sexta-feira, 29 de outubro de 2010

«Brumas e Escarpas» #12

O ciclo do milho na Fajã Grande, nos anos 50

Parte IV – “Semear milho”

No que concerne à sementeira do milho o maior e primeiro cuidado que havia de se ter era o da escolha da semente. Milho para semear tinha que ser de boa qualidade e, por essa razão, aquele que se queria para semente era seleccionado entre o melhor de toda a produção. Cada agricultor escolhia a terra onde o seu milho era melhor ou uma zona da mesma onde tal acontecesse e guardava-o com maior cuidado. As maçarocas destinadas à semente deviam ser conservadas em lugar apropriado e, por vezes, até deviam ter tratamento especializado, para que o gorgulho, o maior inimigo do milho seco, não as estragasse. Milho semeado que eventualmente estivesse furado pelo gorgulho não nasceria. Quem não conseguisse milho adequado para a sementeira resultante da sua própria colheita, tinha que comprá-lo, de contrário sujeitar-se-ia a uma nula ou má colheita.

Obtida a boa semente agendava-se o dia da sementeira. Nas terras da beira-mar semeava-se em Abril e princípios de Maio e nelas, quando o milho começava a nascer, era-lhe plantada, pelo meio, a batata-doce. Nas restantes terras, porque mais frias, semeava-se quando o tempo já era mais quente, ou seja, no início do Verão.

Numas e noutras terras o milho era semeado em regos feitos por um arado de pau, de forma muito semelhante ao atalhar. Este arado, todo em madeira excepto a ponta que era em ferro, era puxado por uma ou duas reses. Estas, caso não estivessem habituadas ao trabalho, para além do lavrador que ia agarrado à rabiça, conduzindo o arado no sítio certo para o rego, carregando-o para que fizesse um bom rego e tangendo os animais, teriam que ter alguém que andasse na sua frente, conduzindo-as de acordo com as orientações do lavrador que tentava levar sempre o arado de forma a traçar regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do campo. Era geralmente às mulheres que competia seguir atrás do arado, descalças, de lenço e chapéu na cabeça, atirando os grãos de milho para o respectivo rego. Esta tarefa exigia muita habilidade. Retirando punhados de milho de uma cesta que geralmente levavam enfiada no braço esquerdo iam atirando com a mão direita os grãos, uns após os outros, para os regos que eram sulcados pelo arado. Faziam-no com tanta agilidade e perícia que os grãozinhos caíam direitinhos bem no fundo do respectivo rego onde ficavam muito bem alinhados, juntinhos e equidistantes uns dos outros, para poderem nascer e crescer à vontade. Por vezes eram atirados de dois a dois para que nascesse um par de pezinhos de milho, como se fossem gémeos. Cada rego fechava-se com o abrir do rego seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim a terra era novamente gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos para que os pássaros os não comessem e também para que germinassem mais facilmente, com a ajuda do sol e da chuva dos dias seguintes. A sementeira do milho, sobretudo se a terra era boa e estava bem adubada, era muito densa e feita de forma a aproveitar muito bem todo o terreno. Este aproveitamento era tal que terminada a tarefa até se semeavam manualmente e com uma enxada os cantos que tinham ficado por lavrar, porque o arado não conseguira lá chegar.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

2 comentários:

Anónimo disse...

É muito bom ainda haver pessoas com grande memória do passado. Estas pessoas ainda vão servir para dar aulas a esta juventude de hoje que nada sabe fazer e com a crise á porta perveijo que os moihos ainda vão moer muito milho e ainda vai-se voltar a semear milho com o tal arado de pau e as terras ainda vão ser como antigamente adubadas com tremoços e guardar a semente para o ano seguinte. Muito mais tinha para dizer mas há-de ficar para uma próxima oportunidade. Escreveu um Trabalhador dos anos 50.

DR.PARDAL disse...

Daqui pr'a frente, quem não tiver algumas «quartas» de terra vai passar muito mal.

Os cofres do Pereira, do JL e os de D.César da Atlântida e das Viagens Baratas para Enganar Totós, estão todos limpinhos.

Por isso, os habituais «clientes» daquelas «casas de atacado», farão muito bem se comprarem um bom sacho!