quarta-feira, 29 de setembro de 2010

«Brumas e Escarpas» #9

O ciclo do milho na Fajã Grande, nos anos 50

Parte I – A importância da sua cultura

A economia (se é que se pode falar em tal) da Fajã Grande, nos anos 50, baseava-se fundamentalmente numa agricultura de subsistência, em que o principal e mais importante produto cultivado era o milho, a cuja cultura estava necessariamente ligada a pecuária. Nesta agricultura de subsistência o cultivo do milho revelava-se deveras muito importante, dado que dele dependia quase na totalidade a sobrevivência da população e, por essa razão, o seu ciclo prolongava-se em etapas diferentes e em tarefas múltiplas e diversificadas ao longo de quase todo o ano. Além disso os espaços circundantes às habitações, nomeadamente as casas de arrumos, os palheiros e os estaleiros, bem como os utensílios agrícolas existentes edificavam-se, construíam-se, adaptavam-se, adequavam-se ou até se adquiriam em função das necessidades a que a árdua tarefa de cultivar e produzir o milho obrigava a população.

Por outro lado, urge clarificar que todo o desmesurado trabalho, o cansativo esforço e até os enormes gastos que se tinha com a produção do milho eram, na realidade, extremamente compensados, com tudo aquilo que o milho dava. Em primeiro lugar o produto final, ou seja, o que de mais importante se extraía do milho – a farinha, com a qual se fazia o pão e o bolo, elementos básicos na cardápio alimentar de então. Mas não se ficavam por aqui os lucros e benefícios de tal produção. As maçarocas, quando o milho estava verde e ainda “vertiam leite”, eram cozidas juntamente com as batatas brancas ou assadas no espeto e constituíam um bom e saboroso alimento. Também com os grãos ainda verdes se faziam as papas grossas, obtidas através de uma farinha moída em moinhos de mão que a maioria das casas possuía. Quem não o tinha, ia moer a casa da vizinha. As folhas tinham um peso substancial na alimentação do gado no Inverno e as espigas, ainda verdes, também alimentavam os bovinos no Verão; a parte interior da casca das maçarocas, depois de desfiada e alisada, era utilizada para encher os colchões, travesseiros e para fazer capachos para a entrada das portas e com a restante também se alimentavam os bovinos; o milho desbastado, quer o mais pequeno mas sobretudo o maior, era utilizado para alimento do gado; parte dos milheiros utilizava-se para fazer o lume em que se cozinhava a comida do porco, enquanto outros eram picados em pequenos pedaços e utilizados para “secar” o curral do suíno das húmidas imundícies em que era profícuo, graças ao seu desassossegado e hediondo reboliço; os sabugos eram utilizados para acender o lume, para as crianças brincarem e até para limpeza e higiene do rabiosque; uma boa parte das maçarocas, sobretudo aquelas cujos grãos eram mais raquíticos bem como as excedentes da produção da farinha, eram utilizados para alimento das galinhas, do porco e das vacas “à engorda” e até com os fios da cabeleira que saíam da ponta da maçaroca, depois de secos, se fazia chá, muito recomendado nos achaques dos rins e nas infecções urinárias. Além disso e depois de peneirada, a farinha deixava no fundo da peneira um farelo que era utilizado em parte para engrossar as águas das lavagens do porco e também para alimento das galinhas, fazendo-se com ele uma espécie de bola a que se juntavam couves e cascas de batatas, geralmente cozidas e picadas. Finalmente, com a farinha do milho ainda não seco faziam-se “papas grossas”.

Daí que toda esta “riqueza” resultante do cultivo do milho justificasse por demais um trabalho excessivo e cuidadoso e envolvesse toda a população no seu cultivo, a que dedicava grandes cuidados e gigantescos esforços. O milho era, na realidade, a causa e a razão de tudo. Daí que ter terras de milho, bem verdinho, muito alto, bem espigado e com boas maçarocas era um orgulho para os seus proprietários e motivo para serem louvados e, talvez mesmo, invejados.


Carlos Fagundes

Este artigo foi (originalmente) publicado no «Pico da Vigia».

7 comentários:

Anónimo disse...

Este post deu-me uma ideia: vou almoçar sopas de leite à antiga,com meia duzia de chicharros secos.

Anónimo disse...

O milho servia para tudo isso e ainda mais, não vamos esquecer o milho torrado que era uma delicia naquels anos. Era com o milho torrado e as favas que se festejava o S. João.

Anónimo disse...

Também ai pelos lados da Fagã se plentava batata doce dentro do milho, e cá pelos lados das Lajes minha mãe torava a farinha de milho e metia-se no café era muito bom e saudavél.Belos tempos pobres mas saudaveis.

Anónimo disse...

È verdade era com o milho torrada e a favas e uma fogueira com louros do mato que se ia buscar para aquele dia e se festejava o são joão com muita alegria vesitando as foguieras.

Anónimo disse...

Quando os louros se acabavam eu atirava para a fogueira as botas velhas para a fogueira continuar.
A fogueira que mais durava é que ganhava.
Tempos simples mas alegres.

DR.PARDAL disse...

Agora o pessoal está acostumado a comer «comida da loja»....

Deliciosos tempos aqueles, quando a comida sabia a comida!

Anónimo disse...

Recordar é viver.Eu lembro-me de muitos anos chegar a casa cançado do trabalho e nem comia pegava na corda e no machado e ala para o mato mais meus irmão cortar louros para se fazer a fogueira. Tal era alegria de festejar o são joão com a fogueira que mesmo cançado e com fome não se podia ficar sem a fogueira.