o impossibilita, de todo. Há outras atividades que podem constituir fatores de atração turística, como é o exemplo da agricultura biológica, que começa a conhecer algum desenvolvimento por parte de alguns empresários locais e pela comunidade estrangeira residente na ilha.

A vertente cultural, histórica e patrimonial deveria ser mais explorada na época baixa, nomeadamente através de visitas às estruturas museológicas e religiosas, como forma de transmissão daquilo que nos define como povo. A gastronomia é outro ponto fundamental. Têm de ser potenciadas condições para receber melhor, formação, quiçá.

Temos excelentes produtos: carne, peixe, marisco, laticínios e outros alimentos frescos e naturais, que podem enriquecer a nossa oferta.

Será tudo isto assim tão inalcançável ou irrelevante? Os dados estatísticos revelam que as dormidas na hotelaria tradicional subiram no mês de Janeiro. No caso da ilha das Flores, ficaram hospedadas mais cinquenta e duas pessoas do que em Janeiro do ano passado, num total de cento e oitenta e nove visitantes. É, no mínimo, um sinal positivo de que o turismo deve ser explorado durante mais tempo.

A população florentina encontra-se cada vez mais reduzida e envelhecida. O número de residentes não chega a três mil e oitocentos e não há condições para a fixação dos jovens. Impõe-se, com urgência, passar da palavra à ação, criar dinâmica, condições que promovam o emprego, que fixem os jovens, que muitas vezes pretendem regressar mas simplesmente não têm oportunidade. O turismo é uma porta entreaberta. Mas pretende-se um turismo sustentável, não direcionado para as massas e que respeite as condições naturais que definem o nosso panorama paisagístico e cultural.


Susana Soares
Repórter e técnica de audiovisual, Lajes das Flores

Artigo de opinião de Susana Soares, integrante da edição de 30 de Maio do mensário «Mundo Açoriano», contendo caderno temático sobre o futuro dos Açores visto por 19 jovens de todas as nove ilhas.
Saudações florentinas!!